OS NOBRES BEREIANOS: SOLA SCRIPTURA EM AÇÃO? (Larry Nolte – Carlos Martins Nabeto)

Todo mundo ama os bereianos [Atos 17,10-12] e todos nós gostamos de nos considerar igualmente “nobres”. Esse é, aliás, um dos textos-prova favoritos dos adeptos da “Sola Scriptura”.

Muitos protestantes enxergam nisso uma espécie de trunfo, em que as Escrituras se sobrepõem ao ensinamento oral.

Então a pergunta é: “Os bereianos são um exemplo da ‘Sola Scriptura’ em ação? E os protestantes atuais se comportam como os bereianos nos Atos dos Apóstolos?”

É importante darmos uma olhada cuidadosa de como os bereianos se comportam e compará-los com passagens semelhantes nas Escrituras, pois quando fazemos isso podemos observar o desenvolvimento de um padrão.

Atos 17,1-3 mostra como Paulo chegou a Tessalônica: “(Paulo e Silas) passaram por Anfípolis e Apolônia e chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo dirigiu-se a eles, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles. Explicava e demonstrava, à base das Escrituras, que era necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dos mortos. ‘E este Cristo é Jesus, que eu vos anuncio!'”.

Na missão de Paulo aos tessalonicenses, ele se comporta como um rabino itinerante. Quando ele chega à cidade, ele se apresenta aos líderes da sinagoga. Quando Atos diz “segundo o seu costume”, está se referindo aqui ao costume judaico, não apenas aos hábitos pessoais de Paulo. Como um rabino visitante, Paulo tinha licença para pregar e discutir a Torá. Mas o que importa aqui é que Paulo não está pregando aos pagãos, mas aos judeus da sinagoga; em outras palavras: para pessoas que conheciam as Escrituras.

Das Escrituras judaicas, Paulo “desenvolveu os argumentos…” Literalmente, em grego, ele “abriu, desdobrou, destravou” as Escrituras, explicando e provando “pontos sobre o Messias esperado”. Mas então vem um “pulo”: ele passa das Escrituras para o seu próprio testemunho: “E este Cristo é Jesus, que eu vos anuncio!”

Vemos claramente dois elementos em ação aqui: as Escrituras *E* o ensino oral. Paulo usa os dois elementos juntos para trazer as Boas Novas aos tessalonicenses.

Os resultados são diferentes: “Alguns deles creram e associaram-se a Paulo e Silas, como também uma grande multidão de prosélitos gentios, e não poucas mulheres de destaque” (Atos 17,4). Mas nem todos se convenceram: “Os judeus, tomados de inveja, ajuntaram alguns homens da plebe e com esta gente amotinaram a cidade” contra Paulo e ele foi forçado a partir para a Beréia [cf. Atos 17,5].

Assim, temos aqui dois grupos:

1) os judeus e os gregos-judaizados (os “prosélitos gentios”) que “foram convencidos” por Paulo; e

2) os demais judeus, que não se convenceram.

De fato, no grego, eles são descritos como dois grupos opostos: o primeiro grupo é descrito como “peitho” (que se traduz como “convencido”); e o segundo, os judeus que estavam “tomados de inveja”, são descritos como “apeitheo” [que se traduz como “não-convencido”].

Porém, o termo grego “peitho” significa mais do que “ser convencido por”; significa “crer, confiar, ceder, ser obediente”.

Ambos os grupos criam nas Escrituras, a diferença é que o grupo que estava convencido confiava também no testemunho de Paulo e até mesmo era obediente à sua autoridade de pregar a verdade!

Vamos agora seguir Paulo até a Beréia… “Logo que se fez noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para a Beréia. Quando ali chegaram, entraram na sinagoga dos judeus” (Atos 17,10). Portanto, temos aqui uma situação paralela àquela visita a Tessalônica. Novamente, Paulo vai até a sinagoga para encontrar os seus líderes, como era o costume.

Mas desta vez as coisas ocorrem de um modo melhor: “Estes eram mais nobres do que os de Tessalônica e receberam a Palavra com ansioso desejo, indagando todos os dias, nas Escrituras, se essas coisas eram de fato assim. Muitos deles creram, como também muitas mulheres gregas da aristocracia e não poucos homens” (Atos 17,11-12).

Pois bem: qual é a diferença que explica os melhores resultados na Beréia? A maioria dos protestantes diria que é a confiança dos bereianos nas Escrituras como única regra de fé. Mas isso seria verdade?

Em ambas as cidades, Paulo pregou na sinagoga para judeus e gregos-judaizados. Podemos supor muito bem que na Beréia, ele “desenvolveu os argumentos das Escrituras para eles, explicando e provando como o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dos mortos”, assim como tinha feito na Tessalônica. Portanto, não há como concluir que ambas as cidades tinham um conhecimento profundo das Escrituras. Discurso e debate sobre o significado das Escrituras eram coisa comum nestas sinagogas.

A diferença real é que os judeus da Beréia “receberam a Palavra com ansioso desejo”. Qual Palavra? O testemunho oral! Seus corações estavam abertos à proclamação de Paulo. Já os tessalonicenses, por sua vez, rejeitaram a interpretação de Paulo das Escrituras *E* o seu testemunho de que Jesus era o Messias aguardado.

Se os bereianos tivessem aplicado as Escrituras da maneira como os defensores da “Sola Scriptura” imaginam que eles fizeram, eles teriam acabado como a maioria dos judeus na Tessalônica. Embora muitas das declarações que Paulo fazia sobre as profecias acerca do Messias fossem facilmente comprováveis, verificando-se os textos havia um fato que eles não encontravam ali: “E este Cristo é Jesus, que eu vos anuncio!” Este fato central permaneceu ou caiu na disposição dos bereianos em aceitar o ensinamento de Paulo. Logo, as Escrituras apoiavam o testemunho de Paulo, mas uma leitura direta dos textos não confirmava tal doutrina.

“Indagar as Escrituras” não era por si só suficiente para os bereianos. Eles eram diferentes na medida em que “receberam a Palavra com ansioso desejo”. Um povo com um coração endurecido indagaria as Escrituras do começo ao fim e jamais teria a disposição em receber a Palavra que Paulo estava trazendo. Como Paulo escreveu aos Gálatas: “Apenas isto quero saber de vós: recebestes o Espírito pelas práticas da lei (literalmente, a Torá) ou pela aceitação da fé que vos foi pregada?” (Gálatas 3,2). Eis aí uma excelente pergunta também para os bereianos. E uma excelente pergunta para nós!

Jesus encontrou problemas parecidos: estando em Jerusalém para um festa, Jesus curou um homem no sábado. Quando foi contestado por alguns dos homens do templo, Ele respondeu-lhes: “Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a vida eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de mim” (João 5,39).

Até mesmo os discípulos estudavam as Escrituras, mas não as compreendiam! Depois da sua ressurreição, Jesus encontrou dois discípulos no caminho para Emaús. “E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que Dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lucas 24,27).

O que faltava aos judeus a quem Jesus falava não era o conhecimento das Escrituras. Eles tinham esse conhecimento; o que eles não tinham era esse entendimento que Jesus pode dar. Esse entendimento é o que Paulo, agindo sob a autoridade de Jesus, oferecia aos bereianos e aos tessalonicenses, mas só os bereianos eram nobres o suficiente para “receber a Palavra com ansioso desejo”.

Esta combinação de Escrituras e Testemunho, de transmissão escrita e oral da Boa Nova, é encontrada em toda a Bíblia: em Atos 2 vemos a primeira colheita da Igreja recém-nascida. Ungido pelo Espírito Santo durante o Pentecostes, Pedro se dirige à multidão reunida de judeus e lhes diz que ele não se encontra bêbado, mas “pelo contrário, é Deus quem fala: ‘Acontecerá nos últimos dias que derramarei do meu Espírito sobre todo ser vivo: profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas. Os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos sonharão” (Atos 2,17). Assim, vemos aqui Pedro fazendo referência às Escrituras; mas ele continua: “Israelitas, ouvi estas palavras: Jesus de Nazaré foi o homem recomendado por Deus a vocês…” (Atos 2,22). Com efeito, vemos agora Pedro partindo para o testemunho: ele toma as Escrituras com as quais os judeus certamente estavam familiarizados e as interpreta através do poder dado a ele por Jesus e pelo Espírito Santo (estes dois trabalham juntos, nunca separadamente). No discurso de Pedro, este padrão ocorre três vezes!

Posteriormente, Filipe é enviado para levar a Boa Nova a um eunuco na estrada de Gaza: “Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías, e perguntou-lhe: ‘Porventura entendes o que estás lendo?’ Respondeu-lhe o eunuco: ‘Como é que posso entender, se não há quem mo explique?’ E rogou a Filipe que subisse e se sentasse junto dele” (Atos 8,30-31). Não foi por falta de persuasão nas Escrituras que o homem carecia da Salvação, mas por falta de uma autoridade que o guiasse! Novamente, a Escritura e o ensinamento oral, de autoridade, caminham juntos.

Paulo recomenda a Timóteo por sua fé deste modo: “Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste. E desde a infância conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo” (2Timóteo 3,14-15).

Observe novamente o mesmo padrão que vimos mais acima: Timóteo recebeu a fé em Cristo através do ensino de homens a quem ele conhecia e confiava, não da própria Escritura. E o seu conhecimento das Escrituras o fez crescer em sabedoria para receber essa fé. Os mesmíssimos dois elementos estão presentes aí: a Tradição nas formas oral e escrita, ambas em harmonia. Em nenhum lugar Paulo diz que só as Escrituras foram plenamente suficientes para Timóteo.

Em sua 2ª Epístola aos Tessalonicenses, Paulo enfatiza mais uma vez os dois elementos, sobre os quais repousa a nossa Fé: “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, sejam por palavras orais, sejam por carta nossa” (2Tessalonicenses 2,15).

Assim, os bereianos não eram “nobres” apenas porque indagavam as Escrituras. Eles tinham um algo a mais: “receberam a Palavra com ansioso desejo”; eles aceitaram o testemunho de Paulo! Eles não estavam dispostos a errar e então testaram a Palavra de Paulo pelas Escrituras; mas, por outro lado, eles também estavam dispostos a ser guiados e então aceitaram a autoridade de Paulo para revelar o que as Escrituras queriam dizer.

Portanto, os bereianos não eram adeptos da “Sola Scriptura”. Se assim o fossem, teriam rejeitado o testemunho de Paulo de que “e este Cristo é Jesus, que eu vos anuncio!”. Esta doutrina que Paulo pregava não era encontrável nas Escrituras, mas estava em harmonia com elas. Pelo contrário, como os discípulos no caminho de Emaús, como o eunuco que conheceu Filipe e como Timóteo, os bereianos aceitaram a Boa Nova com base nas Escrituras *E* no ensinamento e interpretação de autoridade que provêm de Jesus através da sua Igreja.

Autor: Larry Nolte
Fonte: Site “The Beggar King”
Tradução: Carlos Martins Nabeto

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