O Papa e o Patriarca ortodoxo se excomungaram em 1054… e os russos não deram importância

O Papa e o Patriarca ortodoxo se excomungaram em 1054… e os russos não deram importância

Em 1054 o Patriarca de Constantinopla e o Papa de Roma, através de seu legado, se excomungaram mutuamente e decretaram a divisão de suas Igrejas. A excomunhão não se levantou de forma firme e solene até há exatamente 50 anos, em 7 de dezembro de 1965, quando na vigília da conclusão do Concílio Vaticano II, com uma declaração comum do Papa Paulo VI e do patriarca ecumênico Atenágoras.

A ruptura oficial de 1054 teve graves e duradouras consequências de falta de unidade que ainda prejudicam os cristãos, mas vale a pena ressaltar alguns fatos que demostram que durante vários séculos houve territórios inteiros nos quais esta “excomunhão ” apenas se aplicava: os fiéis, simplesmente, pareciam não dar-se por convencidos na Rússia, Ucrânia e os territórios de sua zona de influência.

A bula de excomunhão sobre o altar

A excomunhão mútua, encenada e protagonizada pelo Patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário e o legado papal, o cardeal Humberto, em 1054, demorou em aplicar-se em territórios inteiros.

O cardeal Humberto deixou sobre o altar de Santa Sofia a bula de excomunhão. Depois voltou a Roma, mas vários códices sugerem que voltou passando por Kiev, onde foi recebido com respeito e cerimônias eclesiásticas. O metropolita da Rus de Kiev, ao menos nesse momento, parecia estar em total comunhão com Roma e não se dava por excomungado.

Uma ruptura que não se aplicava

Em muitas cátedras orientais não tinham nada clara a ruptura, segundo lemos na “Historia de la Iglesia Católica en Rusia” (de Stanislav Kozlov-Strutinski y Pavel Parfentiev, edição de 2014 em russo, um livro de 730 páginas).

Um exemplo é o fato de que durante o século XI e XII numerosas dinastias casavam e se davam em casamento sem impedimento algum de credo ou de ritual, as de rito latino com as de rito oriental. Os príncipes russos casavam seus filhos com príncipes e princesas de famílias polacas, húngaras e nórdicas de rito latino (suecas, norueguesas, saxãs e, em geral, varegas, ou seja , vikings das rotas fluviais russas).

O príncipe de Kiev peregrino em Roma

A ruptura demorou muito em chegar à consciência dos clérigos e príncipes da Rus. Um exemplo vemos quando Iziaslav Yaroslavich ( filho de Yaroslav , o Sábio, que casou suas dúzias de filhos e filhas com príncipes de toda Europa), herdeiro de Kiev, brigou com seus irmãos e fugiu para Polônia e depois para Alemanha buscando aliados. Dali contactou com o Imperador Henrique IV e o Papa Gregório VII.

Como qualquer outro líder católico, enviou seu filho Yaropolk ( que usava o nome cristão de Pedro) sob forma de “peregrinação à tumba dos Apóstolos “, e queria estabelecer seu principado sob a autoridade do Papa, apresentando Kiev como um presente para Pedro.

Yaropolk chegou a Roma em 1075, vinte anos depois da excomunhão, e se mostrou em tudo um devoto papista sem que ninguém lhe tratasse como um excomungado. O Papa Gregório pediu ao rei polaco Boleslav para ajudar-lhe a recuperar Kiev. Iziaslav conseguiu recuperar Kiev acompanhado de tropas varegas (vikings de terras eslavas); sua esposa era polaca e cunhou moedas dedicadas a São Pedro e construiu uma Igreja dedicada a São Pedro. Um código escrito a pedido de sua esposa (a princesa polaca Gertruda) desenha a princesa ajoelhada aos pés do apóstolo São Pedro e mostra também a Yaropolk e sua esposa orando perante o apóstolo.

Hoje em dia Yaropolk , devoto petrino e peregrino em Roma, é considerado oficialmente santo da Igreja Ortodoxa Russa. Seu pai Iziaslav era além disso grande amigo de São Teodósio das Covas de Kiev ao que visitava com freqüência. Isso é um exemplo de uma dinastia a cavalo entre Oriente e Ocidente, que não parecia dar-se por aludida pelas excomunhões mútuas.

As listas de “erros” latinos… Não falam do papado

Un detalhe interessante se dá no fato de que o mesmo Patriarca Cerulário estabeleceu e difundiu uma lista de erros dos cristãos de rito latino que se supõe que deviam indignar aos cristãos de rito grego.

Por exemplo: os latinos usavam pão sem levedura na eucaristia, comiam carne de presa estrangulada, raspavam a barba, jejuavam nos sábados e deixavam os monges comer carne!

No entanto, nas listas de Cerulário e de outros autores da primeira época da ruptura não se menciona como agravo a primazia papal, embora é evidente que conheciam as reivindicações papais sobre esta primazia. Padres da Igreja como São Leão Magno, São Teodoro Estudita e São Máximo, o Confessor — os 3 hoje são santos comuns ao oriente e o ocidente — , haviam deixado clara sua aposta pela primazia papal e durante essa época da ruptura a facção pró-Constantinopla não se atrevia a abordar o tema.

Os textos anti-latinos que se encontram na Rússia nesta época não são escritos por russos, senão por enviados gregos chegados a Rússia, que irritados pela fluidez do tratamento com o mundo latino na Rus de Kiev se sentem obrigados a escrever contra isso. Estes textos anti-latinos durante muito tempo não influíram no tratamento russo com o mundo latino, mas sim forneceram a ideia ao cristão russo comum de que todos esses temas menores ( a barba, o jejum de carne nos monges, etc…) eram importantíssimos, ideia que até hoje perdura.

Na realidade, segundo os historiadores, a ruptura da Rússia com o Ocidente latino não alcançou os séculos XV e XVI, com a passagem do poder de Kiev para Moscou e a ruptura administrativa com Constantinopla, mas com o aparecimento de um patriarcado próprio em Moscou.

O caso de São Nicolas: da Itália à Rússia !

Em 1087 em Mira, cidade grega costeira na Lícia (Anatólia), alguns marinheiros latinos arrebataram as relíquias de São Nicolau e as levaram a Bari, na Itália, e as colocaram em uma Igreja dedicada ao santo. O papa Urbano declarou uma Festa de Transladação das Relíquias de São Nicolau Taumaturgo.

É curioso que esta festa de origem papal na Rússia se recebeu, aceitou e se estendeu nessa época: A Rússia, trinta anos depois da “ruptura” em Constantinopla, se faz, influenciada por um decreto papal, devota de S. Nicolau como santo milagroso, que movia coisas no espaço e que era cultuado notadamente pelo Papa de Roma S. Clemente.

Em Kiev escreveram uma crônica sobre essa transferência das relíquias de Nicolau: aos latinos chama “ fiéis” e ao Papa “Santíssimo Patriarca”. E é evidente que o autor da crônica conhecia a excomunhão mútua decretada 30 anos antes, mas ao que parece não lhe dava importância alguma.

Em um evangelho na Rússia de 1056-1057 falam da devoção popular russa ao santo latino Santo Apolinário (um santo que na Grécia não interessava ninguém). Há textos russos desta época com litanias a todos os santos que incluem montões de reis vikings, germânicos e santos anglos como Adabelto, Olaf, Magnus, Canuto, Wotulfo, Albano, Wenceslao…

Príncipes russos financiando monastérios latinos

Outro exemplo da fluidez de tratamento da nobreza russa com os “excomungados” do Ocidente se nota nos donativos das famílias para monastérios e conventos latinos. Os documenta Nazarenko A.V. en “La Rus Antigua en los Caminos Internacionales” (livro de 2001, editado em Moscou, em russo. página 585-606).

