O CONTEXTO PRIMÁRIO DE MATEUS 18,20

“Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mateus 18,20).

O verso não diz que qualquer encontro de dois ou três pessoas representa a Igreja na sua catolicidade.

O versículo também não proclama que dois ou três pessoas têm a autoridade de proclamar ou definir uma doutrina nova para o seguimento da Igreja.

O autor sagrado não quer ensinar que dois ou três pessoas têm o poder de mudar um ensino oficial da Igreja, nascido pelo testemunho da Tradição Apostólica, das Escrituras e do Magistério.

O versículo está inserido no contexto da disciplina ou correção fraterna no seio do Corpo/Organismo de Cristo Jesus. Ou seja, na Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade:

“Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu.” (Mateus, 18,15-18).

Segundo a Bíblia de Jerusalém, “A expressão “CONTRA TI”, acrescentada por muitos documentos, provavelmente deve ser rejeitada. Aqui se trata de uma falta grave pública, não necessariamente cometida contra aquele que procura corrigi-la. O caso do verso 21 é diferente.” Assim, em alguns escritos encontramos a referida expressão. Em outros não.

“Dizei-o à Igreja”: “A “ekklesía”, isto é, a assembleia dos irmãos”; dos membros do Corpo de Cristo; das pedras vivas do Edifício visível e espiritual de Jesus.

“Trata-o como o gentio ou o publicano”: “pessoas “impuras”, com as quais os judeus piedosos não podiam ter relações (cf. Mateus 5,46+ e 9,10+). Ver a excomunhão de 1 Coríntios 5,11+.” O pecador deveria ser excluído da comunidade pelo menos por algum tempo. A misericórdia deve ser exercida em caso de arrependimento (cf. 1 Coríntios 5,1-5; 2 Coríntios 2,5-11).

“Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu”:

“Extensão aos ministros da Igreja (aos quais desde o princípio todo este discurso se dirige) de um dos poderes conferidos a Pedro” em comunhão com Cristo, bem como aos demais apóstolos em comunhão com Pedro. (Figura do matrimônio, onde o marido é a cabeça da mulher e Cristo é o cabeça da Igreja (cf. Efésios 5, 22-24). O esposo é o cabeça da mulher porque vislumbra-se que o cabeça do marido é Cristo Jesus. Há entre Jesus e sua Igreja uma união esponsal eterna. A Cefas se une outros discípulos/apóstolos (cf. Mateus 16,19) em substituição às antigas autoridades dos judeus (cf. Deuteronômio 17,8-12), àqueles que se sentavam na Cadeira de Moisés (cf. Mateus 23,2-3).

Ligar e desligar; proibir e permitir; atar e desatar ou soltar; perdoar e reter pecados (cf. Mateus 16,18; João 20,23).

Portanto, Mateus 18,20 está inserido no ensino de Jesus Cristo que dá as diretrizes de como os discípulos devem lidar, conduzir e resolver as disputas, divergências e faltas, as graves inclusive, no seio do Povo de Deus. Trata-se dos julgamentos legais.

A autoridade exercida pelas lideranças da Igreja (os verdadeiros escolhidos e comissionados por Deus) deriva da própria autoridade de Jesus Cristo recebida do Pai:

“Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou.” (Lucas 10,16).

Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mateus 28,18-20).

“DOIS OU TRÊS” traduzem as testemunhas da falta em análise, conforme exigido pela própria Lei de Moisés, pois era o necessário para estabelecer um fato numa corte entre os judeus:

“Uma só testemunha não é suficiente para condenar uma pessoa de algum crime ou delito. Qualquer acusação necessita ser confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas idôneas.” (Deuteronômio 19,15).

Duas ou três pessoas, mais o próprio Jesus de Nazaré, também pode significar a menor célula da Igreja. É necessário pelo menos duas pessoas em Cristo para formar uma comunidade local… Ninguém é igreja sozinho. Somos membros de um Corpo, o Corpo de Cristo. Lembrando-se, porém, que o texto não fala de oração, mas de julgamento, de uma análise de uma falta.

A expressão “DOIS OU TRÊS” é encontrada em Mateus 18,16:

“Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas.”

bem como em Mateus 18,19-20:

“Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. 20.Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”

Contudo o assunto continua sendo aquele iniciado em Mateus 18,15:

“Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão.”

Ou seja, como o Evangelho deve ser bem vivido no interior de uma comunidade cristã.

Assim, se dois de vós (lideranças estabelecidas em Jesus Cristo) estiverem de acordo sobre a falta pública, a decisão será originada no Pai celeste. A decisão contará com presença espiritual de Jesus (cf. Mateus 18,18-20).

Sim, é verdade que onde dois ou três estiverem reunidos em oração na autoridade, no caráter de Cristo, o próprio Jesus se faz presente. Isto é uma pequena comunidade/igreja da Igreja. Tal assertiva é uma interpretação secundária do texto, não a mensagem central da perícope.

Destarte, Mateus 18,20 não embasa a pretensão dos atuais “desigrejados” nem tampouco o ensino de que qualquer grupo pode fundar uma nova igreja desligada da Igreja. No verso em comento, reafirmo, Jesus fala de autoridade, fala daqueles que tem o dom/poder recebido de Deus de governar/julgar uma comunidade cristã (cf. Mateus 18,15-17). Os verdadeiros comissionados do Eterno tem o discernimento divino e a autoridade para tomar decisões onde os mandamentos de Jesus foram desrespeitados.

Que fique bem claro: o contexto primário de Mateus 18,20 é como resolver um ato de indisciplina no seio do Igreja:

“Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja.” (Mateus 18,16-17).

Quando a falta é levada para as autoridades da Igreja, elas seguem um caminho (um rito), tomam uma decisão não pela “carne e sangue” (luzes da razão humana), mas por iluminação divina, já que a autoridade de Deus e a sabedoria do Espírito Santo está por trás da decisão ou sentença proferida pelos homens de Javé.

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