NOVA DATAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO (Parte 2/11)

NOVA DATAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO (Parte 2/11)
Autor: Daniel Iglesias Grèzes
Fonte: http://www.infocatolica.com/blog/razones.php
Tradução: Carlos Martins Nabeto

2. DATAS E DADOS

No início do Capítulo 1 (“Datas e Dados”), o autor explica que, tal como na Arqueologia, a cronologia do Novo Testamento (NT) é baseada numa combinação de datas absolutas e relativas. Há um número limitado de pontos mais ou menos fixos e os demais fenômenos são classificados conforme os supostos requerimentos de dependência, difusão e desenvolvimento. As novas datas absolutas obrigam a reconsiderar as datas relativas. Eventualmente, as antigas hipóteses sobre os padrões de dependência, difusão e desenvolvimento podem ser perturbadas ou, inclusive, radicalmente questionadas.

Robinson mostra como isto ocorreu no caso do estudo da origem e do desenvolvimento da civilização na Europa: a partir de 1949 se criou a “revolução do radiocarbono”, que obrigou a estender de 500 a 1500 anos este período; e, em 1966, devido a dendrocronologia, se produziu uma “segunda revolução”: desta vez, não apenas foi necessário estender mais uma vez o período apreciado como ainda o padrão de relações entre os fenômenos foi profundamente alterado.

Robinson afirma que:

– “A cronologia do Novo Testamento depende mais de suposições do que de fatos. Não é que neste caso tenham surgido novos fatos, novas datas absolutas que não possam ser questionadas; elas ainda são extraordinariamente escassas. É que certos questionamentos obstinados simplesmente me levaram a questionar que base existe, na verdade, para certas hipóteses cujo questionamento pareceria ter se tornado arriscado ou, inclusive, impertinente, segundo o consenso predominante da ortodoxia crítica. No entanto, alguém toma coragem quando vê como, em seu próprio campo ou em outro qualquer, as posições estabelecidas de repente ou sutilmente passam a ser vistas como as precárias construções que são. As [posições] que pareciam ser datações firmes, baseadas na evidência científica, se revelam como deduções que se apoiam sobre outras deduções. O padrão é coerente, porém é circular. Se se questiona alguma das hipóteses construídas, todo o edifício parece bem menos seguro” (p.6).

A seguir, o autor apresenta uma visão sintética da história da cronologia do NT, indicando as posições predominantes em intervados de 50 anos. Em geral, até 1800 se considerava que a composição do NT abraçava um período de 50 anos: do ano 50 ao ano 100. Até 1850 esse período tinha mais que duplicado, estendendo-se agora entre os anos 50 e 170. Até 1900, ainda que o período considerado continuasse sendo aproximadamente o mesmo, mudou-se a datação dos diversos livros do NT, restando como datações tardias apenas uns poucos, em geral algumas epístolas. Até 1950, a brecha entre as posições radicais e as conservadoras havia reduzido bastante, atingindo um notável grau de consenso: o período de composição se reduz a cerca de 60 anos (entre 50 e 110), exceto apenas para 2Pedro (cerca de 150).

Robinson opina que:

– “O que alguém procura em vão em grande parte dos estudos recentes é uma luta séria com a evidência interna ou externa para a datação dos livros individuais (…) mais que um padrão apriorístico do desenvolvimento teológico dentro do qual logo os faz enquadrar” (p.11).

Para o autor, a peça-chave foi o Evangelho de João. Por várias razões, pouco a pouco Robinson se convenceu de que este Evangelho foi escrito na Palestina e antes do ano 70, o que contradiz a tese predominante de que foi escrito na Ásia Menor até o final do século I. Porém, esta redatação de João obriga necessariamente a se refazer toda a cronologia do NT.

Explica Robinson:

– “Foi neste ponto que simplesmente comecei a me perguntar: por que qualquer um dos livros do Novo Testamento deve ser datado após a queda de Jerusalém, no ano 70? Começando a considerá-los – e em particular a epístola aos Hebreus, os Atos e o Apocalipse – não era estranho que este cataclismo não fosse mencionado ou aludido nem uma só vez? Assim, como uma brincadeira teológica, pensei ver até onde alguém poderia chegar com a hipótese de todo o Novo Testamento ter sido escrito antes do ano 70 (…) Porém, o que começou como uma brincadeira, acabou se convertendo numa séria preocupação durante o processo” (p.12).

A seguir, o autor enumera as limitações da sua obra: não se introduziu nas bases teóricas da cronologia em si mesma, nem em cálculos astronômicos, nem nas complexas relações entre os sistemas cronológicos antigos; tampouco ingressou na cronologia do nascimento, ministério e morte de Jesus, nem na história do cânon do NT, nem no vasto campo da literatura não-canônica, exceto nos casos em que esta é diretamente relevante para o tema analisado.

Robinson conclui este capítulo dizendo:

– “É provável que minha posição parecerá surpreendentemente conservadora, especialmente àqueles que me consideram radical em outros temas (…) Não reclamo nenhuma grande originalidade – quase cada conclusão individual, como se verá, foi previamente discutida por alguém, muitas vezes por homens renomados e esquecidos – ainda que eu pense que o padrão global seja novo e, assim espero, coerente. O que menos quero é encerrar qualquer discussão. Na verdade, me alegra antepor no meu trabalho as palavras com as quais, segundo dizem, Niels Bohr iniciava as suas conferências: ‘Cada frase que eu emita deve ser tomada por vós não como uma afirmação, mas como uma pergunta'” (p.14).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: