•O DESENVOLVIMENTO DA DOUTRINA DA VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA • (Parte III)

O DESENVOLVIMENTO DA DOUTRINA DA VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA
• (Parte III)
• Para finalizar essa sequência de três textos sobre o papel da virgindade perpétua da Virgem Maria, vamos começar pelo evangelho segundo Lucas, que narra logo nos primeiros capítulos: a anunciação do nascimento de Jesus (pintada por Jan Van Eyck em “A Anunciação” 1434-1436, da qual a figura de Gabriel está reproduzida em diversos outros artistas); a visitação de Maria a sua prima Isabel (mãe de João Batista), incluindo o magnificat; a chegada dos pastores (Mateus é o único a relatar a presença dos magos); e a apresentação do Menino Jesus ao templo, com o Nunc Dimittis de Simeão: “Agora, Senhor, despede em paz o teu servo”.
•Tão dominante era a personagem de Maria na narrativa do nascimento de Jesus Cristo escrita por Lucas, que alguns leitores da antiguidade chegaram a se perguntar de onde vinham todos aqueles detalhes, pois não apareciam em outros relatos, o Evangelho de Lucas se inicia com palavras que alguns padres da igreja consideraram uma explicação: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme no-los transmitiram os que desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, a mim pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebestes”(Lc 1, 1- 4). Como era habitual os historiadores estudarem a estrutura e o conteúdo dos Evangelhos, essas palavras introdutórias marcaram Lucas como o historiador dentre os Evangelistas. Ao falar de si mesmo, ele usou a palavra grega parekolouthekoti, significando que fizera pesquisas históricas, mais ou menos como seus colegas historiadores dos dias de hoje. As fontes usadas nessa pesquisa em parte eram escritas e incluíram “os muitos que empreenderam a narração dos fatos que entre nós se cumpriram”, aparentemente envolvendo outros escritores além dos autores nas páginas do novo testamento. Mas as fontes explicitamente abrangiam “testemunhas oculares e ministros da palavra”, pois Lucas não pertencera aos doze discípulos e testemunhas originais e nem mesmo fora discípulo de um deles. Porém, de acordo com a tradição, ele fora aluno e “médico amado” do apóstolo Paulo, que “nascera fora do tempo” e chegara por último ao grupo dos apóstolos. Quando Lucas empreendeu sua pesquisa para narrar a história desde o princípio, como afirma os dois primeiros Capítulos de seu evangelho, quem teriam sido suas “testemunhas oculares de ministros da palavra”? A quem ele teria se dirigido para conhecer o que hoje denominamos “a história oral” desses antigos acontecimentos? Nesses capítulos, a exposição da história, escrita da perspectiva da Virgem Maria, parece deixar implícito que ela se constituíra na principal fonte de informações entre as testemunhas originais e os seguidores do Evangelho. Além disso, pelo fato de Lucas ser gentio e tanto em seu evangelho como o Livro dos Atos, empregar um grego mais próximo dos padrões de Atenas que o escrito em qualquer outra passagem do novo testamento — seus textos, Na verdade, não soam como traduções —, essa qualidade não se faz presente nesses capítulos, que sob alguns aspectos, realmente parecem ter sido traduzidos de um original escrito em hebraico (ou aramaico). Esse raciocínio levou os primeiros escritores cristãos a considerarem os capítulos iniciais do Evangelho de Lucas Memórias da Virgem Maria. ponto de vista não recomendável para um estudo crítico-histórico dos Evangelhos. Surgiu até uma tradição de que Lucas teria sido o primeiro pintor de ícones cristãos, e o tema de Lucas pintando o ícone da Virgem Maria, tornou-se clássico.

 

• MATER DOLOROSA

• O credo dos Apóstolos e o credo Niceno, em suas resumidas confissões sobre Jesus como o filho de Deus, passamos diretamente do nascimento de Cristo, da Virgem Maria, ao seu sofrimento sob Pôncio Pilatos, sem ao menos mencionar seus ensinamentos, seus milagres e seus apóstolos. Ambos, a exemplo dos Evangelhos, enfatizam seu sofrimento e Crucificação (e até ampliavam esta ênfase). Os Evangelhos, cada qual a sua maneira, passam de incidentes individuais e rápidos lampejos da narrativa até a descrição extremamente bem detalhada da história da paixão e morte de Cristo e seu desenvolvimento diário, muitas vezes acompanhando os acontecimentos como se desenrolam de hora em hora. Sob a perspectiva da história posterior da interpretação desses textos, as diferenças dos relatos da paixão são bem ilustradas pelas “sete palavras proferidas na cruz”.

 
• Com respeito a essas sete palavras, foi João quem forneceu a narrativa de maior relevância direta para nós “mulher, eis teu filho, eis tua mãe!”. Do ponto de vista da pregação, ou mesmo teologicamente, a frase “Eis teu o filho” poderia facilmente ser interpretada como a entrega aos cuidados maternais de Maria não apenas do “discípulo que Jesus amava” — “identificado pela tradição e pelos atuais estudiosos como João, o evangelista”, mas de todos os discípulos que Jesus Amou em todas as fases da história e por extensão, de toda a igreja do passado e do presente. como Orígenes de Alexandria já afirmava no primeiro terço do século III, “ninguém poderia aprender o significado do Evangelho de João, exceto se tivesse reclinado sua cabeça no Peito de Jesus e também dele recebido Maria como mãe, mas esse não é o caso de todos, pois aquele que é perfeito e não mais vive em si mesmo permite que Cristo viva em si; e se Cristo nele habita, então foi dito dele a Maria: Eis o teu filho Cristo”. Essa cena também inflamou a imaginação Cristã do modo mais pungente, pois como na cena da Anunciação no início da vida de Cristo, ela parecia abrir uma janela para a vida interior da Virgem. Do início da vida de Cristo também é a profecia que seria considerada como a causa de tanta exploração sobre o assunto da subjetividade da Virgem, revelação cumprida quando ela se encontrou aos Pés da Cruz, como Mater Dei: “E a ti, uma espada traspassará tua alma! (Lucas 235)”.

 
• MODELO DE FÉ NO MUNDO DE DEUS
• Quando a Epístola aos Hebreus, ao citar os santos de toda a história de Israel, enumera as transformações sofridas por todos eles, “dos quais o mundo não era Digno”, cada nome vem precedido das palavras: “pela fé”. Mas antes dessas citações o apóstolo nos dá a seguinte definição: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem” e quando na epístola aos Romanos ele afirma que “a fé vem pela pregação [akoe], e o ouvir e a pregação é pela palavra de Cristo” (Romanos 10,17), iniciando e encerrando a sua mensagem com a identificação da “Fé” com a obediência [hypakoe], sintetizando a conexão entre obediência e fé e entre a Fé e a palavra de Deus, ela é especialmente eloquente ao se referir aos profetas hebreus e aos ensinamentos de Jesus. As divergências entre as várias declarações, tão importantes para a reforma protestante — Como, por exemplo: “O homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” e, na Epístola de Tiago: “Porquanto nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei <> não foi pelas obras que nosso Pai Abraão foi justificado ao oferecer seu filho Isaac sobre o altar? Já vês que a fé concorreu para as suas obras e que pelas obras é que a fé se realizou plenamente” (Romanos 3 28,4:1; Tiago 2,21-23) — foram fatores que frustraram as tentativas posteriores de conciliação, especialmente durante a reforma. Porém, essas diferenças não prejudicam a importância fundamental da fé na mensagem global do novo testamento nem a centralidade da palavra de Deus na doutrina.

 
• Uma figura histórica que desempenhou um papel importante nos livros do novo testamento — Hebreus, romanos e Thiago — Foi Abraão. De acordo com os três livros, ele é o pai de todos os que creem, como afirma a Epístola aos Romanos. Mas, se o leitor pensar em uma mãe de todos os que creem, a primeira pessoa que nos vêm à memória é Maria, assim como Eva, no livro do Gênesis, foi considerada a mãe de todos os viventes. O principal ponto que qualificaria Maria para esse título está em sua resposta o Anjo Gabriel e, por meio do anjo, a Deus, de quem Gabriel era mensageiro: “faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lucas 1,38). Sem mencionar explicitamente a palavra “fé”, suas palavras identificaram a fé com a obediência, e a descrição de sua obediência à palavra de Deus fez dela um modelo de fé. De fato, começando com Maria e recuando na história de Israel, podemos distinguir uma lista de mulheres santas — Sara, Ester, Rute e muitas outras —, das quais ela é um exemplar, do mesmo modo, seria possível começar com Maria e reproduzir uma relação semelhante das mulheres santas da era do novo testamento. Pela ênfase dada à fé, essa lista podemos traçar com as nossas primeiras Mártires, entre elas podemos citar algumas dessas mulheres começando com um dos mais célebres martírios, o de Santa Cecília no ano 178, mulher que pertencia a uma das mais nobres e ricas famílias de Roma, Cecília fora prometida em casamento a Valeriano, mas Cecília tinha-se prometida a Deus somente. E a atitude e as palavras de Cecília invadem a alma de Valeriano que se converte imediatamente e logo depois seu irmão Tibúrcio. Ela é martirizada após o martírio de seu marido Valeriano e de seu cunhado Tibúrcio, teve sua cabeça decepada, em 1599 foi descoberto debaixo de uma placa assinalada com o seu nome, de um corpo de mulher decapitada (em 1905, foi descoberto debaixo da igreja de Santa Cecília no Trastevere, de um caldarium e de alguns mármores antigos, um dos quais tem o nome da Santa, parecem confirmar o essencial do relato maravilhoso). E poderíamos falar de centenas de mulheres que doaram suas vidas para fazer germinar o evangelho, algumas já tive a oportunidade de fornecer os detalhes de suas histórias e Martírios, como Águeda de Catânia, perpétua, felicidade, Santa Filomena, mas ainda há ao longo da história uma multidão de mulheres que amaram o Senhor Jesus Cristo mais do que suas próprias vidas.

 

• MULHER PARA TODAS AS ÉPOCAS
• Santo Inácio de Antioquia nos orienta à partir do final do primeiro século e início do segundo Século: “Fechado os ouvidos a quem vos fale sem confessar que Jesus Cristo, descendente de Davi, nasceu da Virgem Maria”; e na sua Epístola aos Efésios, tem estas palavras profundas: “O Príncipe deste mundo ignora a virgindade de Maria, o seu parto e a morte do Senhor, três mistérios retumbantes, realizados no silêncio de Deus”.

 
• Alguns podem se perguntar se a Igreja Primitiva tinha uma concepção do casamento como um mal, mas temos que verificar à questão do casamento e da vida sexual no contexto histórico da época. O divórcio e o celibato minam os alicerces da família, e a escravidão, pela facilidade com que põe à disposição dos senhores as mulheres, era por toda a parte um agente de desmoralização. A condição normal do cristão é ser casado, São Paulo estabelecera com justeza os princípios do casamento dos fiéis. A Igreja nunca rejeitou o casamento, como sempre condenou os hereges que condenam o casamento: “Mostremos, exclama Tertuliano, mostremos a felicidade do casamento, que a Igreja recebe, que a oblação confirma, que a benção sela, que os anjos reconhecem e que o pai ratifica”. Não foi o próprio Cristo que ordenou aos esposos que fossem “uma só carne” e que nunca se separassem? O divórcio é, pois, inadmissível segundo a visão cristã, e o celibato só é compreensível se tiver em vista uma realização mais alta, uma união mística com a pureza absoluta. A concepção cristã da virgindade liga-se a esse mesmo ideal. Muito antes da aparição do monarquismo, há na Igreja homens e mulheres que renunciam ao casamento para se entregarem a Deus. Era um costume que já fora posto em prática em Israel pelos nazarenos e pelos essênios. No cristianismo Primitivo, as mulheres virgens são mais numerosas que os homens, porque aqueles que queriam consagrar a sua existência ao Senhor, faziam-nos Sacerdotes. Desde os primeiros tempos, como por exemplo em Antioquia na época de Santo Inácio, as virgens formam um grupo à parte, muito venerado na Igreja. São Cipriano denominá-las “a coroa da Igreja”, e Orígenes exclamara: “um corpo imaculado, eis a hóstia viva agradável ao Senhor!”. Fala-se da virgindade como um verdadeiro substituto do martírio, abundante em graças, e quando o concílio hispânico de Elvira, por volta do ano 300, declara excomungadas as virgens cristãs que tenham violado os seus votos, não faz senão homologar um uso corrente. É nessa concepção da virgindade, virtude superior e união com Cristo, que devemos ver a origem do celibato dos sacerdotes, que os Apóstolos e os primeiros discípulos não tinham posto em prática e que só veio a se estabelecer lentamente, a Igreja vê nessas virtudes a perfeição da imitação de Cristo. E Maria como um ser totalmente humano é um grande modelo de virtude que será seguida por milhões de mulheres através dos séculos.

 
• Vimos uma pequena lista que evidentemente, deve constar todas as mulheres que ao longo dos séculos fizeram da Virgem Maria um objeto de devoção e um modelo de vida dedicada a Deus. A seguinte predição foi feita por Maria: “Sim, doravante as gerações todas me chamarão Bem-Aventurada” (Lucas 1, 48). Esta é uma das poucas passagens do novo testamento que parecem prever um longo período de muitas gerações, a exemplo da profecia de Cristo: “Em verdade vos digo que, onde quer que venha a ser proclamado o Evangelho, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória” (Mateus 26 13).

 
• A alegria com a qual as sucessivas gerações lhe atribuíram o título de “Santa” não variou muito através dos séculos, em todas as épocas, fica evidente o êxito e a importância alcançada pela bem-aventurança de Maria, tanto entre os homens quanto entre as mulheres, nas mais variadas situações. E na verdade, isso realmente fez dela uma mulher para todas as Épocas.

Bibliografia: PELIKAN, Jaroslav, Maria através dos séculos/ seu papel na História da cultura: São Paulo, companhia das Letras, 200

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: