A Anáfora de São Tiago, irmão do Senhor.

32117019_165484477465969_9158588171796086784_nEm 23 de Outubro, na Tradição Bizantina, se celebra a memória de São Tiago, irmão do Senhor, primeiro bispo de Jerusalém. No Pontifício Colégio Grego de Roma, no Domingo mais próximo dessa data se celebra, durante alguns decênios, a Divina Liturgia com uma anáfora que a Tradição Bizantina deixou cair praticamente em desuso e que, pelo contrário, se usa frequentemente na Tradição Siro-Ocidental, junto à Anáfora dos Doze Apóstolos.

A Anáfora de São Tiago se encontra em diversas versões lingüísticas mas especialmente em grego e siríaco, que por sua vez seria a tradução de um texto grego mais simples e arcaico que o atual. Em ambos os casos a atribuição à São Tiago, irmão do Senhor, é unânime. Também encontramos outras versões: georgiana, armênia e etíope, isto demonstra a importância que este texto teve, ao menos durante o primeiro milênio.

Está claro que se trata de uma Liturgia que provém de Jerusalém, já que há numerosas menções a personagens veterotestamentários (Abel, Noé, Abraão, Zacarias), aos Santos Lugares, a Jerusalém celeste; com a entrada ao Sancta Sanctorum, a procissão do pequeno ingresso com o Evangeliário e a Cruz, as diversas orações (inspiradas no salmo 140) de bênção do incenso.

No caso da datação há diversas hipóteses que a colocam entre finais do século III até o século VI-VII. Seguramente foi elaborado em diferentes etapas, mas já estava quase completa em finais do IV.

A Anáfora de São Tiago é teologicamente muito diversa da de São João Crisóstomo ou São Basílio, e se trata claramente de uma Liturgia de tipo antioqueno. Na práxis constantinopolitana a anáfora não está em uso, agora somente se celebra em 23 de Outubro em Jerusalém, nas ilhas de Zante e Chipre, e em Roma, na Igreja de Santo Atanásio, um Domingo próximo a este dia.

A estrutura da celebração é um pouco diversa da habitual na Tradição bizantina e prevê, ao menos , para a Liturgia dos Catecúmenos, que seja celebrada no Bema, isto é , no espaço que há no centro da nave da Igreja (nas igrejas siríacas é um espaço fechado por uma cancela) onde se coloca um ambão para o Evangeliário e uma mesa pequena para a Cruz; em torno do Evangeliário e a Cruz se dispõem o Sacerdote com o Diácono e os Sacerdotes Concelebrantes, e ali se desenvolve a Liturgia da Palavra. A Liturgia Eucarística, a seguir, será celebrada no Santuário.

Na estrutura merece a pena destacar alguns elementos: antes de tudo, o Início da Liturgia, sem as três antífonas da Liturgia de São João Crisóstomo, fato que contêm esta Liturgia junto à tradição siríaca e que indica uma notável arcaicidade.

Nas diversas litanias feitas pelo Diácono virado para o povo , na última petição ( Fazendo memória da Toda Santa, Imaculada) se acrescenta sempre: João Batista, os Profetas, Apóstolos, Mártires, e em uma delas também a Moisés, Arão, Elias, Eliseu, Samuel, Davi, Daniel. As Leituras se fazem no Bema, o lugar central onde é proclamada a Palavra e onde ela é comentada.

O hino “ Emudeça toda carne humana” se canta em lugar do Hino Querubinico da Anáfora de São João Crisóstomo; este mesmo hino se canta no Sábado Santo na Liturgia de São Basílio. Por último, a troca da paz depois do Credo, que na Liturgia de São João Crisóstomo se mantêm somente entre o clero. A Anáfora de São Tiago se enquadrada, como outras Anáforas cristãs, entre dois grandes movimentos de louvor a Deus no início: “Verdadeiramente é coisa boa e justa, conveniente e dever, louvar, celebrar, adorar, glorificar e render-te graças a Ti, creador das coisas visíveis e invisíveis” ; e no final a conclusão do Sacerdote: “Pela graça, a misericórdia e o amor para os homens de teu Filho, com o qual sejas bendito e glorificado juntamente com teu bondoso e vivificante Espírito”. Isto é , o movimento que vai da obra da criação de Deus a sua obra de santificação, obrada por Cristo através do Espírito; da criação à redenção, à santificação.

