O MILENARISMO, DE SANTO IRENEU A LACTÂNCIO

• O MILENARISMO, DE SANTO IRENEU A LACTÂNCIO

• Este estudo tem por objetivo levar informações sobre o assunto milenarismo durante todos séculos da Igreja, veremos no decorrer do estudo que, até Marx se valeu do milenarismo, e vemos cada vez mais as seitas pentecostais e neo pentecostais ensinando um tipo de milenarismo errado, que poderá levar muitos ao erro e até na descrença do Evangelho.

• Depois de Justino, o milenarismo Cristão dois primeiros séculos encontra em Irineu (208) um defensor eloquente, que se apresenta como o depositário da tradição vinda de São João e de Papias. foi ele que deu a exposição mais acabada da tipologia milenarismo da semana sabática. Como a história do mundo recapitula a da criação, e como um dia do Senhor equivale a mil anos, é manifesto para Irineu que, ao cabo de seis mil anos e após um período de provações, Deus trará um tempo de repouso e depois que será o sétimo milênio:

• “Ora, depois que o anticristo estiver reduzido o mundo inteiro é um deserto, depois que tiver reinado por 3 anos e 6 meses e ocupado o templo de Jerusalém, o senhor virá do alto do céu, sobre as nuvens, na glória de seu pai, e lançará no poço de fogo o anticristo e seus fiéis; ao mesmo tempo inaugurar a para os justos o tempo do reino, isto é, o repouso, o sétimo dia santificado.”

• A propósito desse tempo de paz e de felicidade, Irineu cita longamente Isaías (11,6-9;65,25): “o lobo pastará com o cordeiro, o leopardo repousará com o cabrito. […] A criança pequena colocará sua mão na toca da víbora. […] O leão e o boi comeram forragem etc”. A seguir ele ataca os que entendem esses trechos de maneira metafórica. A concepção segundo a qual o sétimo milênio recuperará e reconstruirá o tempo anterior ao pecado, e portanto a situação paradisíaca, manda, ao contrário, que esses textos proféticos sejam tomados ao pé da letra:

• “Isso não deixará de acontecer para esses animais por ocasião da ressurreição dos justos […], E quando o mundo tiver sido estabelecido em seu estado primeiro, todos os animais selvagens deverão obedecer ao homem e ser-lhe submissos, e retornar ao primeiro alimento dado por Deus, tal como eram submissos a Adão antes de sua desobediência e como comiam os frutos da terra.”

• Mais adiante em sua profissão milenarismo, Irineu recorda outros versículos de Isaías (13,9;65,21): “virá o dia do Senhor, portador de morte, cheio de furor e de cólera, para reduzir a terra a um deserto de exterminar os pecadores. […] os que tiverem sido deixados se multiplicaram na terra; construíram casas e eles mesmos as habitaram”, e declara:

• “Todas as profecias desse gênero se referem incontestavelmente à ressurreição dos justos, que ocorrerá após a vinda do anticristo e o aniquilamento das nações submetidas à sua autoridade. Então os justos reinarão a terra, crescendo após o aparecimento do Senhor; graças a ele, passarão a perceber a glória do Pai e, nesse reino, terão acesso ao intercâmbio com os santos anjos, bem como a comunhão e a união com as realidades espirituais.”

• Portanto Irineu não vê o reino messiânico como um lugar e um tempo de gozos sensuais. Todavia, não o concebe sem procriação. Assim, a Jerusalém renovada preparará e anunciará a Jerusalém Celeste definitiva, mas não se confundirá com ela. Será estabelecida neste mundo:

• Tais acontecimentos [afirma o Bispo de Lyon] não poderiam situar-se em lugares supracelestes […] Mas se produzirão nos tempos do reino, tendo a terra sido renovada pelo Senhor e Jerusalém reconstruída a imagem de Jerusalém Celeste.

• Citando a seguir o apocalipse, Santo Irineu precisw ainda, para evitar toda confusão entre a Jerusalém messiânica e a da eternidade:

• E depois que essas coisas tiveram corrida na terra que João, o apóstolo do Senhor, diz que descerá à Jerusalém nova, a do alto, a imagem dessa Jerusalém é a que se achava na terra de antes, na qual os justos se exercitavam na incorruptibilidade.

• Enfim, como Justino, Irineu julga heréticos os que não admitem uma série de etapas no caminho dos justos para a vida celeste. O itinerário completo compreende, na realidade, o envio das almas justas ao lugar de espera, paraíso terrestre reencontrado, além da morte, depois a ressurreição corporal desses eleitos para o reino de mil anos, e finalmente, após a ressurreição dos outros mortos e o juízo final, a entrada na Jerusalém Celeste.

