Santo Agostinho de Hipona – Processão do Espírito Santo através do Pai e do Filho

 

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Depois de ler De Trinitate, de Santo Agostinho, assumi o compromisso de finalmente escrever um artigo completo sobre esse grande santo, venerado universalmente pelo Oriente e pelo Ocidente, e sua teologia da eterna processão do Espírito. No entanto, como esse trabalho exige muita reflexão, releitura e recapitulação de pensamentos e argumentos imensos em pensamentos menores, tenho sido continuamente atrasado por poder publicar isso mais cedo ou mais tarde. Se Deus quiser, isso será em breve. Mais duas semanas, suspeito. De qualquer forma, reservei um tempo para identificar todas as passagens importantes em que Agostinho fala sobre a questão da processão do Espírito, tanto do Pai quanto do Filho, junto com a participação na argumentação e nos detalhes do próprio Agostinho. Dessa forma, você pode estar familiarizado com alguns de seus pensamentos antes de eu me aprofundar na teologia e em seu argumento geral. Um ponto que farei aqui é este: é inconfundível que Agostinho tenha feito uma processão eterna (Ad Intra) ou uma inspiração do Espírito Santo tanto do Pai quanto do Filho a partir de um único princípio, como o Concílio Ecumênico de Florença tornou explícito, bem como o catecismo católico universal moderno. Há algumas poucas pessoas que tentam pensar que o que Agostinho diz aqui está inteiramente dentro da construção de uma “eterna manifestação” do Espírito através do Filho (cf. Gregório de Chipre II e Gregório Palamas), ou que ele fala apenas de um processão externa do Espírito através do Filho, mais popularmente referido como a “processão econômica” (Ad Extra). Não posso explicar por que isso é simplesmente errado, mas posso prever que você não conseguirá esse último sentido mesmo nas citações abaixo. Mas, por uma questão de meticulosidade, prometo lançar o artigo mais aprofundado assim que puder. E, por último, talvez você queira manter essa referência em seus próprios arquivos, pois não encontrei nenhum artigo ou site on-line que forneça um Florilegium tão extenso do livro de Agostinho sobre a Trindade em apoio à doutrina Filioque. Aprecie!


“Portanto, assim como o Pai gerou e o Filho foi gerado, assim o Pai enviou e o Filho foi enviado. Assim como o que gerou e o que foi gerado são um, assim o que enviou e o que foi enviado são um (Jo 10,30). E o Espírito é um com eles, pois os três são um. Assim como o ter nascido é próprio do Filho e do Pai é próprio o existir, assim ser enviado é próprio do Filho e ser conhecido como o que procede do Pai. Do mesmo modo que para o Espírito Santo ser dom de Deus é proceder do Pai, assim ser enviado é ser conhecido como o que procede do Pai. Não podemos afirmar também que o Espírito Santo não proceda do Filho, pois não é em vão que se denomina Espírito do Pai e do Filho. Não vejo outro sentido nas palavras pronunciadas pelo Filho ao soprar sobre os discípulos: Recebei o Espírito Santo (Jo 20,22). Aquele sopro natural, originário do corpo com a intenção de atuar sobre o corpo, não foi a essência do Espírito Santo, mas um símbolo para demonstrar a procedência do Espírito Santo tanto do Pai como do Filho. Qual o insensato capaz de afirmar que um é o Espírito Santo que ele deu neste sopro e outro o que enviou depois da ascensão? (At 2,1-4). É um só Espírito de Deus, Espírito do Pai e do Filho, que realiza tudo em todos (1Cor 12,6). Mas como foi dado duas vezes, o fato não deixa de ter um significado singular, sobre o qual dissertaremos em outro lugar, se o Senhor o permitir. Tendo dito o Senhor: o Paráclito, que eu vos enviarei de junto do Pai (Jo 15,26), é evidente que é o Espírito do Pai e do Filho. Tendo dito também que o Pai enviará, acrescenta: em meu nome (ib.14,26). Não disse: “Que o Pai enviará de mim”, à semelhança do que disse antes: que eu vos enviarei de junto do Pai, indicando que o Pai é o princípio da divindade, melhor dizendo, da deidade. Portanto, o que procede do Pai e do Filho faz referência àquele do qual nasceu o Filho. (De Trinitate Livro IV, Cap XX)


“Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, como são um só Deus, e Deus é santo e espírito, a Trindade pode ser chamada de Espírito Santo. Mas o Espírito Santo, que não é a Trindade, mas está na Trindade, quando se há de fazer referência a ele, denominando-o propriamente Espírito Santo, a referência é dita de modo relativo, pois inclui o Pai e o Filho, porque o Espírito Santo é espírito do Pai e do Filho. Essa relação, porém, não aparece claramente nesse nome, mas sim sob o nome de “Dom de Deus” (At 8,20), pois é Dom do Pai e do Filho, visto que procede do Pai (Jo 15,26), como afirma o Senhor. E quando o Apóstolo diz: Quem não tem o Espírito de Cristo, não pertence a ele (Rm 8,9), está se referindo evidentemente ao Espírito Santo. Quando dizemos Dom do doador e Doador do dom, referimo-nos relativamente a ambos e mutuamente. Portanto, o Espírito Santo é como uma comunhão inefável do Pai e do Filho; e talvez seja assim chamado de Espírito, porque a mesma denominação pode aplicar-se ao Pai e ao Filho. Para o Espírito Santo, a denominação é própria, mas para as outras pessoas é comum, pois o Pai é espírito, o Filho é espírito; assim como o Pai é santo e o Filho é santo. E para significar a comunhão mútua por uma denominação que convenha aos dois, o Dom de ambos chama-se Espírito Santo. Esta Trindade é portanto um só Deus único, bom, grande, eterno, onipotente, e ele é a sua própria unidade, sua deidade, sua grandeza, sua bondade, sua eternidade e sua onipotência.” (De Trinitate Livro V, Cap XI)


“Portanto, quando dizemos que o Pai é princípio e o Filho é princípio, não estamos afirmando dois princípios, pois o Pai e o Filho são, em relação às criaturas, um só princípio, assim como são um só Criador e um só Deus. Se, porém, tudo o que, permanecendo em si, gera ou faz algo é princípio do que gera ou faz, não podemos negar que o Espírito Santo possa chamar-se também Princípio, já que não o separamos do conceito de Criador, e está escrito que ele opera, permanecendo em si, ou seja, não se muda ou transforma naquilo que faz…Com respeito às relações mútuas na Trindade, se aquele que gerou é princípio do gerado, o Pai é princípio em referência ao Filho, porque o gerou. Entretanto não é uma investigação de pouca importância inquirir se o Pai é também princípio com relação ao Espírito Santo, pois está escrito: procede do Pai. Se assim for, é princípio não somente do que gera ou faz (o Filho), mas também da Pessoa que ele dá (o Espírito)…E se o que é dado tem como princípio aquele por quem é dado, pois não recebeu de outro o que dele procede, deve-se admitir que o Pai e o Filho são um só Princípio do Espírito Santo, e não dois princípios. Mas assim como o Pai e o Filho são um só Deus e
em relação à criação um só Criador e um só Senhor, assim também de modo relativo quanto ao Espírito Santo são um só Princípio. E em relação à criação o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Princípio, como são um só Criador e um só Senhor. (De Trinitate Livro V, Cap XIII-XIV)


“E está provado por muitos outros testemunhos do Verbo Divino, que o Espírito, que é especialmente chamado na Trindade, o Espírito Santo, é do Pai e do Filho: de quem também o próprio Filho diz, a quem enviarei você do pai; e em outro lugar, a quem o Pai enviará em meu nome. E nós somos ensinados que Ele procede de ambos, porque o próprio Filho diz, Ele procede do Pai. E quando Ele ressuscitou dos mortos e apareceu aos Seus discípulos, Ele soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo, para mostrar que Ele também procedia de Si mesmo. E em si mesmo é aquele mesmo poder que saiu Dele, como lemos no Evangelho, e curou a todos eles…Acaso podemos nós investigar se o Espírito Santo procedeu do Pai quando o Filho nasceu, ou se ainda não procedera e, tendo o Filho nascido, prodeceu de ambos, quando se trata aí de uma realidade onde não existe o tempo? Podemos nós investigar essa questão, assim como pudemos averiguar no tempo, se a vontade é a primeira a proceder da alma humana, para buscar aquilo que é encontrado e se denomina “prole”, com a qual, uma vez dada à luz ou gerada, a vontade se aperfeiçoa, repousando em sua finalidade, convertendo o desejo de quem procura na vontade daquele de quem goza, amor que procede de ambos, isto é, da mente geradora e da noção gerada, tal como de um pai e de sua prole? Tais questões não podem ser investigadas na natureza da Trindade onde nada se inicia no tempo para se aperfeiçoar em tempo seguinte! Pelo que, quem puder compreender a geração do Filho pelo Pai prescindindo do tempo, entenda do mesmo modo a processão do Espírito Santo de ambos. Aquele que puder entender o que o Filho disse: Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo (Jo 5,26), não entenda que o Pai deu a vida ao Filho como a alguém já existente. Entenda, porém, que o gerou fora do tempo, de tal modo que a vida que o Pai deu ao Filho ao gerá-lo, é coeterna à vida do Pai que a deu. Entenda também que, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, para que dele proceda o Espírito Santo, assim deu ao Filho para que dele também proceda o mesmo Espírito Santo; o qual procedeu de ambos, fora do tempo. E pelo fato de dizer-se que o Espírito Santo procede do Pai, deve-se entender que o Filho recebe-o do Pai, e então, o Espírito Santo procede também do Filho. Pois o que o Filho tem, recebe-o do Pai, e assim recebe do Pai para que dele proceda, o mesmo Espírito Santo. Não se imagine neste caso, qualquer coisa referente ao tempo, o qual tem um antes e um depois, visto que em Deus, o tempo não existe. Não seria o maior absurdo dizer-se que o Espírito Santo é filho de ambos? Pois assim como a geração pelo Pai, sem mudança alguma de natureza, proporciona ao Filho a essência, sem início de tempo, a processão de ambos sem mudança na natureza proporciona ao Espírito Santo a essência, sem qualquer início de tempo. Por esse
motivo, embora não digamos que o Espírito Santo foi gera-do, não ousamos denominá-lo “ingênito”, para que ninguém suponha, devido a essa palavra, que haja dois pais na Trindade, ou duas Pessoas sem procedência. Somente o Pai não procede de ninguém. Por isso, é o único denominado ingênito, não nas Escrituras, mas no modo de falar dos tratadistas do assunto, os quais sobre tema tão profundo escolhem as palavras como
lhes é possível. O Filho nasceu do Pai. E o Espírito Santo procede principalmente do Pai, pelo dom que o Pai fez ao Filho, sem qualquer intervalo de tempo; e conjutamente (communiter) procede de ambos. Poder-se-ia dizer que o Espírito Santo é filho do Pai e do Filho, se ambos o tivessem gerado, o que repugna ao bom senso. Portanto, o Espírito de ambos não foi gerado por nenhum dos dois, mas procede dos dois.(De Trinitate Livro XV, Cap XXVI)


“Mas por ser extremamente difícil distinguir geração de processão, na coeterna, igual, incorpórea e inefavelmente imutável e indivisível Trindade, para aqueles que não podem
adiantar mais na compreensão, basta-lhes o que dissemos sobre o tema, num sermão proferido para o povo cristão, o qual na ocasião foi consignado por escrito.Depois de ter ensinado pelos testemunhos das santas Escrituras que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, entre outras coisas eu disse aí: Se o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, por que teria o Filho afirmado: ‘O Espírito que procede do Pai’? (Jo 15,26). Senão porque costuma referir o que lhe é próprio àquele do qual é ele mesmo nascido? No mesmo estilo diz: Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou (Jo 7,16). Se nesse texto se entende a respeito de sua doutrina, a qual diz não ser sua, mas do Pai, não se há de entender com tanto maior razão que o Espírito Santo também procede dele, isto é, do Filho, quando diz: o Espírito que procede do Pai, o que não significa: “Ele não procede de mim”. Daquele de quem o Filho recebe o fato de ser Deus, pois é Deus de Deus, recebe também o de ser princípio de quem procede o Espírito Santo. Conseqüentemente, o Filho recebe do mesmo Pai que o Espírito Santo dele procede. Assim, pode-se entender nessa passagem, de alguma maneira, como deve ser entendido por pes-soas fracas como nós, a razão pela qual não se diz que o Espírito Santo nasceu, mas sim, que procede. A razão é esta: porque se ele se denominasse também Filho, seria filho de ambos, isto é, das duas outras Pessoas, o que é sobremaneira absurdo. Ninguém pode ser filho de dois, se esses dois não forem o pai e a mãe. Longe, porém, de pensarmos em tal relacionamento entre o Pai e o Filho. Nem entre os filhos dos homens, o filho procede ao mesmo tempo do pai e da mãe. Pois, quando procede do pai pela concepção na mãe, então não procede da mãe; e quando vem à luz, nascendo da mãe, então não procede do pai. O Espírito Santo, porém, não procede do Pai através do Filho, procedendo do Filho para a santificação da criatura. Mas é ao mesmo tempo que ele procede de ambos, embora o Pai tenha comunicado ao Filho que dele possa proceder, tal como procede dele mesmo, isto é, do Pai. Não podemos dizer, com efeito, que o Espírito Santo não seja vida, pois o Pai é vida e o Filho é vida. Conseqüentemente, assim como o Pai tem a vida em si mesmo e concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo, assim concedeu-lhe que a vida dele proceda, como do Pai procede. (In Ion. Evang., trat. 99,8.9). Transcrevi de um sermão essas palavras para este livro, mas dirigia-me ali aos fiéis, não aos incrédulos…Levanta agora os olhos
para essa Luz, fixa-os nela, se és capaz. Assim, verás a diferença que há entre o
nascimento do Verbo de Deus e a processão do Dom de Deus, e por qual razão o Filho unigênito disse que o Espírito Santo não foi gerado do Pai — pois nesse caso seria seu irmão —, mas que ele procede do Pai. Por isso, como o Espírito de ambos é fruto da comunhão consubstancial do Pai e do Filho, não é denominado filho de ambos, o que não se diga de forma alguma.” (De Trinitate Livro XV, Cap XXVII)


Tradução:https://erickybarra.wordpress.com/2018/07/07/st-augustine-of-hippo-procession-of-the-holy-spirit-from-the-father-and-son/

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