AO MEIO-DIA EM PONTO, UMA NAÇÃO CHOROU

jap

Bem antes de chegar agosto, a Marinha e a Força aérea do Japão já estavam, há muito tempo, desfalcadas, neutralizando desta maneira as unidades do Exército Imperial, estacionadas no continente asiático e no próprio Japão. Os aviões americanos bombardeavam fábricas e portos praticamente à vontade. Líderes japoneses sensatos sabiam que a guerra estava perdida e se mostravam dispostos a paz. O primeiro – ministro Suzuki enviou o ministro das Relações Exteriores, Togo, a Moscou para que a Rússia comandasse as negociações de paz com o Ocidente, porém, os russos estavam aguardando até que o Japão ficasse tão fraco, que pudesse ser atacado impunemente. Um grupo influente de americanos estava procurando convencer a Casa Branca de que uma “rendição incondicional” dificilmente seria aceita pelos japoneses, visto que não respeitaria a posição sagrada do Imperador. Na liderança do grupo estava Joseph Grew, que até o início da guerra do Pacífico, tinha sido o embaixador dos Estados Unidos em Tóquio. O historiador Toland escreve que Grew” tinha uma compreensão excepcional e grande afeição pelo Japão e pelo povo japonês. Baseado em seus dez anos de experiência no Japão e em sua visão interna da origem da guerra, Grew insistiu que o Imperador não era criminoso de guerra e que se esforçara para evitá- la. Grew ainda afirmou que a maioria dos japoneses resistiria à rendição que pudesse indicar o julgamento do Imperador como criminoso de guerra e que não coooperaria com a Ocupação que sancionasse tal sacrilégio. No departamento do Estado, Grew teve forte apoio de alguns especialistas em assuntos do Extremo Oriente, como Dooman, Ballantine, Professor Blakeslee e o secretário – assistente de guerra Mc Cloy. O argumento deles foi rejeitado, e em 27 de julho de 1945 os aliados anunciaram o acordo de Potsdam de rendição incondicional. O primeiro – ministro Suzuki, de 78 anos, estava ansioso pela paz, mas uma paz que protegesse o Imperador. No dia 28 de julho, ele respondeu aos aliados, com a palavra MOKUSATSU, que significa “rejeição”. Os japoneses concordaram com a decisão e mantiveram- se determinados para as duras batalhas no momento em que os americanos desembarcassem. Os meios de comunicação japoneses não noticiaram o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima.

Em face dos novos acontecimentos em Hiroshima, o conselho Supremo de guerra, reuniu- se às 11 h de 9 de agosto, para discutir o Potsdam. O imperador, como exigia a tradição , estava presente à reunião como espectador passivo. Três dos seis membros do conselho eram a favor da rendição incondicional: O primeiro – ministro Suzuki, o ministro das Relações Exteriores, Togo, e o ministro da Marinha, Almirante Yonai. Os outros eram irredutivelmente contra : O Ministro de Guerra, General Anami, o Chefe do Exército, General Umezu, e o chefe da marinha, almirante Toyoda. O impasse era desesperador e a reunião foi encerrada.

Algumas horas depois, O imperador teve notícia da Segunda bomba atômica, sobre Nagasaki, e ficou profundamente abalado. Se ele continuasse a “reinar” passivamente, não seria culpado se seu povo fosse aniquilado? Chegou a uma decisão pessoal e solicitou que o Conselho Supremo de Guerra, todos os ministros e os oficiais imperiais de alta patente se reunissem em sua Casamata à meia – noite daquele dia. Uma vez reunidos na Casamata imperial, ao seu redor, o Imperador anunciou, sem mais cerimônias, que o Japão aceitava as condições de Potsdam. Os ouvintes ficaram assombrados como se um grou de pedra de 2 mil anos tivesse repentinamente falado! Os ouvintes, na maioria, soluçaram e alguns choraram abertamente. Contrariando qualquer tradição, o imperador disse que ele mesmo anunciaria a decisão à nação.

Quando Takashi e o restante do Japão foram avisados para que ficassem com o rádio ligado ao meio – dia em ponto do dia 15 de agosto , todos presumiam que ouviriam uma exortação para repelir os americanos, assim como os antepassados repeliram a hora de mongóis no século XIII .Toda população ficou estupefata quando, pelo rádio, ouviu a voz aguda do trono do Crisântemo, transmitindo que ” deveriam suportar o insuportável e sofrer o insofrível.” Isso significava rendição incondicional . Em todo o Japão , o povo rompeu- se em lágrimas, muitas pessoas ajoelharam- se, em pesar, a cabeça encostada no chão , pondo- se na direção de Tóquio, onde estava o Imperador. Takashi relatou sobre o choque que fora para ele a “rendição incondicional”. “Nosso Japão, cujo símbolo é o Monte Fuji, que se ergue atravessando as nuvens, sendo o primeiro monte a ser iluminado pelos raios do sol quando nasce no oriente, nosso Japão estava morto! Nossa raça estava se lançando em um precipício!”

Corriam rumores atordoantes: Os americanos matariam todos os homens japoneses e violentariam as mulheres para criar uma raça bastarda! Takashi e sua equipe não sabiam o que poderia acontecer, porém temiam que uma rendição incondicional indicasse o esfacelamento do Japão e o fim de sua cultura. O país se tornaria uma colônia indefesa como a Índia e a Coréia. Perderam todo o ânimo de prosseguir sua missão de misericórdia, permanecendo o restante do dia sentados em casa, apáticos, sem tocar em comida naquela noite.

(Hino a Nagasaki, Paul Glynn. Tradução: Pe. Lino Stahl, SJ. Edições Loyola. Pág. 168, 169,170. )

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