• Nada disto deve ser entendido como “alegoria”. Tal é, para o Bispo de Lyon, o ensinamento tradicional. Ora, ele escreveu sua obra contra as heresias no fim da vida, quando já estava na Gália. O milenarismo não era, portanto, apenas uma doutrina correntemente admitida nas comunidades cristãs do oriente. Era também partilhado por cristãos do ocidente, mesmo sendo verdade que ele contava com uma importante comunidade de cristãos vindos da Ásia menor.

• Irineu influenciou o africano Tertuliano (222), o primeiro dos escritores cristãos de língua latina, que horas isso tomou, Por sua conta, espera exasperada dos montanistas. estes travam uma grande importância aos profetas que anunciaram a iminência do retorno de Cristo. Em contra marcião, Tertuliano afirma:”um reino nos está prometido na terra e antes do céu, mas num outro estado, a saber: após a ressurreição, durante mil anos, na cidade feita por Deus, a Jerusalém Celeste”. A expressão “Jerusalém Celeste” pode parecer ambígua. pois Tertuliano escreve mais adiante que “essa cidade foi prevista por Deus para receber os santos ressuscitados e para restaurá-los com a abundância de todas as bençãos realmente espirituais”. Trata-se da pátria definitiva dos eleitos? Não. O padre de Cartago ensina, ao contrário, que a ressurreição para o milênio será seguida da segunda ressurreição e da destruição do mundo. É somente então que, “modificados em nossa substância e tornando-se semelhante aos anjos, seremos transferidos ao reino Celeste”. Numa outra de suas obras, De anima [sobre a alma], Tertuliano volta ao tema do milênio. seguramente ele descarta toda evocação materialista desse reino feliz. No entanto anuncia: “doravante as ilhas não causarão mais horror, os escolhos não serão mais temíveis: em toda parte se achará uma morada, em toda parte um polvo, em toda parte uma república, em toda parte a vida”. Na obra contra marcião, Ele conta que a Jerusalém do milênio foi vista na Judeia durante 40 dias sob a forma de uma cidade suspensa, na aurora, entre o céu e a terra, até o nascer do sol.

• Embora combatido por origines (254) e cada vez mais suspeito aos olhos das autoridades eclesiásticas, o milenarismo recolhe ainda no século três o assentimentos de cristãos notáveis. Entre estes figura são Hipólito (235), que chegou a ser Bispo de uma comunidade Romana cismática mas morreu como mártir, o que o reabilitou aos olhos da Igreja. Por volta do ano 200 da era Cristã, as profecias montanistas e a espera angustiada de uma perseguição próxima — ela acontece em 202 — aumentam a febre escatológica nas comunidades cristãs. é para apaziguar estas que Hipólito redigir seu tratado (do Cristo e do anticristo) e seu (comentário de Daniel). A parousia [segunda vinda de Cristo. Em grego, originalmente, significa presença], diz ele em síntese, não é iminente. baseando-se na teoria dos seis mil anos correspondentes aos seis dias da criação, calcula que Jesus nasceu nas proximidades do ano cinco mil e quinhentos após o nascimento do mundo. Desde então, duzentos anos se passaram. Restam, portanto, aproximadamente três séculos. Assim, os fiéis devem se afastar dos falsos profetas, conservar o sangue frio e continuar a se casar. Hipólito, que seja seu discípulo de Irineu, foi talvez o primeiro achei que sai uma data para o retorno de Cristo à Terra. A arca da aliança tinha cinco côvados e meio. essa dimensão anunciava para Hipólito pois 5.500 anos ao cabo dos quais o senhor viera.

• Uma referência à história judaica do Antigo Testamento também deve metódio de Olímpia, Bispo martirizado em 311, sob Diocleciano, na Eubéia, a comparar o milênio à festa dos tabernáculos. “do mesmo modo que os israelitas saídos das fronteiras do Egito puseram-se primeiro a caminho e chegaram aos tabernáculos, e, tornando a partir daí, chegaram à terra prometida, o mesmo acontecerá para nós”. combatendo o simbolismo de Orígenes e opondo-lhe o milenarismo tradicional, metódio assegura que o milênio será a verdadeira festa dos tabernáculos, que precederam a última transformação de nosso corpo no momento da ressurreição definitiva. O “tabernáculo”, isto é, o retorno do reino do Messias, será por certo um lugar admirável. Contudo, ao final de mil anos, subiremos “à própria casa de Deus, em meio a cantos de júbilo e aclamações de ações de graça de uma multidão em festa”. Então os eleitos, chegados ao “estatuto eterno”, não mas morrerão, não mais pensarão em bodas e em procriação, mas viverão muito felizes à maneira dos anjos. essas fórmulas remetem a um itinerário e a etapas que seguimos desde Papias e Justino: primeiro uma temporada de mil anos numa Terra renovada onde os bem aventurados continuarão a engendrar, depois a passagem a uma vida angélica definitiva.

DELUMEAU, Jean, mil anos de felicidade, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

• Continua

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