O QUE É UMA HERESIA?

O QUE É UMA HERESIA?

O que é uma heresia e qual é a importância Histórica de tal coisa?

Como muitas das palavras modernas, “heresias” é usada vaga e diversamente. É usada vagamente, porque a mente moderna tem tanta aversão a precisão de ideias Quanto é enamorada pela precisão das medidas. É usada diversamente, pois dependendo do homem que usa, pode significar milhares de coisas.

Hoje para muitas pessoas (que usam o idioma inglês ou ocidental no geral) a palavra “heresia” tem a conotação de discussões passadas e esquecidas, um velho preconceito contra a reflexão racional. Por conseguinte, pensa-se que é heresia carece de interesse contemporânea. O interesse nela está morto, porque trata de assuntos que ninguém leva a sério atualmente. É compreensível que um homem possa se interessar por uma heresia por curiosidade arqueológica, mas se afirmar que ela tenha tido um profundo efeito na história e ainda o tem hoje, ele dificilmente será compreendido.

Mesmo assim, a heresia em geral é uma fonte de grande importância para o indivíduo e para a sociedade, e a heresia em seu sentido particular (que é o da heresia na doutrina Cristã) e de interesse especial para qualquer um que queira entender a Europa: o caráter da Europa e a história da Europa. Por que a totalidade da sua história, desde o surgimento da religião cristã, tem sido a história de lutas e mudanças, em sua maioria precedidos, com frequência senão sempre causados, e certamente acompanhados por divergências de doutrina religiosa. Em outras palavras, a “heresia cristã” é um assunto especial cuja compreensão e de máxima importância para a compreensão da história europeia, porque a ortodoxia Cristã é uma companhia e um agente constante da vida Europeia.

Devemos começar pela definição, embora definir algo envolva um esforço mental contra o qual frequentemente resistimos.

Heresia é o deslocamento de um esquema completo e autossuficiente por meio da introdução de uma negação de uma das suas partes essenciais.

Por “um esquema completo e auto-suficiente” entendemos qualquer sistema afirmativo em Física, Matemática e filosofia, ou em qualquer área, em que as várias partes são coerentes e sustentam-se mutuamente.

Por exemplo, o velho esquema da física, frequentemente chamado de “newtoniano” por ter sido Newton quem melhor o definiu, é um esquema desse tipo. as várias coisas afirmadas por ele sobre o comportamento da matéria, notadamente a lei da gravidade, não são afirmações isoladas que podem ser retiradas à vontade sem desarranjar o resto; são partes de uma concepção ou unidade tal que, se você modifica uma única parte todo o esquema é desmontado.

Outro exemplo de um sistema similar é a nossa geometria plana, herdada dos gregos e chamada “euclidiana” por aqueles que pensam (ou tem a esperança) de ter concebido uma nova geometria. Cada proposição em nossa geometria plana — a que diz que a soma dos ângulos internos de um triângulo plano é igual a dois ângulos retos, a que diz que o ângulo inscrito em um semicírculo é reto etc. Não só é sustentada por cada uma das outras proposições do sistema, mas, por sua vez ela sustenta cada parte individual do todo.

Heresia significa, então, distorcer um sistema por meio de uma “omissão”: “escolhendo-se” uma parte da estrutura, o que implica que o esquema é desfigurado pela retirada de uma de suas partes, negando-se uma parte dele, quer deixando um vazio sem preenchimento, quer preenchendo-o com alguma outra afirmação. Por exemplo, no século XIX construiu-se um esquema de crítica textual para estabelecer a data de um documento antigo. Um dos princípios desse esquema é este: que qualquer afirmação de milagre é necessariamente falsa. “Quando você encontrar, em qualquer documento, a descrição de um milagre atestado pelo autor desse documento, você tem o direito de concluir” (nos diz o crítico textual do século XIX, falando todos como um só homem) “que o documento não é contemporâneo ao milagre — não foi escrito na data que pretende ser”. Mas aparece um novo e original crítico que diz: “Não concordo. Penso que milagres acontecem e também que pessoas mentem.”Um homem insurgindo-se assim é um herege em relação a esse particular sistema ortodoxo. Uma vez concedida essa exceção, todo um número de certezas negativas se torna inseguro.