Na Anáfora de São Tiago não há , como em outras Anáforas, a enumeração de toda uma série de atributos apofáticos de Deus (invisível, incompreensível, incomensurável) mas na introdução encontramos uma de três títulos: “Creador de todas as coisas, tesouro dos bens, fonte de vida e imortalidade” , e um pouco mais adiante os chamados a esta glorificação: os céus, o sol, a lua, a terra, o mar, a Jerusalém celeste, a Igreja dos primogênitos, os justos, os profetas, os mártires, os apóstolos, os querubins, os serafins. Em outras palavras, é toda a Creação e toda a Igreja , as que são chamadas ao elogio de Deus.

Antes da Narração da Instituição da Eucaristia e da Epiclesis, a Anáfora de São Tiago narra a Historia da Salvação; destacamos uma série de verbos que a marcam: “ tiveste compaixão, creaste o homem; ele caiu, mas não o desprezou, não o abandonou, mas corrigiu, chamou, guiou”.

E ao final da Narração se proclama o mistério central da fé cristã: “Finalmente enviaste ao mundo a teu próprio Filho unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, para que Ele com sua vinda renovasse e ressuscitasse tua imagem”. A vinda de Cristo renova a imagem de Deus no homem; Nesta frase se encontra a doutrina sobre a salvação dos Padres da Igreja, de Inácio de Antioquia a Ireneu, de Orígenes a Atanásio e Ambrósio. É importante sublinhar esta centralidade do destino do homem na providência de Deus, na linha do mesmo Cirilo de Jerusalém em suas Catequeses: “Todas as criaturas são belas, mas somente há uma imagem de Deus e esta é o homem. O sol foi creado por uma ordem; o homem, no entanto, foi creado pelas mãos de Deus: façamos o homem a nossa imagem e semelhança”.

A Anáfora de São Tiago evidencia um aspecto importante: a imagem de Deus maltratada pelo homem é renovada, isto é , recreada, por Cristo. Esta nova creação chega em sua Encarnação e na Anáfora diz que Cristo “desceu, se encarnou e viveu, tudo dispôs”. Na Epiclesis, o dom do Espírito é invocado para que desça sobre os fiéis e sobre os dons apresentados: “Manda sobre nós e sobre estes dons que te apresentamos teu Espírito Santíssimo”. O texto é uma formulação trinitária que parece conhecer já a fórmula do Concílio de Constantinopla do ano 381: “ Senhor e vivificante, consubstancial, comparte tua eternidade.”

Além disso , mais adiante, a Anáfora menciona algumas passagens da Escritura da descida do Espírito Santo, relacionados com o ambiente jerosolimitano: “desceu em forma de Pomba no Jordão, sobre os santos Apóstolos na câmara alta da santa e gloriosa Sião”.

Ademais a Epiclesis pede como fruto da santificação do Espírito que os dons cheguem a ser Corpo e Sangue de Cristo e que a Igreja seja santificada e permaneça estável sobre a rocha da fé. A ação do Espírito,nesta Anáfora, está estritamente unida a sua ação ao longo de toda a história da salvação; Ele “ falou na Lei, nos Profetas e na Nova Aliança”. Sendo o texto de origem jerosolimitano, é importante sublinhar o enlace entre o mesmo Espírito que fala na Antiga e Nova Aliança: aquele Espírito que fala na Lei, nos profetas, na Nova Aliança, desce sobre Cristo, sobre os Apóstolos, sobre os Santos Dons apresentados (poderíamos acrescentar todos os demais sacramentos: água batismal, santo crisma).

