Concílio de Éfeso (Parte I): Convocação do Sínodo- Os Comissários papais e Imperiais

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Como nós já vimos, não demorou muito desde o ínicio da controvérsia Nestoriana para que fosse proposto um concílio ecumênico para resolvê-la, e isso foi expressamente demandado tanto pelos ortodoxos como por Nestório. Em sua terceira carta ao Papa Celestino, Nestório fala disso; e, de maneira similar a carta dos monges de Constantinopla ao Imperador, na qual eles reclamam do mau tratamento que eles receberam de Nestório, contém um desejo bem sonoro da aplicação do remédio eclesíastico. De fato, o Imperador Teodósio II, já no dia 19 de Novembro de 430, e portanto alguns dias antes dos anátemas emitidos por Cirilo chegarem em Constantinopla, emitiu uma carta circular, contendo o nome do seu colega no ocidente, Valentiniano III, dirigida a todos os metropólitas, na qual ele os convocava, para o pentecoste do próximo ano, para um concílio ecumênico em Eféso. Ele adicionou que que cada um deles deveria trazer com ele da sua província alguns bispos sufragênios disponíveis, e que quem quer que fosse que chegasse atrasado deveria ser severamente responsável diante de Deus e do Imperador. Teodósio estava visivelmente ansioso nisso para que ele não permitisse que a predisposição a Nestório, que ele já havia traído em diversas ocasiões, aparecesse nesse documento importante; e portanto esse sentimento se mostrou mais aberto em sua carta (Sacra Imperatoria), já mencionada, dirigida a Cirilo, na qual ele acusava ele de ter pertubado a paz, de ter emitido declarações precipitadas, de não ter agido abertamente e honradamente, de ter trazido tudo para a confusão. Particularmente ele o culpava de ter comunicado por escrito a Augusta (co-imperatriz) Pulquéria, e a consorte do Imperador, Eudócia, e por ter impropriamente forçado, por meio dessa carta, elaborar um projeto malicioso de semear a discórdia mesmo entre a família imperial. Mesmo assim ele o perdoaria pelo o que já era passado; e ele adicionou que no assunto das proposições doutrinais o futuro sínodo iria decidir, e que o que ele decidisse deveria ser universalmente aceito. Deveria ser dever especial de Cirilo aparecer no Concílio, pois o imperador não iria aturar que ninguém fosse apenas um governante, e não tomar conselho comum com os outros, nem se permitir ser ensinado por eles. A conclusão da carta contém remarcações rudes de um caráter similar.