Você está certo, Por exemplo, que o relato da vida de São Martinho de Tours feito por quem afirmava ser uma testemunha contemporânea, não é o relato de uma testemunha contemporânea por causa dos Milagres que continha. Mas admitindo o novo princípio, esse testemunho pode se tornar contemporâneo afinal e, portanto pode ser considerado como histórico se testemunha algo que não é milagroso de forma alguma, mas que não se encontra em nenhum outro documento.

Você lê na vida de um Taumaturgo que ele ressuscitou um homem na Basílica de Viena no ano 500 DC. A escola Ortodoxa de crítica diria que toda a história é obviamente falsa e, posto que inclui milagres, não é prova de que a Basílica de Viena existia naquela data. Mas nosso herege, que Desafia o cânone ortodoxo da crítica, diz: “parece-me que o biógrafo do Taumaturgo pode estar mentindo, mas ele não teria mencionado a Basílica e a data a menos que seus contemporâneos soubessem, assim como ele, que havia uma Basílica em Viena naquela data. Uma falsidade não pressupõe falsidade Universal do narrador”. E até poderia aparecer um herege ainda mais ousado que dissesse: “Esta passagem não só constitui uma evidência perfeitamente legítima para a existência de uma Basílica em Viena no ano 500, mas até considero possível que o homem tenha sido ressuscitado”. Se você concordar com um desses críticos, você está alterando todo o esquema de provas por meio do qual a história verdadeira é peneirada da falsa na crítica textual contemporânea.

A negação completa de um sistema não é uma heresia e não tenho poder criativo de uma heresia. É da essência de heresia deixar intacta uma grande parte da estrutura que ataca. Por isso, ela pode seguir dirigindo-se aos fiéis e continuar a afetar suas vidas os desviando das suas características originais. É por isso que se diz das heresias “que elas sobrevivem pelas verdades que guardam”.

Devemos destacar que, quanto ao valor que a heresia tem no âmbito do estudo histórico, é indiferente que o esquema completo atacado Seja verdadeiro ou falso. O que nos interessa é a verdade altamente atraente de que a heresia dá origem a uma vida nova independente que afeta vitalmente a sociedade que ataca. A razão dos homens combaterem as heresias não é somente, ou Principalmente, conservadorismo — uma devoção à rotina, uma antipatia à perturbação em seus hábitos de pensamento — é muito mais por uma percepção de que a heresia, à medida que cresce, produzirá um modo de vida e um caráter social que desafia, contradiz e que talvez seja mortal ao modo de vida e ao caráter social produzido pelo esquema antigo e ortodoxo.

Isso já é o bastante em benefício do significado e interesse dessa tão fértil palavra “heresia”.

Seu significado particular que é usado neste texto é o de desfigurar por exclusão algo daquele sistema completo a religião cristã.

Por exemplo, essa religião tem como uma parte essencial (apesar de ser uma parte apenas) a afirmação de que a alma individual é imortal — a consciência pessoal sobrevive à morte física. Se as pessoas acreditam nisso, olham para o mundo e para si mesmas de certa maneira, agem de determinada forma e são pessoas de certo tipo. Se não acreditam nisso (se elas excluem ou se omitem essa crença), há um corte nessa doutrina. Elas podem continuar a manter todas as outras crenças, mas o sistema é modificado, o tipo de vida, caráter e o resto se tornam muito diferentes. O homem que está certo de que morrerá para sempre pode muito bem acreditar que Jesus de Nazaré era o Deus de Deus ,que Deus é trino, que a Encarnação foi acompanhada de um Nascimento e virginal, que o pão e o vinho são transformados de uma certa de uma forma particular; pode recitar um grande número de preces cristãs e admirar e imitar certos cristãos, mas será um homem diferente daquele que considere a verdadeira a imortalidade.

