EXISTIU UMA PAPISA CHAMADA JOANA NA IGREJA?

EXISTIU UMA PAPISA CHAMADA JOANA NA IGREJA?

(A papisa Joana é uma heroína escandalosa e ao mesmo tempo uma mulher maravilhosa, produto do imaginário medieval).

A história surgiu no final do século XIII e vou resumi-la de acordo com o Livro de Alain Boreau. Por volta de 850, uma mulher nativa de Mainz, mas de origem inglesa, traveste-se a fim de seguir o seu amante, muito dedicado aos estudos e prometido, portanto, a um mundo exclusivo à mente masculina. Ela própria alcança ótimos resultados neste meio a ponto de, após uma estadia de Estudos em Atenas, receber em Roma uma acolhida calorosa e admirativa que lhe permite entrar na hierarquia da igreja e, por fim, ser eleita a papa. Seu pontificado dura mais de dois anos e é interrompido por um escândalo: Joana, que não renunciou aos prazeres da carne, fica grávida e morre durante uma procissão entre as basílicas de São Pedro do Vaticano e a de São João de Latrão, após dar à luz uma criança publicamente. Diversas versões da história produzem vestígios, provas, uma memória da papisa desde aquele tempo. Verifica-se manualmente o sexo dos Papas durante o coroamento. As procissões pontificais abandonariam o caminho direto do Vaticano a Latrão na altura da igreja de São Clemente, no intuito de evitar o local do parto. Uma estátua e uma inscrição naquele lugar teriam marcado uma lembrança deste deplorável incidente.

Esta papisa nunca existiu. Joana é uma heroína imaginária. Contudo, ela foi objeto de uma crença, oficial e popular ao mesmo tempo, entre 1250 e 1550, tendo dado origem a um objeto cultual e a um mito na igreja cristã durante esse período. Le Goff tem a tese de que “ela encarnou o medo da mulher defendido pela igreja e sobretudo medo de uma intrusão feminina na própria igreja”. Alguns acusam de ser um movimento que garantia a onipotência do papado à igreja e construía uma contra imagem do Papa feminino: a papisa. O medievalista brasileiro Hilário Franco Júnior na livro (sobre as utopias medievais) propõe enxergar na história da papisa Joana a utopia da androginia, o que nos dias atuais parece sugerir uma espécie de ideologia de gênero. Também não é considerável que este personagem seja como uma rejeição do outro sexo ou que como sua anexação. Dentro da tradição bimilenar da igreja, a mulher sempre teve um papel limitado, chegando no máximo ao diaconato. Foi o século XIII que impôs papisa à igreja e à história.

Alan boreau, o grande historiador da papisa Joana, mostra bem o papel desempenhado nesta construção pelo que ele chama de rede Dominicana. A papisa Joana surge primeiro na obra do dominicano João de Mailly (1243); depois em Speculum historiale (o espelho historial), do dominicano Vicente de Beauvais, enciclopedista favorito de São Luís (por volta de 1260), mas foi um outro dominicano, Martinho de Opava (nativo de Opava, na Bohemia, frade do convento dominicano de Praga, dependente da província polaca), Capelão e penitenciário pontifical, que garantiu o destino da papisa Joana em sua crônica dos imperadores por volta de 1280. A papisa Joana aparece na mesma época na obra dos autores de coletâneas como de: Estevão de Bourbon e Arnoldo de Liége.

O texto de Martinho de Opava:
Após o último leão (Leão IV), João, de nacionalidade inglesa, originário de Mainz, foi Papa durante 2 anos 7 meses e 4 dias. Morreu em Roma e o papado ficou vago durante o mês. Pelo que se diz, ele era uma mulher. Em sua adolescência, ela fora conduzida a Atenas vestida de homem por aquele que era seu amante Fizera muitos progressos nas diversas ciências sem que ninguém a houvesse igualado. Foi assim que em seguida pôde ensinar em Roma o trivium e teve como discípulos e ouvintes autos magistrados. E, tendo em vista que sua conduta e ciência gozavam de uma grande reputação na cidade, elegeram-na Papa por unanimidade. Porém, durante o seu pontificado. Seu companheiro engravidou-a. Como ela/ele ignorava o momento em que devia parir, quando estava se dirigindo para Latrão, vindo de São Pedro, tomada pelas dores do parto entre o Coliseu e a Igreja São Clemente, ela deu à luz uma criança e depois morreu, no exato lugar onde foi enterrada. E, já que o Senhor Papa sempre desvia nesta parte do trajeto, acredita-se geralmente que ele faz por repugnância a este acontecimento. Ela não foi inscrita no catálogo dos Santos pontífices em função da não conformidade com o sexo feminino neste domínio.

Por volta de 1312, no momento em que se começa a atribuir um número aos soberanos, Tolomeu de Luca, outro dominicano e discípulo de Santo Tomás de Aquino, designa o número VIII à papisa (trata-se, portanto, de João VIII), tornando-se o 107° Papa em sua história eclesiástica.

Na realidade, porém, durante este período a igreja afasta as mulheres definitivamente das responsabilidades institucionais eclesiásticas e funções sacramentais. O decreto de Graciano, que por volta de 1140 funda o direito canônico, afasta as mulheres estritamente da igreja. A propósito da papisa Joana, no final do século XIII, dois dominicanos mais uma vez, Roberto Uzes, em suas visões da profecias, e Tiago de Voragine, o célebre autor da Legenda Áurea, em sua crônica da cidade de Gênova, comentam sobre o horror da poluição do Sagrado pela mulher a respeito da papisa. Tiago de Voragine exprime-se da seguinte forma:
“ Esta mulher empreende com presunção, persiste com falsidade estupidez e termina vergonhosamente. Tal é de fato a natureza da mulher, que, diante de uma ação a realizar, tem presunção e audácia no início, burrice no meio e passa vergonha no fim. A mulher, portanto, começa a agir com presunção e audácia, mas não leva em consideração o fim da ação e o que esta envolve. Ela pensa já ter feito grandes coisas. Se puder começar algo de grande, não saberá mais, depois do início, durante a ação, continuar com sagacidade o que foi iniciado, e isto por causa de uma falta de discernimento. Ela é obrigada. Portanto, a terminar com vergonha e ignomínia o que foi empreendido com presunção e audácia e continuado com burrice. E, assim está demonstrado claramente que a mulher começa com presunção, continua com burrice e termina com ignomínia.”

A crença na papisa Joana faz surgir então um novo objeto e o novo rito da liturgia pontifical. O objeto é um assento sobre o qual o novo Papa, durante o seu coroamento, senta-se para que o encarregado do rito possa verificar a sua virilidade no intuito de evitar o possível retorno de uma papisa. O rito é, portanto, um toque deste indivíduo no corpo do Papa, destinada a confirmar se ele realmente possui partes viris.
No entanto, com relação à papisa, as mentalidades e sensibilidades evoluem. Os ritos e lendas em torno do Papa adquirem aspectos folclóricos. No século XIX, foi em um contexto de lendas ligadas ao Papa que o Cônego Ignaz Von dollinger, (em As fábulas pontíficais da idade média), tirara a história da papisa Joana do início do livro e colocará em uma série de lendas a respeito dos Papas da Idade Média. A partir do século XIX, um texto de paródia, a ceia de Cipriano, imaginara uma paródia de liturgia pontifical que fora representada em presença do Papa e do imperador, e um verdadeiro carnaval fora instituído em Roma: trata-se da festa do Testaccio, das quais a do ano de 1256 é descrita. Ao mesmo tempo, desenvolvia-se, como bem mostra Agostino Paravicini Bagliani, um ardente interesse pelo corpo do Papa, tanto em sua forma real como e seu significado simbólico.