Por exemplo, em finais do séc .XI e princípios do séc.XII se sabe que um monge irlandês, um tal Maurício, foi enviado a Kiev para buscar donativos para construir um monastério em Ratisbona (Alemanha) dedicado a São Tiago e Santa Gertrudis. Foi recebido com honras pelo príncipe e regressou com grandes donativos com os quais se finalizou o monastério. Mais ainda, no séc.XIII havia um monastério filial destes em Kiev.

Outro monastério latino que recebeu grandes donativos dos príncipes de Kiev foi o de São Pantaleão em Colônia (Alemanha), que os recebeu de Mstislav I Vladimírovich (filho de Gytha de Wessex, que era filha do último rei saxão da Inglaterra, Harold, que morreu em 1066 na famosa batalha de Hastings contra os normandos) e de seu filho Iziaslav II, que foi batizado como Pantaleão (muitos príncipes russos tinham 3 ou 4 nomes: um eslavo, outro grego ou latino de batismo, outro germânico e algum sobrenome… sem contar o patronímico).

Diz a lenda que um urso atacou Mstislav e o deixou ferido, moribundo, mas um jovem lhe apareceu em uma visão e lhe disse : “Meu nome é Pantaleão, e minha casa amada está em Colônia, e o sarou. Ao recuperar-se Mstislav a familia se fez devota do santo e de seu convento na longínqua Colônia. Iziaslav II Pantaleão, o filho do milagroso, morreu aos 54 anos em 1154, um século depois da excomunhão mútua, sem que pareça que deixara de apoiar ao convento latino de Colônia.

Igrejas latinas havia por toda a Rus de Kiev e até o século XIII foi frequente a chegada de missionários latinos à Rússia e a “Bulgária do Volga” e até as estepes do Mar Negro.

Quando as russas batizavam em igrejas varegas

Um documento do século XII em russo chamado ” As perguntas de Kirik”, escrito em Novgorod, de direito canônico, recolhe que muitas mulheres russas (eslavas) levavam seus bebês para se batizar em igrejas “varegas” ( isto é, germânicas-latinas) mas o texto, embora parece entender que é algo errôneo (se impõe una ligeira penitência à mulher) dá por suposto que o batismo em outras igrejas é válido.

A santa ortodoxa que vivia em Roma no século XIII

Uma santa russa do calendário ortodoxo, Santa Parasceva, princesa da família dos príncipes de Polotsk (um principado importante do século XI e XII, no que hoje é a Bielorrússia, com sede episcopal) foi peregrina em Roma, viveu ali 7 anos e morreu em 1239. A Igreja Ortodoxa Russa a canonizou em 1273, mais de dois séculos depois da “excomunhão mútua”, sem que parecesse irritar-lhes seus anos de vida devota em terra latina. ( Conta
M.A. Taube, “Roma y Rusia en el periodo antes de los mongoles”, Almanaque Católico, 2, París, 1928, em francês).

A Rússia “românica” cheia de construtores latinos

É coisa bem sabida, além disso, que as Igrejas do século XII que hoje contemplam os turistas no chamado “Anel de Ouro” ( nos antigos principados de Suzdal e Vladimir, por exemplo) as construíam e desenhavam técnicos ocidentais , chegados a pedido dos príncipes a partir da Alemanha, Polônia e Lombardia. O príncipe Yuri “Dolgoruki”, ou seja , “Jorge Brazolargo”, que seria o fundador de Moscou) e seu filho Santo André Bogolubski ( o primeiro a dedicar uma Igreja russa à Virgem) foram os grandes promotores desta arte, um autêntico românico no Oriente europeu.

Todos esses indícios mostram que demorou muito em se consumar a ruptura decretada em 1054. Oxalá demore menos em consumar-se e levar-se a plenitude a reconciliação e plena comunhão.

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Autor: P.J. Ginés / T. Fedótova
Fonte:https://www.religionenlibertad.com/movil/articulo_rel.asp?idarticulo=46398&accion=
Tradução: David Nesta

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