Por que a heresia nesse sentido particular (A negação de uma doutrina Cristã aceita) afeta assim o indivíduo, ela afeta toda a sociedade e quando você estiver examinando uma sociedade formada por uma religião particular, você necessariamente se preocupará ao máximo com as distorções e simplificações dessa religião. Este é o interesse histórico da heresia. Por isso, quem quiser entender como a Europa veio a ser o que é e quais foram as causas das suas mudanças, não pode tratar a heresia como algo sem importância. Os clérigos que lutaram tão furiosamente por detalhes nos conselhos orientais tiveram muito mais senso histórico que estavam muito mais em contato com a realidade do que os céticos franceses, familiares aos leitores Ingleses através de seus discípulos.

Um homem que pensa, por exemplo, que arianismo é uma mera discussão de palavras, não vê que um mundo Ariano teria sido muito mais parecido com o mundo muçulmano do que a Europa atual. Ele está muito menos em contato com a realidade do que estava Atanásio quando afirmou que a doutrina é de suma importância. Aquele Concílio local de Paris, que pendeu a balança a favor da tradição trinitária foi tão importante quanto uma batalha decisiva, e não entender Isto é ser um mau historiador.

Dizer que tanto ortodoxo quanto o herege estavam sofrendo de Alucinação, que estavam discutindo questões que não tinham real existência e que não valiam o esforço do debate não é uma resposta para tal tese. A questão é que a doutrina (e sua negação) era fundamento da natureza dos homens, e a natureza assim formada determinava o futuro da sociedade composta por aqueles homens.

Há outra consideração em relação a isso que é muito frequentemente omitida atualmente: que uma atitude cética em relação as coisas transcedentais não pode, para um grande número de homens, durar. Que isso seja verdade é o desespero de muitos. Estes deploram a desprezível fraqueza da humanidade que a compele a acreditar em alguma filosofia ou religião a fim de suportar os problemas da vida. Mas temos aqui uma experiência positiva e Universal.

De fato, não há como negar isso. É um fato puro e simples. A sociedade humana não pode desenvolver-se sem nenhum credo. Porque um código e um caráter são produtos de um credo. Embora alguns indivíduos, especialmente aqueles que levam uma vida privilegiada, possam frequentemente seguir com um mínimo de certeza ou hábitos a respeito de questões transcendentais, uma massa humana orgânica não pode agir da mesma forma. Assim, a Inglaterra atual está sustentada por toda uma religião: a religião do patriotismo. Destrua isso nos homens por algum desenvolvimento herético, “excluindo” a doutrina de que a principal tarefa do homem é para com a sociedade política a que ele pertence, e a Inglaterra, como a conhecemos, iria gradualmente deixar de existir e se tornaria outra coisa.

Heresia, então, não é um assunto fossilizado. É um assunto de permanente e de vital interesse para a humanidade porque está associado a religião, sem a qual nenhuma sociedade humana jamais perdurou ou pode perdurar. Aqueles que pensam que o assunto heresia possa ser desprezado por que o termo soa fora de Moda e por que está relacionado a diversas disputas a muito abandonadas, cometem o erro comum de pensar nas palavras e não nas ideias É o mesmo tipo de erro que contrasta os “EUA” como república e a Inglaterra como “monarquia”, enquanto sabemos que o governo dos EUA é essencialmente monárquico e o governo Inglês é essencialmente Republicano e aristocrático. Não há fim para os mal-entendidos que surgem dos usos ambíguos das palavras. Mas se recordarmos o simples fato de que um estado, uma comunidade humana ou uma cultura geral devem ser inspirado por um conjunto de regras Morais, e que não pode haver esse conjunto de normas morais sem uma doutrina, então a importância da heresia como tema será clara, porque heresias não significa outra coisa senão “a proposição de novidades em religião, escolhendo-se algo do que tem sido a religião aceita, negando-se ou substituindo-se esse algo por outra doutrina até então e não familiar”.

O estudo das sucessivas heresias cristãs, seus respectivos caracteres e destinos, tem um interesse especial para todos nós que pertencemos à cultura europeia e Cristã, e esta deve ser uma razão evitar — Nossa cultura foi feita por uma religião. Mudanças ou desvios dessa religião afetam necessariamente Nossa civilização como um todo.

Toda a história da Europa — seus vários reinos, estados e regiões em geral — durante os últimos 16 séculos foi afetada principalmente por sucessivas heresias surgidas no Mundo Cristão.

Somos o que somos hoje principalmente porque nenhuma daquelas heresias finalmente sobrepujou nossa religião ancestral, mas somos também o que somos Por que cada uma delas afetou profundamente nossos ancestrais por gerações, cada heresia deixou um Rastro, e uma delas, o grande movimento de Maomé, permanece até hoje uma força dogmática e preponderante num vasto Território, que foi um dia, nosso.

Se alguém for catalogar as heresias marcantes da longa história da cristandade, a lista seria infinita. Elas se dividem ou e se subdividem, existem em várias escalas, variam do local para o geral. Suas vidas se estendem de pouco menos de uma geração a séculos inteiros. A melhor forma de entender o assunto é selecionar uns poucos exemplos proeminentes e, pelo estudo deles, entender a vasta importância que a heresias pode ter.

Tal estudo é o mais fácil, pois nossos ancestrais reconheceram a heresia pelo que ela era, deram-lhe em cada caso um nome particular, submeteram a uma definição e, portanto, a Limites, e por tal definição facilitaram a análise.

Infelizmente, no mundo moderno, tal hábito de definição foi perdido; a palavra “heresia”, tendo vindo conotar algo antigo e fora de moda, não é mais aplicada a casos que são claramente heresias e que devem ser tratados como Tais.

Por exemplo, há atualmente a negação do que os teólogos chamam de “domínio” — que é o direito à propriedade privada. É amplamente aceito que as leis que permitem a propriedade privada da Terra e do Capital são imorais; que o solo de todos os bens que são produtivos deve ser Comunitário e que qualquer sistema que deixa seu controle a indivíduos ou famílias está errado e, portanto deve ser atacado e destruído (MST).

A essa doutrina, já muito forte entre nós, que continua crescendo em força em número de aderentes, não damos o nome de heresias. Pensamos nela apenas como um sistema político ou econômico e, quando falamos de Comunismo, nosso vocabulário não sugere nada teológico. Mas isso é apenas porque nós nos esquecemos do significado da palavra “teológico”. Comunismo é tão heresia quanto maniqueísmo. Ele retira do sistema moral em que vivemos uma parte particular, Nega essa parte e tenta substituí-la por uma inovação. O comunismo retém muito do sistema cristão — igualdade humana, direito à Vida, etc. Ele nega uma parte apenas.

O mesmo é verdade para o ataque à indissociabilidade do matrimônio. Ninguém chama de heresia a moderna prática e defesa do divórcio, mas heresias ela é pelo seu caráter determinante de negação da doutrina Católica do matrimônio e a substituição por outra doutrina, qual seja, que o matrimônio não é mais que um contrato e um contrato cancelado.

É igualmente uma heresia, “uma mudança por exclusão”, a afirmação de que nada pode ser conhecido das e coisas divinas, que tudo é mera opinião e que, portanto, as coisas que são asseguradas pelos nossos sentidos e por experimentação devem ser nossos únicos guias na organização dos assuntos humanos. Aqueles que pensam assim devem reter, e comumente o fazem, a maior parte da moral cristã, mas porque eles negam a confiança Na Autoridade, cuja doutrina é parte da epistemologia cristã, eles são hereges. Não é heresia dizer que a realidade pode ser conhecida por experimentação, por percepção sensitiva e por dedução. É heresia dizer que a realidade não pode ser conhecida por nenhum outro meio.

Vivemos hoje sob o regime da heresia. A única coisa que distingue este dos antigos períodos de heresias é que o espírito herético está generalizado e aparece de várias formas.

Em algum momento teremos que dar nome ao que podemos chamar de “ataque moderno”, esses que tem feito a igreja viver, talvez, o pior momento na história, mas temos muitas ondas de heresias que nos atacam e temos que dar nome a essas ondas de heresias (CEBs, TL, inculturação Litúrgica etc). Até o momento não temos um nome comum para elas. Talvez isso acontecerá em breve, mas não antes que o conflito entre o moderno espírito anticristão e a tradição permanente da fé se torne agudo por meio da perseguição e triunfo ou da derrota. Será então, talvez, lembrando que só sofrem as dores de parto da perseguicão aqueles que permanecem na ortodoxia da fé dos pais da igreja, então entraremos na era chamada de anticristo.

Texto original: Hilaire Belloc

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