A INQUISIÇÃO PROTESTANTE: uma perspectiva histórica Por Rogério Fernandes da Silva

A INQUISIÇÃO PROTESTANTE:
uma perspectiva histórica
Por Rogério Fernandes da Silva

Esse artigo pretende descrever o que foi a “Inquisição Protestante”, apesar do nome, não é o certo usar o termo Inquisição já que a ela é uma instituição católica, mas podemos falar sim de uma prática inquisitorial, visto que a Inquisição católica era o modelo. Vemos muita dissimulação e erro sendo difundido nos meios virtuais. Obras desonestas são toda hora usadas como se fosse o máximo da boa historiografia. Afirmando isso, nós vemos sendo utilizadas algumas obras p com caráter muito duvidoso. Uma delas é A Inquisição (The Inquisition), de Michael Baigent e Richard Leigh , conta de forma desatualizada a história desta instituição. A obra foi mal recebida na época de seu lançamento, e procurando referências acadêmicas encontrei isso, uma citação da resenha crítica de Bernard Hamilton, professor de História, hoje emérito, da University of Nottingham:

The Inquisition, de Michael Baigent e Richard Leigh, apresenta uma desatualizada e enganosa história sobre a instituição. Dois terços do livro são sobre a história da Inquisição, desde sua tentativa de formação pelo Papa Gregório IX em 1233 para combater a heresia cátara, até o seu abandono gradual por estados católicos no início do século XIX. Esta obra contém muitas imprecisões e ignora praticamente toda a extensa pesquisa moderna neste campo; os livros em que se baseia foram escritos na maior parte no século XIX, como as notas de rodapé e a bibliografia deixam claro.

Como vemos a obra não deveria ser utilizada por pessoas que se dizem criticas das fontes. Entretanto, é possível vê-la sendo citada exaustivamente. Isso só prova o caráter provinciano da apologética da molecada sectária. Entenda que com esse pequeno artigo não estou dizendo que não houve a Inquisição Católica, mas é preciso ser atento as fontes primárias e secundárias. Não é citar qualquer porcaria como verdade histórica. Ao voltar ao assunto do título deste artigo é preciso estabelecer que os tribunais protestantes se moldaram na Inquisição católica e, segundo alguns historiadores, foram mais violentos (CAMMILLERI, 2018, p. 112). A ideia de tolerância não passava na cabeça de católicos muito menos nas dos protestantes (Idem, p. 111). Alguns abobogetas, digo apologetas de Internet acreditam por o termo inquisição protestante ser impreciso, por si só já o desqualifica e basta isso para desmentir a prática inquisitorial dentro do seu meio. Sim houve essa prática no meio reformador, Henry Kamen destaca, em contraponto aos julgamentos católicos, que a repressão foi mais forte em países protestantes “seculares”. Kamen usa a palavra “secular” como sinônimo de “civil.” E civil não deve ser confundido com laicidade, visto que na época ela era embrionária. Devemos deixar claro, que mesmo que o principio de laicidade existisse na época, o que não é propriamente verídico, a sociedade civil como todo não era. Os Estados assumiram para si igrejas nacionais, os tribunais que surgiram eram, portanto, “civis”. Porém, isso não significa que estavam longe da influência do poder religioso. E executar alguém por bruxaria não era uma atitude nada laica. Imperava o aspecto cultural da sociedade, permeada de religiosidade.
Mas vamos à prática inquisitorial dentro do protestantismo, Ronildo Brittes, que é um teólogo protestante, escreveu um pequeno livro cujo nome é Inquisição Protestante, em seu subtítulo ele parafraseia a máxima de Lutero: o justo pela sua fé matará. Com este título e subtítulo já de início se percebe o valor extremamente crítico da obra ao protestantismo inicial. O termo inicial pode-se dizer que é Ronildo concentra sua crítica a Martin Lutero, mais especificamente a posição ambígua que Lutero teve em relação à revolta de Thomas Müntzer.

LUTERO

Ronildo descreve que Lutero tinha uma posição ambígua em relação aos revoltosos camponeses anabatistas. O termo anabatistas vinha da prática dos rebeldes em rebatizar os indivíduos adultos, pois não acreditavam no batismo infantil. Os anabatistas tinham uma visão de separação da Igreja e do Estado muito mais radical que a luterana, talvez motivado por certa escatologia milenarista e desconfiança de classe social (BRITTES, 2015, p. 75). A reforma espiritual era vista também como uma reforma social. Com o advento do mercantilismo os revoltosos estavam na penúria, os camponeses acabaram não se adaptando ao novo modelo econômico, acostumados ao que estavam ao feudalismo. No principio Lutero tenta ser mediador, uma posição hora a favor dos camponeses, hora a favor dos príncipes alemães. Não se dispõe a tomar partido (Idem, p.77). Thomas Müntzer toma o poder da insurreição camponesa em fevereiro de 1525 e suas reivindicações são apresentadas num documento chamado Doze Artigos. A partir daí Lutero passa a legitimar atrocidades contra os camponeses (Idem, p. 78), o texto “Contra as hordas salteadoras e assassinas dos camponeses” é uma consequência final disto.
Lutero perde todo sentido de tolerância e diz:

Por isso, nesse caso, quem puder deve destroçar, estrangular e apunhalar às escondidas ou em público e deve lembrar-se de que nada mais peçonhento, mais nocivo e mais diabólico pode existir que um homem subversivo. É como quando se precisa matar um cachorro raivoso: se tu não eliminas tal homem, ele abre a ti e, contigo, todo um país.

Brittes ressalta que nesse momento que cresceu o antagonismo entre Lutero e Müntzer, pois os proto-revolucionários começam a destacar que o reformador alemão era apenas mais uma face da velha elite eclesiástica que lutaram tanto para se separar. Para eles os sacerdotes opositores não cumpriam seu papel de difusores do Evangelho. Lutero contra-ataca enumerando os pecados dos revoltosos, que seriam quebra da fidelidade a autoridade secular, promoção do tumulto, saques a conventos e a má utilização do Evangelho para ocultar seus crimes. (Idem, p. 84). No final, os camponeses foram dizimados pelo poderio militar dos príncipes alemães, com total apoio de Lutero, cerca de cem mil foram mortos (Idem, p.86).
Finalizando, no capítulo sobre a figura de Lutero, Ronildo Brittes ainda continua sua explanação sobre a Igreja Presbiteriana no Brasil e sua adesão ao golpe de 1964, e diz que era visto nela as mesmas práticas inquisitoriais dos antigos protestantes, mas sem mortes condenando vozes dissidentes ao ostracismo e perseguição, mas isso é outra história que não convêm aqui.

CALVINO

Outro reformador importante foi João Calvino e a historiografia é muito crítica a sua atuação. Sobre Calvino, o historiador Marx Botelho escreve

Nos cinco primeiros anos de dominação calvinista, treze pessoas foram enforcadas; dez foram decapitadas; trinta e cinco queimadas vivas e setenta e seis exiladas (ZWEIG, 1956). As excomunhões, por sua vez, subiram de oitenta no quadriênio 1551- 1554 para cerca de trezentas só no ano de 1559 […] (BOTELHO, 2013, p.17).

O historiador e professor da Universidade Federal de Viçosa, Angelo Adriano Faria de Assis esclarece sobre Calvino:

A população era proibida de cultivar certos hábitos, como jogar, dançar e representar. Alguns pensadores foram perseguidos, como o médico e humanista espanhol Miguel Servet Griza. Ele foi preso, condenado e queimado em efígie – representado por um boneco. Fugiu em direção à Itália, mas acabou preso em Genebra, onde foi processado pelo Conselho presidido por Calvino e queimado por causa de proposições vistas como antibíblicas e heréticas, entre outras culpas (ASSIS, 2011, p.26).

Continuando o que diz Assis nos dá uma descrição sobre a perseguição na Inglaterra protestante

Na Inglaterra, uma verdadeira caça às bruxas levou à morte centenas de mulheres acusadas de feitiçaria. A experiência persecutória inglesa foi ainda “exportada” para as colônias na América do Norte, como no famoso episódio das “bruxas de Salem”, ocorrido em Massachusetts, em fins do século XVII, em que várias adolescentes foram mortas, acusadas de promover reuniões em torno de uma fogueira nas quais, supostamente, invocavam espíritos.

Sobre a caça as bruxas o historiador francês Jean Delumeau em seu livro a História do Medo no Ocidente a seguinte quadro, onde concluiu que as áreas da Europa Central e Norte houve uma epidemia de caça as bruxas (DELUMEAU, 2009, p.529). A imagem abaixo é retirada do livro do historiador, há um resultado dos processos contra feitiçarias com execuções:

Imagem 01 – Processos de execuções de acusados de bruxarias, vale ressaltar que há áreas católicas e protestantes no quadro. p. 529.

Segundo Delumeau, os processos contra a feitiçaria são influenciados pela cronologia, geografia e sociologia da repressão. Neste caso as regiões afetadas peles guerras religiosas é o caso. As regiões limites entre católicos e protestantes, como no caso do bispado da Basiléia, por exemplo, na parte protestante houve várias vagas de repressão, enquanto no lado católico a perseguição abrandou. Parece que loucura persecutória se deu na França, única exceção católica (nota minha), e de resto nos Países-Baixos, na Alemanha e na Escócia foram maiores no século XVII (Idem, p. 540). Delumeau destaca que a Escócia presbiteriana puniu sem piedade e que a Inquisição Espanhola foi “surpreendentemente moderada” em suas condenações (Idem, p 542). O historiador ressalta que a perseguição a feitiçaria atingiu tanto áreas católicas quanto protestantes. Terminando a porcentagem (Idem, p. 546) de condenações a feitiçaria em Genebra foi de 27,7% (1537-1662) por processos; em Zurique, Soluene e Lucerna 44% (1533-1720); Luxemburgo 64% (1606-50); e no Norte da França 49% (1371-1783).

Imagem 02 – Representação de um caçador de bruxas, gravura em chapa de cobre. Autoria de Hendrik Bra, primeira metade do século XVII.

Até aqui falei de feitiçaria, vamos agora à perseguição aos católicos:

Mas a intolerância foi dos dois lados: às execuções exigidas Maria a sanguinária responderam em número sensivelmente igual aquelas que foram ordenada por Isabel. Um pouco por tolda a parte, na Europa do século XVI, estouraram fúrias iconoclastas: em Wittemberg em 1522, na Provença e no Delfinado em 1560, nos Países-Baixos em 1566. Nesta última região, em 1572, os Mendigos (Gueux) enterraram monges com vida, deixando contudo as cabeças deles emergir da sepultura; delas serviam como balizas para um jogo sinistro de bola. Na Inglaterra de Elizabeth se eventaram mártires católicos vivos para lhes arrancaram o coração e as vísceras; uma mulher que escondera um padre foi esmagadas por pranchas que recobriram enormes pedras. Em Vivarais, por volta de 1559, os protestantes encerram Católicos em campanários e deixaram-nos morrer à fome; colocaram crianças em espetos e assaram-nas à vista dos pais. […] (DELUMEAU, 1989, p.163).

Os luteranos e calvinistas não eram muito tolerantes com a dissidência protestante “Genebra fez queimar Servet, Melanchton, Teodoro de Beza e as igrejas helvéticas em conjunto aprovaram a condenação à morte solicitada por Calvino (Idem, p.163)”. Segundo o historiador francês, o martiriológico dos Países-Baixos conta 877 vítimas, sendo 617 anabatistas mortos por luteranos e calvinistas. Delumeau ainda conta um caso, Calvino ao saber, que um burguês rico havia morrido em 1559 não era outro senão um anabatista chamado David Joris, que se ocultou com identidade falsa, o Magistrado ordenou sua exumação e fez uma execução póstuma, claramente simbólica, sem antes prender família do defunto (Idem, p.164).

CONCLUSÃO

Esse artigo dá muito valor à produção historiográfica de Jean Delumeau, mesmo porque ele um dos maiores especialistas em Historia Moderna ainda vivo. Entretanto, outros autores contrabalançam o texto apresentado. Como historiador profissional Delumeau é isento e tentar mostrar isso nos seus textos, a minha opção aqui é um recorte para apresentar a parte que é pouco conhecida por nós brasileiros. Isso porque quase não temos produção (mais acadêmica e menos teologal) sobre as guerras religiosas em português, e as que existem são difíceis de achar.
A perspectiva aqui não é maximizar os pecados do protestantismo e miminizar os do catolicismo, mas apresentar fatos. Porém, fatos não falam por si mesmo. Contudo, apresentar um texto com várias motivações acadêmicas na bibliografia é tentar apresentar a história de uma maneira que a entendamos, e não ficar atrás de textos obscuros de haters que até procuram Sola Scriptura onde historicamente não existiu, caindo no anacronismo. Possamos então superar os problemas do passado e caminhamos juntos e não andar em círculos, sem desconfianças e sem proselitismos.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ASSIS, Angelo. A. F. À moda protestante. Assim como os católicos, os protestantes perseguiram seus fiéis? Revista de História, Rio de Janeiro, out., p. 26 – 26, 2011.

BOTELHO, Marx. A Inquisição protestante. Pergaminho, Patos de Minas, dez., p.16–23, 2013.

BRITTES, Ronildo. Inquisição Protestante: o justo pela sua fé matará. São Paulo: Editora Reflexão, 2015.

CAMMILLERI, Rino. A verdadeira história da Inquisição. Campinas, CEDET, 2018.

DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. 1300-1880: Uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

___. Nascimento e afirmação da Reforma. São Paulo: Pioneira, 1989.

KAMEN, Henry. A Inquisição na Espanha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

3 comentários em “A INQUISIÇÃO PROTESTANTE: uma perspectiva histórica Por Rogério Fernandes da Silva

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    1. Não é lenda, está nos livros, o nome Inquisição não é muito correto, pois o que os protestantes fizeram foram um julgamento sem defesa, ao contrário da Inquisição Católica que fazia o que o nome diz “inquérito”, havia uma investigação, algumas duravam anos, até 8 anos, enquanto a protestante era feita em horas, as vezes em alguns dias.

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  1. Prezados,

    VOU FAZER UMA PERGUNTA AOS CATÓLICOS APOLOGISTAS:

    O QUE FOI PIOR, A INQUISIÇÃO CATÓLICA ROMANA QUE INCLUSIVE ESTÁ NOS LIVROS DE HISTÓRIA GERAL E HISTÓRIA DA IGREJA OU ESSA ”SUPOSTA INQUISIÇÃO PROTESTANTE”.

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