O “MAS” DOS ERUDITOS PROTESTANTES (uma opinião)

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Há, é inegável, bons patrologistas entre católicos e protestantes.

Entre esses últimos, J.N.D Kelly destaca-se pela profundidade e clareza.

Não sendo, entretanto, católico, é natural que se esforce para “enfraquecer” concepções comuns entre os especialistas vinculados diretamente à Igreja de Roma.

E ele, de fato, algumas vezes, comete esse deslize.

Assim, com relação ao reconhecimento do primado romano pela Igreja oriental, nos primeiros séculos, Kelly, depois de uma declaração (no meu modo de ver, contundente) vem com um “mas”, um “porém”, que ele NÃO DEMONSTRA senão com inferências pouco consistentes.

Diz, por exemplo, que na Igreja oriental o primado da Igreja romana e do seu bispo era um “primado de honra”.

Que “as igrejas orientais jamais trataram Roma como o centro constitucional e a cabeça da Igreja”.

Ele, repito, não é católico.

Mas, prestem bastante atenção no que, imediatamente ANTES desses “poréns”, diz Kelly, sob o tópico: “O ORIENTE E A SÉ ROMANA” (versais minhas):

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“Embora a questão diga respeito mais à história da Igreja do que à doutrina, a essa altura é mister que se diga algo sobre a atitude do Oriente em relação a ESTRUTURA CONSTITUCIONAL da Igreja. O quarto século e o quinto foram o período do surgimento AUTOCONSCIENTE dos grandes patriarcados; a posição de Roma, Alexandria e Antioquia foi reconhecida em Nicéia (325), enquanto Constantinopla e Jerusalém receberam mais tarde o título de patriarcados nos concílios de Constantinopla (381) e Calcedônia (451), respectivamente. EM TODOS OS LUGARES, TANTO NO ORIENTE QUANTO NO OCIDENTE, ROMA DESFRUTAVA UM PRESTÍGIO ESPECIAL, conforme se vê na precedência que lhe atribuiam SEM NENHUM QUESTIONAMENTO. A única rival possível era a nova sé de Constantinopla, que experimentava uma rápida expansão, mas a maior reivindicação que o segundo Concílio Ecumênico (381) podia fazer em seu favor (que mesmo assim foi ignorada por Alexandria e seria rejeitada pelos legados papais em Calcedônia e foi declarada nula pelo Papa Leão I) era que “o bispo de Constantinopla deve ocupar o primeiro lugar APÓS O BISPO DE ROMA, porque Constantinopla é a nova Roma”. Desse modo, A PREEMINÊNCIA DE ROMA MANTEVE-SE INCONTESTE NO PERÍODO PATRÍSTICO. Para encontrar as evidências, basta recordar A POSIÇÃO DE LIDERANÇA NATURALMENTE REIVINDICADAS PELOS PAPAS, E CONCEDIDA SEM RESERVAS A ELES, por ocasião dos concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451). Chegamos a encontrar os historiadores Sócrates e Sozômeno, que viveram no quinto século, concluindo, com base numa leitura errônea da famosa carta de Júlio I aos bispos orientais (340), protestando contra a deposição de Atanásio e Marcelo, que era inconstitucional realizar sínodos sem um convire ao pontífice romano ou tomar decisões sem sua participação. Recorde-se que, quando rompeu a controvérsia cristológica, tanto Nestório quanto Cirilo APRESARAM-SE EM LEVAR SEUS CASOS A ROMA, e este último DECLAROU QUE O ANTIGO COSTUME DAS IGREJAS CONSTRANGIA-O A COMUNICAR ASSUNTOS DESSA ENVERGADURA AO PAPA…Em um de seus sermões, ele chega a saudar Celestino como “O ARCEBISPO DO MUNDO INTEIRO” (pases tes oikoumenes archiepiskopos)” (Doutrinas Centrais da Fé Cristã – Origem e Desenvolvimento”, Editora Vida. 1994, p. 308)
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Convenhamos!

Dizer que tudo isso implicava apenas um “primado de honra”, é exorbitar!

A tentativa de Kelly de “amenizar” a eloquência dos fatos, POR ELE MESMO NARRADOS, é manifesta!

Conforme o texto, “a LIDERANÇA [notem: LIDERANÇA!] NATURALMENTE REIVINDICADA” pelos papas foi CONCEDIDA SEM RESERVAS” a eles!

Eram, portanto, LÍDERES!

Conforme o texto, “A PREEMINÊNCIA DE ROMA MANTEVE-SE INCONTESTE NO PERÍODO PATRÍSTICO”!

O Papa declarava nulos cânones conciliares.

Sem a presença dele, do Papa, concílios não poderiam ser realizados,

Assuntos graves, deveriam, porque era COSTUME ANTIGO, ser comunicados a ele.

Foi chamado o “ARCEBISPO DO MUNDO INTEIRO” !

E J.N.D. Kelly quer fazer ver em tudo isso um simples “primado de honra”!

Não!

Kelly, levado pela fidelidfade à Igreja à qual pertencia, procurou, no mínimo, relativizar o valor de fatos, que os documentos históricos comprovam seu um pingo de dúvida.

E se mostrou incoerente!

Isso quanto ao Oriente.

Quanto ao Ocidente, ele não titubeia (versais minhas):

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“Nos meados do quinto século, a igreja romana havia estabelecido uma posição de primazia no Ocidente, TANTO DE DIREITO COMO DE FATO, e as pretensões papais de supremacia sobre TODOS OS BISPOS DA CRISTANDADE haviam sido formuladas EM TERMOS PRECISOS” (Ibidem, p. 316)
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No século V!!

Século de S. Agostinho, de S. Jerônimo…

Roma vivia e governava.

E Kelly o admite, com razão.

Mas, o que pretendo com este post ?

Desacreditar J.N.D. Kelly ?

Não!

Nunca!

Quero dizer é que mesmo eruditos da envergadura dele se deixam levar, às vezes, por preconceitos partidários.

Gosto de citar Kelly, quando este confirma a história, atestada indiscutivelmente em documentos e monumentos primitivos.

Citei-o várias vezes quando corroborou o entendimento católico.

E continuarei citando-o sempre que ele apresentar os seus textos livres de inclinações pessoais e com fundamentos sólidos.

Citei-o aqui, demonstrando o primado efetivo de Roma NO ORIENTE E NO OCIDENTE.

Conforme ELE MESMO ADMITIU, mas tentou “compensar” à admissão com retiradas estratégicas.

Quanto ao Oriente, ele tentou se esquivar.

Quanto ao Ocidente, viu que, tentar, seria demais.

Mas gosto de Kelly.

É um bom patrologista.

Ótimo mesmo.

Mas quando é coerente.

E sempre que me servi dele, tive, antes, o cuidado de me certificar da linearidade do seu pensamento.

Façam o mesmo…

Crédito: Fábio Morais

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