CÁTAROS, GNOSE, FEITIÇARIA E INCESTO

CÁTAROS, GNOSE, FEITIÇARIA E INCESTO
Um Aviso, esse, e futuros textos são registros do Inquisidor Jacques Fournier (3 volumes), todas as notas entre parenteses são do registro, (por exemplo: I, 41; II, 52 etc.) Texto latino editado por Jean Duvernoy.
Estas informações podem causar horror à algumas pessoas, mas é necessário para esclarecer os leitores sobre este assunto, muitos Protestantes que não conhecem a história tem defendido este movimento que causou graves problemas doutrinais e sociais nos séculos XI ao XII, como sempre acusam a Igreja de atacar pobres camponeses indefesos que não causavam mal algum, avalie você mesmo que tipo de mal esse movimento poderia causar à futuras gerações se não fosse contido.

Em Montaillou, a casa tem o seu astro, a sua boa sorte, <<na qual os defuntos ainda participavam>> (1, 313-314). Salvaguarda-se este astro e esta sorte conservando em casa fragmentos de unhas e de cabelos do defunto chefe de família: na medida em que continuam a crescer depois da morte, os cabelos e as unhas são portadores de uma energia vital especialmente intensa. Graças à prática deste rito, a casa <<imbui-se de certas qualidades mágicas da pessoa>> e é capaz de as transmitir, posteriormente, a outras pessoas da linhagem. Quando Pons Clergue, o pai do pároco Montaillou, morreu, conta-nos Alazais Azéma (1, 313-314), Mengarde Clergue, sua esposa, pediu-me a mim e a Brune Paurcel que cortássemos ao cadáver as madeixas de cabelo que tinha à volta da testa, assim como fragmentos de todas as unhas das mãos e dos pés; isto para que a sorte continuasse a proteger a casa do defunto, fechamos, pois, a porta da casa de Clergue onde jazia o corpo do morto, cortamos–lhes os cabelos e as unhas; e demo-las a Guillemette, a criada da casa, que por sua vez, os deu a Mengarde Clergue. Esta <<abcião>> dos cabelos e das unhas foi realizada depois de termos deitado água sobre o rosto do morto (porque em Montaillou não se lava todo o cadáver).

Uma outra mulher de Montaillou, Fabrisse Rives, dá, a respeito do mesmo episódio, alguns esclarecimentos suplementares: por ocasião do falecimento de Pons Clergue, pai do abade, vieram muitas pessoas da região de Aillon a casa deste. O cadáver foi posto naquela <<casa dentro da casa>>, que de chama <<foganha>> (a cozinha); ainda não estava envolto num sudário; o abade mandou, então, sair toda a gente de casa, à excepção de Alazais Azéma e de Brune Paurcel, filha bastarda de Prades Tavernier; estas mulheres ficaram sozinhas com o morto e o pároco; as mulheres e o pároco tiraram as madeixas de cabelos e os fragmentos de unhas do cadáver… Mais tarde correu o boato de que o pároco fez o mesmo ao cadáver da mãe (1, 328). Estes relatos sublinham as precauções tomadas pelos herdeiros para que o morto não leve com ele a sorte da domus: expulsam-se os numerosos visitantes que vieram expressar os seus pêsames; fecha-se a porta; trancam-se na cozinha, que é a casa dentro da casa: não lavam o corpo, receando que se percam, devido à água da lavagem, algumas particularidades preciosas adstritas à pele e à sua sujidade. Estas precauções são comparáveis às mencionadas por Pierre Bourdieu, a propósito da casa cabila: aí também se tomam todas as medidas possíveis para que o morto, no momento da lavagem e, depois, à partida para o túmulo, não leve com ele a baraka (sorte) da casa.
Pierre Clergue passa noites em branco, ele que deseja a intocabilidade do ostal, ao ponto de chegar, como vimos, a justificar o incesto: Olha, declara o padre à sua bela amante, num momento de abandono afetivo e de fermentação ideológica, nós somos quatro irmãos (1, 225). (Eu, sou padre, e não quero esposa.) Se os meus irmãos Guillemette e Bernard se tivessem casado com as nossas irmãs Esclarmonde e Guillemette, a nossa casa não teria ficado arruinada, por causa do capital (averium) que elas levaram como dote; o nosso ostal teria ficado absolutamente intacto e apenas teríamos de trazer uma mulher para o nosso irmão Bernard, teríamos bastante mulheres (sic) e o nosso ostal seria agora mais rico.
Esta estranha apologia do incesto justifica igualmente, por extensão, o celibato (não casto) dos eclesiásticos, assim como o concubinato, frequente em Montaillou. Tem origem no medo que toda a Dinis consciente e organizada sente perante a ideia de perder as suas <<aderências separáveis>> : entre as quais figuram não apenas os dotes levados pelas raparigas mas também a parte fraterna ou fratrisia devida ao filho que, por não ser o mais velho ou por qualquer outro motivo, não vem a ser chefe de casa; este encontra-se deserdado do essencial, exceto desta Fratrisia que lhe é concedida pela domus ou pelo chefe de domus a título de compensação: perdi a parte fraterna (Fratrisia) que tinha em Montaillou e tive medo (por causa da Inquisição) de voltar à aldeia para a recuperar, declara Pierre Maury, na Catalunha, numa conversa com Arnaud Sucre (II,30). Mais uma boa informação de época está relacionada a importância das casas, e a comparação do valor de uma residência com a bíblia, a domus distingue-se mais pelos investimentos reais ou afetivos que provoca, do que pelo seu valor monetário: uma casa de aldeia ou de pequeno burgo vale 40 libras tornesa, ou seja, apenas duas vezes o preço de uma bíblia completa.
O uso de pedaços do corpo humano, a fim de preservar simultaneamente a continuidade da linhagem e a da casa, relaciona-se com outros ritos mágicos do mesmo tipo pertencentes ao folclore occitânico. Béatrice de Planissoles conserva o primeiro sangue menstrual da filha como filtro de amor destinado a enfeitiçar um futuro genro, e os cordões umbilicais dos netos, como talismãs para ganhar os seus processos. Em ambos os casos, os fragmentos orgânicos são dotados de fecundidade, tal como as unhas e os cabelos de Pons Clergue: destinam-se à manutenção da prosperidade de linhagem (amor do genro pela filha) e da prosperidade proprietária (ganhar os processos). Numa época ainda recente, as raparigas languedoquianas punham uma gota de sangue ou uma apara de unha num bolo ou numa bebida, a fim de fazer com que um rapaz se apaixonasse por elas.
(…) pois, como ele diz, foi o diabo que a trouxe: desde que ela está naquela casa, é impossível receber perfeitos! Quanto a Bernard Rives, o velho pai de Pons, vive encolhido na casa em que sempre residiu mas que é agora governada pelo filho: um dia, a filha, Guillemette, mulher do outro Pierre Clergue (não confundir com o pároco) veio pedir-lhe uma mula emprestada para ir buscar trigo (de que precisava) a Tarascon. Bernard Rives só lhe pôde dizer: não posso fazer nada sem o consentimento do meu filho. Volta amanhã que ele empresta-te a mula. Quanto a Alazaïs Rives, mulher de Bernard e mãe de Pons, vive igualmente aterrorizada com a chefia do filho, verdadeiro tirano doméstico, mas resigna-se.
A submissão ao chefe da casa – desde que este tenha uma personalidade suficientemente forte, atraente, e diabólica – pode tornar-se culto da personalidade, admiração e adoração. Na prisão, Bernard Clergue toma conhecimento da morte do irmão, o pároco, que se tinha convertido (desde antes do falecimento do velho Pons Clergue) no verdadeiro chefe da casa fraterna. Bernard, aniquilado, sucumbe, diante de quatro testemunhas, gemendo: morreu o meu Deus. Morreu o meu governador. Os traidores Pierre Azéma e Pierre de Gaillac mataram o meu Deus (II, 285). Pierre Clergue tinha, portanto, sido divinizado em vida pelo irmão.
Bibliografia: Emanuel Le Roy Ladure, Montaillou Cátaros e Católicos numa aldeia occitana.

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