A Epiclesis tem também uma clara dimensão eclesiológica, que se verá sublinhada de novo na grande súplica de intercessão ao final da Anáfora, a qual tem ainda acentos claramente jerosolimitanos: “para sustentar a tua Igreja católica e apostólica que estabeleceste sobre a rocha da fé. Te oferecemos este sacrifício por tua santa e gloriosa Jerusalém, mãe de todas as Igrejas . Lembra-te desta tua santa cidade. Lembra-te de todos os cristãos que foram ou se encontram nos lugares santos de Cristo”. Os frutos da descida do Espírito são, por conseguinte, a santificação dos dons e, por meio deles, a santificação da Igreja.

A comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo leva à comunidade, à Igreja, a plenitude da força do Espírito. Este Espírito invocado sobre a comunidade lhe é dado através da comunhão dos Santos Dons; o Espírito constrói o corpo eclesial de Cristo por meio da santificação, da divinização daqueles que comungam. Já Santo Éfrem tem um belíssimo texto nesta mesma linha: “Em teu pão se esconde o Espírito que não pode ser consumido; em teu vinho está o fogo que não se pode beber. O Espírito em teu pão, o fogo em teu vinho; vede aqui uma maravilha acolhida por nossos lábios. Os serafins não podiam trazer as brasas com seus dedos,mas levaram-nas à sua boca. Nem dedos as haviam tocado, nem lábios provado; porém o Senhor nos tem concedido fazer as ambas as coisas. O fogo desce com ira para destruir os pecadores, mas o fogo da graça desce sobre o pão e permanece intacto. Em lugar do fogo que destrói ao homem, temos comido o fogo no pão e temos sido vivificados”.

Durante a litania antes do Pai Nosso , o Sacerdote, em silêncio, faz uma oração na qual pede a purificação das almas e dos corpos e faz uma lista de vícios que devem ser purificados, que recorda muitíssimo àqueles que se encontram nos textos de origem monástica (regras, cartas e admoestações): “afasta de nós a inveja, a arrogância, a hipocrisia, a mentira, a astúcia, os desejos mundanos, a vanglória, a ira, a recordação das ofensas”.

A Liturgia de São Tiago reflete, então, três aspectos importantes: a centralidade do louvor a Deus por parte de toda a creação e de toda a Igreja; a restauração (recreação) da imagem de Deus no homem por meio da obra de Cristo; a ação santificadora do Espírito na história da salvação, sobre os dons, sobre os crentes.

Celebrar a Liturgia de São Tiago, ao menos uma vez ao ano, É simplesmente fazer arqueologia litúrgica? Ou, quiças é reivindicar o patrimônio litúrgico jerosolimitano frente ao influxo a nivel litúrgico que Constantinopla teve sobre os outros patriarcados? Não, não é somente celebrar a Anáfora de São Tiago, como todas as demais Anáforas cristãs, é celebrar o mistério da morte e ressurreição do Senhor; mas sobretudo, celebrar com uma Anáfora que põe em manifesto aspectos teológicos, eclesiológicos, litúrgicos e também arquitetônicos, um pouco diversos daqueles aos quais estamos habituados na Tradição bizantina, e sobretudo é celebrar com uma anáfora que faz presente a comunhão com a Igreja de Jerusalém, mãe de todas as Igrejas cristãs.

“ Caminhando de potência em potência e celebrando a Divina Liturgia em teu templo, te rogamos, chegar a ser dignos do perfeito amor dos homens ( assim diz a oração de despedida da Anáfora de São Tiago). Endireita nosso caminho, fortalecidos com teu temor. Tem piedade de todos e faça-os dignos de teu Reino celeste por Cristo Jesus Senhor nosso”.

(Autor do original: Padre Manuel Nin, OSB)

Tradução: David Nesta

Fonte: http://lexorandies.blogspot.com.br/2010/10/la-anafora-de-santiago-hermano-del.html?m=1

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