O imperador havia despachado uma carta peculiarmente respeitosa a Agostinho, por causa de sua grande celebridade, convidando-o para vir ao Sínodo em Éfeso, e havia expressamente confiado um funcionário de nome de Ebagnius para entregar a carta. Mas Agostinho já estava (22 de agosto [28], 430)morto, e, portanto, o portador da carta só poderia trazer de volta a Constantinopla a notícia de sua morte. Cirilo, de sua parte, agora achava necessário perguntar ao Papa Celestino se Nestório deveria poder aparecer no Sínodo proposto como membro, ou se a sentença de deposição pronunciada contra ele, após o período de tempo permitido para a retratação ter expirado deveria se manter de pé. Nós já não possuímos esta carta em si, mas nós temos a resposta do Papa, datada de 7 de maio de 431, que dá uma bela prova de sua disposição de paz amorosa, e na qual ele diz, Deus não deseja a morte do pecador, mas a sua conversão, e que Cirilo deveria fazer tudo para restaurar a paz da Igreja e para ganhar Nestório à verdade. Se este último for bastante determinado contra isso, então ele deve colher o que, com a ajuda do diabo, semeou. Uma segunda carta foi dirigida pelo Papa, 15 de maio de 431, ao Imperador Teodósio, dizendo que ele não poderia pessoalmente estar presente no Sínodo, mas que ele participaria através dos comissários. O Imperador não deveria permitir inovações, nem perturbações da paz da Igreja. Ele deveria até considerar os interesses da Fé como superiores aos do Estado, e os da paz da Igreja como mais importante que a paz das nações. Como seus legados no Sínodo, o Papa nomeou a dois bispos, Arcadio e Projectus, juntamente com o padre Filipo, e deu-lhes uma comissão para manter estritamente para Cirilo, mas ao mesmo tempo preservar a dignidade da Sé Apostólica. Eles deveriam participar das assembléias, mas não se misturem nas discussões (entre os nestorianos e seus adversários), mas para julgar as opiniões dos outros. Após o encerramento do Sínodo, uma consulta deveria ser instituída, requirendum est, qualiter fiisrint res fince. Se a antiga fé triunfasse, e Cirilo fosse para o imperador em Constantinopla, eles também deveriam ir para lá e entregar ao Príncipe os breves papais. Se, no entanto, nenhuma decisão pacífica fosse chegado, eles deveriam considerar com Cirilo o que deveria ser feito.’ A carta papal, que eles tiveram que colocar diante do Sínodo, datada de 8 de maio de 431, primeiro explica com muito eloqüência o dever dos bispos de preservar a verdadeira fé, e então, no final, continua: “Os legados devem estar presentes nas transacções do Sínodo, e darão efeito a aquilo que o Papa há muito tempo decidiu em relação a Nestório, pois ele não duvida que os bispos reunidos iriam concordar com isso. “
Como o papa, também nenhum dos dois imperadores aparecem pessoalmente em Éfeso e, portanto, Teodósio II., em seu próprio nome e no de seu colega Valentiniano III nomeou o Conde Candidiano (capitão dos guarda-costas imperiais) como o protetor do Concílio. No édito que ele se dirigiu ao Sínodo sobre este assunto, ele diz que Candidiano não deve tomar parte imediata nas discussões sobre pontos de fé contestados; pois não é permitido que aquele que não pertence ao número dos bispos deva misturar-se no exame e decisão de controvérsias teológicas. Pelo contrário, Candidiano foi para remover da cidade os monges e leigos que vieram ou deveriam vir depois a Éfeso por curiosidade, para que a desordem e confusão não devesse ser causada por aqueles que não estavam no caminho necessário para o exame das doutrinas sagradas. Ele foi, além disso, para evitar que as discussões entre os membros do próprio Sínodo devessem degenerar em disputas violentas e atrapalhar a investigação mais exata do mesmo; e, pelo contrário, garantir que toda afirmação devesse ser ouvida com atenção, e que cada um apresentasse sua opinião, ou suas objeções, sem deixar ou impedir, de modo que, finalmente, uma unânime decisão pudesse ser alcançada em paz pelo santo Sínodo. Mas acima de tudo, Candidiano deveria tomar cuidado para que nenhum membro do Sínodo devesse tentar, antes do fechamento das transações, ir para casa, ou para a corte, ou em outro lugar. Além disso, ele não deveria permitir que qualquer outro assunto de controvérsia fosse tomado em consideração antes que se resolvesse o ponto principal de doutrina perante o Concílio. Além disso, o imperador tinha ordem dada para que nenhuma acusação civil devesse ser interposta contra qualquer membro do Sínodo, seja antes do próprio Sínodo ou perante o tribunal de justiça em Éfeso; mas que, durante este tempo, apenas a suprema corte de Constantinopla devesse ser o tribunal competente para esses casos. Finalmente, um segundo conde imperial, Irineu deveria aparecer em Éfeso, mas ele deveria apenas acompanhar o seu amigo, o amado bispo Nestório, e portanto, não deveria tomar parte nas transações do Sínodo, nem na comissão de Candidiano.
De acordo com o comando imperial, o Sínodo deveria começar no Pentecostes (7 de junho) no ano 431 / e Nestório, com seus dezesseis bispos, estavam entre os primeiros que chegaram a Éfeso Como se estivesse indo para a batalha, ele foi acompanhado por um grande número de homens de armadura. Pouco depois, quatro ou cinco dias antes do Pentecostes, Cirilo chegou, com cinquenta bispos, cerca de metade de seus sufragistas; e ainda possuímos duas cartas curtas dele para a sua Igreja, das quais uma era escrita na jornada em Rhodes, e o outra imediatamente depois da sua chegada a Éfeso. Na últimoa ele diz particularmente que ele aguarda com expectativa a abertura real do Sínodo. Alguns dias depois do Pentecostes, Juvenal de Jerusalém e Flaviano de Tessalônica apareceram com seus bispos; O arcebispo Memnon de Éfeso também se reuniu com quarenta dos seus sufragâneos e doze bispos da Panfília. Enquanto aguardavam a chegada dos outros, já houve uma boa parte da conversa preliminar sobre o ponto em questão, e particularmente Cirilo se esforçou para conduzir Nestório em um beco por argumentos agudos, e para ganhar amigos para a verdadeira doutrina. Foi então que Nestório permitiu-se escapar fazendo a exclamação: “Nunca Vou chamar uma criança de dois ou três meses de idade, Deus, e eu não vou ter mais comunicação com você” e ao mesmo tempo mostrou claramente a natureza de sua heresia, que, até esta vez, ele havia se esforçado de várias maneiras para disfarçar, e também sua obstinação, que não deixava esperança de sua submissão à decisão de um Sínodo.


VON HEFELE, Karl. A History Of The Christian Councils, from the original documents (Vol III)

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