A papisa Joana é submetida, aliás, às repercussões da evolução da imagem maravilhosa da mulher, na qual há oscilação bastante comum a este imaginário, entre o bem e o mal, o prestígio e horror. Ao mesmo tempo em que acaba virando um cruzamento de bruxa, a papisa figura no cortejo das damas exuberantes que em 1361 Boccaccio descreve em seu de muliéribus Claris (mulheres ilustres). Como Alain Boreau diz acertadamente: em 1361, Joana saiu da igreja para entrar na literatura e ter feminilidade.

Contudo a iconografia da papisa desenvolve-se a partir de um duplo registro. A imagem histórica e escandalosa aparece na miniatura, depois na gravura, e concentra-se na cena do parto. A imagem hierática e prestigiosa passa do carnaval à alegoria e invade o tarô. Uma corrente de paródia inspira Rabelais em seu terceiro livro em 1546. Convém não reproduzir, pois traz palavras muito vulgares.

Curiosamente, o luteranismo garante uma nova vitalidade à papisa Joana. Os luteranos ficam de fato encantados em fingir acreditarem na realidade de uma personagem que encarna tão bem o que eles queriam demonstrar como a baixeza da igreja romana. Porém, o desprezo calvinista logo em seguida e a crítica racionalista ainda mais tarde arruínam o mito de uma papisa Joana histórica. A enciclopédia encaixa a papisa Joana na categoria dos contos de velhas comadres. E Voltaire, no ensaio sobre os costumes, escreve a respeito do assassinato de João VIII em 882: “Não é mais verdadeiro do que a história da papisa Joana”. Apenas o teatro alemão retomou com sucesso a história da papisa Joana sob o nome de Frases Jetta por volta de 1480.

A Revolução Francesa interessa-se pouco pelo tema da palestra em função de seu espírito crítico com relação à religião e à igreja. A única que alcançou certo sucesso foi a ópera-bouffe de Defaucinpret que termina com uma paródia do ça ira ( é um refrão que simbolizava a revolução francesa).

Porém, a história da papisa parece continuar sendo popular, pelo menos em Roma. Stendhal conta em Passeios em Roma 1830, livro no qual recopia em grande parte uma viagem pela Itália publicado por Nilsson em 1694:
“Quem acreditaria que ainda hoje em Roma há pessoas que dão muita importância a história da papisa Joana? Uma personagem bastante Eminente e que aspirava ao cardinalato atacou-me nesta noite sobre Voltaire, que segundo ela teria se permitido muita gente com relação à papisa Joana”.

A papisa beneficiou-se de um novo entusiasmo no final do século XIX e XX enquanto “curiosidade da história ocidental”. Um livro burlesco parece ter sido responsável por este renascimento, Papisa Joana, publicado em Atenas em 1886 pelo Diego Emanuel Rígidos. Este romance alcançou um sucesso considerável na Europa, onde foi traduzido para as principais línguas. Ele foi atacado por Barbey d’Aurevilly, traduzido por Alfred Jerry (produção publicada após sua morte em 1908 e traduzida para o inglês por Lawrence Durrell em 1971). Pensa-se que o romance policial de Georges Bernanos, Um Crime (1935), retoma a história da papisa Joana. Esta teria tentado até o cinema: no filme de Maichael Anderson, Pope Joan, é uma atriz sueca Liv Ullmann que encarna a papisa.

Também já se quis fazer reviver a papisa nos trabalhos (particularmente bem acolhidos nos Estados Unidos, em especial os de Luce Irigaray) que sondam as relações tumultuadas entre as igrejas e as mulheres ao longo da história, principalmente na idade média. É provável que a papisa Joana permanecerá como pano de fundo para sempre, devido às exigências das mulheres em ter uma maior importância nas instituições eclesiásticas e funções sacramentais, o que nunca tiveram e nunca será possível. Então a imagem desta heroína escandalosa, a papisa Joana, sem dúvida nunca estará ausente do inconsciente daqueles que desejam estar nos altares do Vaticano.
Referência bibliográfica: Jacques le Goff, Heróis e maravilhas da Idade Média

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: