A BÍBLIA E OS FANTASMAS

• A BÍBLIA E OS FANTASMAS

• A ausência quase completa de fantasmas na Bíblia deve ter favorecido também a vontade de rejeição dos fantasmas pela cultura Cristã. Várias passagens dos Evangelhos manifesto mesmo uma grande reticência com relação ao culto dos mortos: “deixa os mortos sepultar os mortos”, diz Jesus (Mateus 8, 21), ou ainda: “Deus não é Deus dos mortos mas dos vivos” (Mateus 22,32). Por certo, numerosos mortos são ressuscitados por Jesus (e, mais tarde, por alguns de seus discípulos), mas tal milagre — o mais notório possível segundo as classificações posteriores dos hagiógrafos medievais — não é assimilável ao retorno de um fantasma. ele preferiu a própria ressurreição do Cristo três dias depois de sua paixão. Antecipa também a ressurreição universal dois mortos no fim dos tempos.

• Quando da transfiguração, Jesus aparece em Glória, cercado de Moisés e Elias. Além do fato de que estes dois últimos não são personagens ordinários, mas — pelo menos — são entendidos como os Santos, a tradição mostrará que não estejam mortos e, como era também o caso de Enoque, que tenham sido levados, vivos, do paraíso terrestre…. Várias passagens dos evangelhos podem ser interpretadas como recusas explícitas da crença nos fantasmas. Quando Jesus caminha sobre as águas, seus discípulos ficam com medo e crêem na aparição de um fantasma, e Jesus tende tranquilizá-los (Mateus 14,25; Marcos 6,49). Sem dúvida, é pela mesma razão que Jesus diz as santas mulheres que não tenham medo quando ele lhes aparece depois de sua ressurreição (Mateus 28, 10). Não é menos significativo que os apóstolos, prevenidos por elas, não creio nelas e suspeitem que tenham sonhado (Lucas 24, 11). Quando Jesus aparece emfim aos discípulos, eles são tomados que estupor e de pavor e creem ver um espirito. Jesus então lhe recomenda apalpá-lo, pois um espírito não tem carne nem ossos, eu comi com eles para listar uma prova suplementar de que está bem vivo (Lucas 34,37). A esse episódio faz eco a cena da libertação miraculosa de Pedro nos Atos dos apóstolos (12,15): os discípulos, não querendo acreditar na criada Rode, que lhes diz que Pedro está diante da porta, tratan-na de louca e afirmam que se trata de seu anjo. No entanto, nessa matéria, o texto dos Evangelhos que terá mais sucesso e parecerá negar toda possibilidade, para os mortos, de aparecer aos vivos, a parábola de Lázaro e do mal Rico (Lucas 16, 27- 31). Abraão não apenas diz ao mau rico que não há, no além, passagem possível entre a morada dos bem-aventurados (o seio de Abraão) e a dos condenados, como também se recusa a autorizar Lázaro a voltar à terra para prevenir os irmãos do mau rico contra os tormentos que os esperam no Além. É bem assim que Santo Agostinho interpretará a parábola: está excluído que os mortos voltam à Terra.

• o único verdadeiro relato bíblico de fantasmas pertence ao antigo testamento. Ora, esse relato está fortemente marcado de maneira negativa, já que se trata de um relato de necromancia: é o episódio da pitonisa de En Dor, longamente exsposto no livro dos Reis (1Reis, 28) e retomado com nuances nas crônicas (10,13-4) e no Eclesiástico (46,23). esse episódio deu motivo a inúmeros comentários desde os primeiros séculos da igreja e mesmo, a partir do século 12 a uma economia relativamente rica.

• o texto bíblico descreve um ato de necromancia realizado clandestinamente pela feiticeira em proveito do rei Saul, que, não obstante, proibira tais práticas. o rei dirige-se a essa mulher porque se sabe abandonado por Deus em razão de seus crimes e quer conhecer o desfecho da batalha que trabalhar no dia seguinte com os filisteus. O procedimento de invocação do morto não é descrito, mas o texto bíblico esclarece que apenas a pitonisa de Samuel e o descreve a Saul como um velho que sobe, envolto em um manto. Depois Saul e Samuel tem um longo diálogo, ao fim do qual o primeiro recebe o anúncio de sua morte no dia seguinte.

