O PRIMEIRO NATAL DO JAPÃO

O primeiro Natal, dizem os jesuítas de Yamaguchi, foi uma celebração do século XVI que teve lugar em um antigo templo budista, em meio a hinos noturnos.
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Autor: Joji Sakurai
Tradução: David Nesta & Marina. B. Nesta
Fonte: https://googleweblight.com/i?u=https%3A%2F%2Fjapanseye.com%2F2016%2F12%2F27%2Fla-primera-navidad-de-japon%2F&hl=pt-BR&tg=131

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Em uma carta enviada a seus irmãos portugueses, o missionário jesuíta Pedro de Alcacova escreve sobre uma Missa cantada que se ofereceu aos crentes japoneses em 1552: “Nossas vozes não eram boas”, afirma. “Ainda assim os cristãos ali presentes voltaram com alegria.”

Foi uma Noite de natal em Yamaguchi, e a paciência, senão fé, dos conversos japoneses foi posta à prova quando após entoar cânticos surpreendentes , os missionários nanban (“bárbaros do sul” como chamavam os europeus) começaram a ler as escrituras em uma vigília que durou toda a noite e se prolongou até o amanhecer com o “canto do galo”.

Esse é o primeiro Natal japonês da qual se têm testemunho, e na subtropical Yamaguchi, situada ao sul da ilha de Honshu, a celebração do parto da Virgem Maria foi em certo modo um encontro virginal também para os congregados: suscitou surpresa e agrado (segundo a crônica jesuítica) além de ser a primeira representação de música vocal ocidental no Japão. São Francisco Xavier – o jesuíta que levou o cristianismo à Asia – havia desembarcado no domínio de Satsuma tão somente três anos antes, ganhando o favor dos senhores daimyôs e sendo autorizado a pregar e fazer conversões. O Japão se encontrava ainda longe dos períodos de perseguição do cristianismo que décadas depois tiveram lugar sob o hermético regime Tokugawa – cenário temporal no qual se desenvolve o “Silêncio”, a grande novela de Shusaku Endô recentemente levada ao cinema por Martin Scorsese.

A mútua fascinação – acompanhada de interesses comerciais e estratégicos – ainda era palpável. Os daimyôs locais abriram seus territórios aos missionários para aprender sobre o Ocidente ao mesmo tempo obtinham benefícios comerciais vantajosos com Portugal e Espanha, enquanto Xavier buscava aliados nas altas esferas que lhe ajudassem a fazer conversos nas camadas inferiores da sociedade. Foi um período de significativo e cordial intercâmbio cultural, apesar de que os pregadores jesuítas enfrentavam amiúde desprezos pelas pessoas comuns , sendo apedrejados e cuspidos na rua e objeto de todo tipo de piadas.

Aquele Natal de 1552 não podia ser mais distinto do Natal que conhecemos hoje. A atual imagem natalina ocidental – as árvores de luzes, as renas, o azevinho e outros – não existia em nenhuma parte do mundo (e, obviamente, não tinha esse viéis comercial que impregna os festejos atuais). O local daquele Natal foi o abandonado templo budista Daido-ji, convertido no lugar de residência, culto e pregação dos jesuítas. Foi provavelmente dos primeiros nanban-dera, ou “templos dos bárbaros”, como se chamava às improvisadas Igrejas situadas dentro dos recintos budistas, com shôji (portas de papel) e engawa (terraço) e cujo único sinal de distinção era a cruz erigida sobre o telhado cerâmico do edifício.

Na noite de natal, os crentes nipônicos eram convidados a pernoitar nas residências jesuítas, abarrotando os recintos ao começar uma noite de hinos, sermões, audição das Escrituras e Missas. Com os olhos de hoje, a crônica de Alcacova transmite a imagem daquela Missa de noite de natal como uma experiência extenuante, ainda que isso não signifique duvidar do testemunho dos missionários quando afirmavam que houve “grande júbilo” entre os convertidos japoneses. Desde o pôr-do-sol até o amanhecer, esses conversos escutaram sermões e leituras sobre “Deus” – a palavra portuguesa com a qual se chamava a Deus. A celebração completa incluía seis Missas.

O Padre Juan Fernández, importante jesuíta que escreveu o primeiro dicionário bilíngue, abriu a sessão de Escrituras essa noite. Quando o cansaço aparecia, era relevado por “algum jovem japonês versado em nosso idioma”, escreve Alcacova. Com o amanhecer, Cosme de Torres – responsável da missão evangelizadora após a partida de Francisco Xavier à Índia – oficiou uma Missa, ajudado por outro sacerdote que lia passagens do Evangelho e das Epístolas. Após esta vigília de imersão cristã, os fiéis puderam voltar à casa, e trocavam a saudação de “Natala”- “nascimento” em português.

Mas não acabou aí. Em breve os conversos nipônicos regressaram para assistir a uma nova Missa e escutar conversas sobre a Creação e o advento do Cristo. “Em um país onde amiúde nos chamavam demônios e outras coisas”, cita Alcacova, “dávamos as graças ao Senhor por encontrar tantos e tão bons cristãos.”

Logo na comida – considerada por Alcacova como um assunto muito popular – houve tanta gente desejosa de participar que (diz em sua carta) “foi difícil albergar a todos dentro de nossa residência.”

Os fiéis japoneses e os irmãos jesuítas – junto com uns poucos não-cristãos – se sentaram juntos a desfrutar do ágape de alimentos preparado pelos líderes da paróquia nipônica. A congregação então repartiu a comida entre os pobres, um método visualmente muito efetivo para ganhar novas almas.

Esse Natal de 1552 se considera “o primeiro Natal do Japão”. Isso provavelmente não é exato. Com quase total segurança Francisco Xavier não deixaria passar a oportunidade de celebrar o Natal em solo japonês no período que mediou entre sua chegada a Satsuma (atualmente prefeitura de Kagoshima) em 1549 e sua partida em 1552, segundo os historiadores Klaus Kracht e Katsumi Tateno-Kracht. No entanto não há registro de tal acontecimento. A carta de Alcacova, escrita a seus irmãos estando já de volta em Portugal, é simplesmente o primeiro relato que existe de um Natal celebrado no Japão.

Desgraçadamente, o relatório dos jesuítas não menciona o que se comeu no dia de Natal. Em contrapartida, em uma carta escrita pelo missionário Gaspar Vilela em 1557, há um suculento esboço da gastronomia nipônica nas primeiras festas cristãs. Este documento descreve uma Páscoa para a qual se trouxe uma vaca, e aquela carne junto com arroz foi repartida entre os fiéis (este menu é um provável precursor do atual prato de gyûdon). Tais iguarias podiam ter resultado exóticas para os conversos, porque naqueles tempos a carne de vaca não formava parte da dieta japonesa. Por conseguinte, a carta de Vilela diz que “todos comeram com grande alegria.”

Os relatos jesuíticos dos natais japoneses nos anos subsequentes seguem aproximadamente o mesmo padrão. “Homens e mulheres de classe alta se juntavam em grande número na residência sacerdotal”, escreve o missionário Duarte da Silva em uma carta sobre o Natal japonês de 1553, também na cidade de Yamaguchi. “A partir de uma da manhã, se escutavam histórias da Bíblia – a criação do Céu e da terra e o pecado do homem, depois do dilúvio de Noé, a separação das línguas, o começo da adoração de ídolos, a destruição de Sodoma, a história de Nínive, a história do filho de José, de Jacó, o cativeiro da Babilônia, os dez mandamentos de Moisés e a fuga do Egito, depois do profeta Eliseu, Judite, a estátua de Nabucodonosor – e finalmente com a história de Daniel, nos davam a clareza do dia.” Tal instrução sobre o Antigo Testamento estava destinada a levar às casas nipônicas a ideia da necessidade do advento de Cristo – algo que os conversos japoneses aprendiam durante a segunda metade da noite de Natal.

Houve, no entanto, dois novos aspectos que se foram incorporando aos Natais japoneses com a passagem dos anos. Em primeiro lugar, os crentes japoneses introduziram o costume de trocarem presentes no dia de Natal – e isso foi visto pelos missionários jesuítas como algo estranho a eles, uma tradição japonesa que nada tinha a ver com a sua.

Por sua vez os jesuítas começaram a montar obras teatrais (Autos) de Natal para dar humanidade as histórias dos Evangelhos. Torres e seus irmãos pensavam que seriam mais fáceis de digerir que as longas sessões de leitura da Bíblia, e — por portanto uma ferramenta prometedora para difundir a fé. Tinham razão. As obras foram um sucesso tão grande que algumas crônicas afirmam que o Auto de Natal conseguia reunir até duas mil pessoas. Entre elas estavam os não-cristãos que buscavam um pouco de entretenimento e talvez um pouco de comida. Os jesuítas fomentaram estas representações como uma forma de expandir a missão. Mas às vezes havia tal inclinação a esses eventos que os missionários tinham que limitar a entrada e só permiti-la “às pessoas que houvessem sido introduzidas na fé cristã”.

A primeira dessas obras de Natal se levou a cabo em Bungo – a atual Prefeitura de Oita – em 1560. As pessoas viajaram de cidades e povos longínquos para presenciar o evento. Promulgada por crentes japoneses, a obra contava a história de Adão e Eva, e para isso se colocou uma árvore decorada com maçãs de ouro no meio do cenário, segundo uma carta de Juan Fernández. O conjunto também incluía um estábulo e berço para simbolizar o nascimento de Cristo. Tal era o feitiço hipnótico da atuação que quando Lúcifer procedeu a tentar a Eva debaixo da macieira, que segundo se diz os espectadores – homens, mulheres e crianças igualmente– romperam a chorar. A angústia alcançou níveis febris quando um anjo apareceu e conduziu a Adão e a Eva para fora do Jardim do Éden. Para os espectadores, o consolo só chegou quando o anjo reapareceu diante do primeiro homem e da primeira mulher – vestido com a roupa que lhes havia dado Deus – e os consolou com notícias de um longínquo dia da salvação.

Esta foi a época dourada do cristianismo no Japão. Um período que durou aproximadamente um século no qual se estima que os missionários jesuítas ganharam várias centenas de milhares de convertidos, e lhes foi concedida autoridade sobre Nagasaki por Omura Sumitada – o primeiro dos daimyôs convertidos ao cristianismo. A nova religião ganhou apoio durante o período bélico de Sengoku, no qual os jesuítas encontraram proteção nos poderosos daimyô à falta de uma autoridade centralizada. Alguns senhores feudais, como o formidável Otomo Sorin, senhor de Bungo em Kyushû, se converteram em católicos romanos, alguns deles na crença calculada de que isso melhoraria sua riqueza e poder. “Viam muito benefício em tudo o que reportavam os portugueses”, escreve Alessandro Valignano, um destacado jesuíta italiano. Inclusive Oda Nobunaga, primeiro dos grandes unificadores do Japão e nada simpatizante com o novo credo, deu audiências aos jesuítas e lhes concedeu uma licença para pregar em Kioto.

Foi Ouchi Yoshitaka, o poderoso e cultivado daimyô do domínio Suo, quem concedeu o complexo do templo Daido-ji a Francisco Xavier no ano anterior ao primeiro Natal registrado no Japão. O presente foi ainda mais relevante porque o primeiro encontro entre Francisco Xavier e Ouchi não tinha sido positivo, de acordo com o historiador John Dougill, autor de “En busca de los cristianos ocultos del Japón”. Vestido com farrapos em sua primeira visita ao poderoso senhor, Xavier denunciou perante ele a sodomia como um dos três maiores pecados que afligiam o Japão, junto com o aborto e o infanticídio. Ouchi sofreu uma explosão de ira; ele não era alheio, diz os experts, às práticas homosexuais entre senhores feudais e seus jovens samurais. Para a seguinte visita, em contrapartida, Xavier se arrumou e se lavou, vestindo casaco de seda e levando presentes ocidentais tais como vidro talhado, faqueiro, vinho português, um binóculo e um telescópio, segundo o relato de Dougill; pouco depois os jesuítas obtiveram permissão para estabelecer sua primeira missão no Japão.

A história se voltou contra os cristãos no Japão quando Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu completaram a unificação do país. Eles viam o cristianismo como uma ameaça a seu poder secular — em parte um legado das sublevações religiosas budistas anteriores – e por isso começaram as perseguições. Os cristãos foram torturados e forçados a apostatar por meio de um gesto que consistia em pisar uma estampa fumiê de Cristo; os que se negavam eram crucificados. A era cristã do Japão chegou ao seu fim definitivo em 1639 quando o shôgun Tokugawa Iemitsu emitiu o último sakoku – édito de fechamento do país – que proibia toda interação com países católicos.

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Madonna do Bambu. Pintura pingente kakejiku chamada “de verão”. Se encontra no convento japonês das Carmelitas da Santa Trindade em Chofu-shi, Tokio. (Fonte: The Mary Page)

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