O Molinismo jesuíta e moderno: suas grandezas e misérias, e um conselho

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”Acabo de encerrar o livro do notório Frei Domingo Basso O.P., que trata meticulosamente da controvérsia “De Auxiliis” entre outros assuntos, e antes desta obra, não deixei de esmiuçar também o “Traité du libre arbitre” do caríssimo Bossuet, tão elogiado pelos neotomistas do século XX (principalmente por Hugon e Garrigou Lagrange). E assim, após ter lido e conhecido bem ambos os lados desta polêmica, que como bem se sabe, fervilhou novamente no século passado, principalmente entre os dominicos franceses (que objetavam na revista “Revue Thomiste”) e os jesuítas espanhóis (que redarguiam na “Ciencia y fe”); penso que estou razoavelmente apto a fornecer alguns pareceres sobre esta questão. Contudo, não exporei aqui as razões de ser pelas quais penso que os tomistas estão corretos no que diz respeito as suas posições clássicas defendidas proficientemente contra os molinistas, a saber: dos decretos predeterminantes e da premoção física (præmotio physica), mas sim os motivos que me levaram a concluir que o molinismo jesuíta (como o do Cardeal Billot ou do Pe. Hellín) é muitíssimo superior ao dos seus “defensores” modernos (Craig, Plantinga e cia). Pois muito bem, antes de tudo cabe-nos dizer que os jesuítas desenvolveram edifícios intelectuais extraordinários para sustentar a doutrina clássica da Companhia: meios para conciliá-la com a doutrina do ato e da potência de Aristóteles e Santo Tomás, meios para conciliá-la com a omnicausalidade de Deus no que cerne à produção do ser ou entidade dos efeitos das causas secundárias; meios para demonstrar como a ciência média aliada ao concurso simultâneo indiferente jamais impõe potência passiva em Deus (como tanto objetaram os alguns adversários). E frente a todas estas edificações do pensamento humano, tão seriamente construídas à vista da filosofia perene, vê-se atualmente por parte de muitos defensores do molinismo moderno, o simples esquecimento, o desdém de filósofos e teólogos que muitas vezes pensam como quem acabara de inventar a pólvora, mas que sequer distinguem no concursus simultâneo a ação proposta (oblatum) e conferida (collatum) de Deus; distinção tão cara ao jesuítas, sem a qual não se resguarda e tão pouco se compatibiliza a realização de duas operações concomitantes parciais no mesmo termo (cuja direção é determinada somente pela criatura no concurso, como insistia Molina). Além disto, os jesuítas buscaram ainda nesta distinção a solução para se preservar a omnicausalidade divina sem subtrair a auto-determinação da vontade ao “ad unum”, visto que, para estes rigorosos filósofos o concurso proposto não causa, nem adiciona nada na vontade criada, deixando-a completamente indiferente, estimando que ela coopere para a produção deste ou daquele ato, desta ou daquela determinação livre, para que assim Deus ministre o concurso conferido, que, por conseguinte, se traduzirá na atuação por onde Ele (Deus) causará a entidade da volição livre da criatura: produzindo o “ser”’ de sua determinação. Que extraordinária solução! Tão extraordinária que levará os jesuítas subsequentes, como Pe. Joseph Mendive (do século XIX), bem como os ilustres José F. Sagüés, Pe. Hellín, P. Miguel Nicolau, P. Joaquín Salaverri, entre tantos outros membros da Companhia (do século XX) que compuseram não menos que gigantesca “Suma de Teologia e Filosofia Escolástica”, a tomarem como superadas as exigências do axioma aristotélico-tomista “quidquid movetur ab alio movetur”, que até então eram encaradas como objeções insuperáveis para a doutrina molinista. E foram superadas, pois, como argumentavam os jesuítas, somente com concurso geral e indiferente já se excita a auto-determinação das causas próximas para a operação, do mesmo modo que se garante o estatuto incomunicável de Deus como causa universal do “esse” criado, tal como é exigido pela Teologia Natural de Santo Tomás. Pobres modernistas! Que mal sabem que, com efeito, é absolutamente impossível que as criaturas sejam a causa do ser, ou do “actus essendi” (ato de ser), sendo no máximo, como bem sabiam os escolásticos, a causa do “fieri” e não do “esse” do efeito; do contrário seriam deuses, pois tamanho feito exige uma eficiência infinita que só a Deus pertence. E se mal conseguem perceber esta simples asseveração, como poderiam distinguir no concurso o oblatus do collatus? Talvez por não conseguirem que estas noções essenciais encontram-se totalmente subtraídas de suas obras, que em comparação a dos jesuítas só poderiam se denominar “molinista” por analogia. Ademais, estes “defensores” tão pouco conseguiram vislumbrar soluções como a do Doutor Exímio, que foi seguida a risca por teólogos como Pe. Faustcher, que com relação à potência ativa, e mais especificamente o estado de potencialidade do “actus virtualis”, rejeitava completamente a necessidade da “motio ab alio” para o trânsito da potência ao ato: rejeição esta que por sua vez encontrou dificuldades entre os próprios jesuítas, mas que de certa forma, se aceita, também supriria as exigências do axioma aristotélico-tomista antes citado. Quem sabe a estes senhores cabe apenas a defesa de teses que saltariam os olhos de qualquer membro da Companhia de Jesus, ou de qualquer defensor da boa filosofia, seja escotista, suarezista ou tomista: filósofos como William L. Craig , que defendem a temporalidade, bem como a não simplicidade simpliciter de Deus, que termina por inseri-lo no mesmo ciclo de defectibilidades das criaturas, jamais podem ser colocados na mesma estatura de jesuítas como São Belarmino (que defendia a curiosa concepção da premoção indiferente), Francisco Suarez, Cardeal Billot, Ruiz de Montoya, e tantos outros que modo algum argumentariam como fazem estes modernos (como Craig e Alvin Plantinga) que Deus não é simples, ou que Deus é mesclado com potência. De todo modo a pergunta que permanece é: se eles soubessem que tais elucubrações remontam a filósofos muitíssimo anteriores como Rabbi Moisés Maimônides, e que não há nenhuma novidade no que falam, senão que apenas um falso verniz que já fora refutado há séculos, será que permaneceriam firmes na defesa de tamanhas absurdidades?

Independente das respostas cabe-nos finalizar dizendo o seguinte conselho a quem se interessar pelo estudo da cativante doutrina molinista: se queres conhecê-la bem, e em toda sua robustez , não ide aos defensores modernos, mas ide sim aos jesuítas”


Retirado de: http://www.contraosintelectuais.com/2018/02/o-molinismo-jesuita-e-moderno-suas.html?m=1

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