• Desde os pais gregos e latinos (notadamente Santo Agostinho) até os teologos escolásticos, a exegese esforçou-se por compreender a natureza dessa aparição. A diversidade das interpretações é extrema: o morto ressuscitou? Foi o espírito de Samuel que se mostrou? A feiticeira enganou o rei por algum embuste? Ou então o diabo suscitou um fantasma sob os traços de Samuel? Ou, ainda, o próprio Satanás tomou a aparência deste último? No século 12, o teólogo parisiense Pierre le majeur (1169) resume bem todas essas hipóteses: “a respeito dessa evocação, alguns dizem que o espírito maligno apareceu sobre aparência de Samuel ou então que foi sua imagem fantástica (Isto é, suscitada pelo diabo) que apareceu ali, a qual foi nomeada Samuel. Outros dizem que, recoberto de um corpo, que apareceu; mas, para outros, foi um corpo ressuscitado e que recebeu a vida de uma espírito, enquanto a alma de Samuel permanecer no lugar de seu repouso. Nessa época, Por conseguinte, todas as soluções parecem possíveis. Dois séculos mais tarde prevalece, ao contrário, a interpretação diabólica, mas ela se afasta então da figura de Samuel para interessar-se cada vez mais exclusivamente pela feiticeira e por Satã.

• Considerada em uma longuíssima duração (do século 12 ao século 17), a iconografia correspondente traduz bem essa evolução: é em uma miniatura da Bíblia historial de Guyart des Moulins, no primeiro quarto do século 15, que se vê pela primeira vez diabo entrar em cena, como para presidir o diálogo da pitonisa e do mau rei Saul, enquanto Samuel se mantém afastado. Essa iconografia tende a confunde-se desde a primeira metade do século 16 (em um quadro de Jacob Cornelisz em Amsterdã, 1526) com a do Sabá das feiticeiras.
• Antes dessa época, os modos de figuração de Samuel apresentam maior diversidade.

• agora o fantasma é representado à maneira de um ressuscitado Samuel mantém os olhos abertos, mas seu rosto Moreno escuro contrasta com a pele branca da pitonisa e do rei; seu corpo está inteiramente atado com faixas que lhe dão a aparência de uma múmia, e ele se ergue em seu sepulcro. Com toda a evidência, essa representação tira seus traços da iconografia convencional da ressurreição de Lázaro pelo Cristo. Mesmo o rei que esconde o rosto em seu manto para não ser reconhecido pela pitonisa lembra o gesto dos companheiros do Cristo que tapam o nariz para não sentir o mau cheiro do cadáver de Lázaro.

• Ora o fantasma é representado sob os traços e com as vestes de um homem vivo. Apenas a leitura do texto pode fazer compreender que se trata de um morto. Essa iconografia é tão antiga quanto a precedente, pois encontra-se em um manuscrito do fim do século 12 do comentário dos salmos de Pierre Lombard. ela prossegue a partir do fim do século 13 nas ilustrações da Bíblia historial.

• Ora Samuel aparece como um morto-vivo em movimento, completamente nu, apenas recobertos por uma mortalha que flutua sobre sua cabeça e seus ombros.

• a mortalha revela por transparência o corpo a que adere. Neste último caso, a imagem medieval anuncia a imagem moderna do espectro. mas essa aparência de espectro provém unicamente da natureza da vestimenta, pois, se rosto do morto parece de uma grande palidez, o mesmo acontece com os rostos brancos das outras personagens.

• A iconografia  desse episódio bíblico hesita então entre várias fórmulas, mas todas dão ao morto em corpo pleno, a integridade da carne o mostram vestido pelo menos de sua mortalha, senão com o traje que supostamente usara em vida. Seria preciso comparar essas imagens com as que ilustram, nas mesmas épocas, relatos de aparição de mortos ordinários. Por enquanto, retenhamos apenas na possibilidade, pelo menos em um tipo de imagens, ver uma conotação negativa e mesmo diabólica da invocação de Samuel pela pitonisa de En Dor. esse tipo de imagens está de acordo com os julgamentos desfavoráveis que, na tradição agostiniana, ligavam-se de maneira mais geral à questão dos fantasmas.

• SCHMITT, Jean-Claude, os vivos e os mortos na sociedade medieval, São Paulo, companhia das Letras, 1999.

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