Sacrifícios, o Cordeiro e a Santa Missa.

Em geral, cordeiros não ocupam os primeiros lugares das listas de animais mais admirados. Não são particularmente fortes, nem espertos, sagazes ou graciosos. E outros animais parecem mais merecedores.

Por exemplo: É fácil imaginarmos Jesus como o Leão de Judá (Ap 5,5).
Os leões são majestosos, fortes e ágeis, ninguém mexe com o rei dos animais.
Mas o Leão de Judá desempenha papel efêmero no livro do Apocalipse.

Ao mesmo tempo, o Cordeiro prevalece e aparece nada menos que vinte e oito
vezes.O Cordeiro governa e ocupa o trono de céu (Ap 22,3).

É o Cordeiro quem lidera um exército de centenas de milhares de homens e anjos, e acende o medo nos corações dos ímpios (Ap 6, 15-16). Esta última imagem, do Cordeiro feroz e assustador, é quase absurda demais para imaginarmos sem sorrir!

Para João, esse assunto do Cordeiro é sério!

Os títulos “Cordeiro” e “Cordeiro de Deus” aplicam-se a Jesus quase exclusivamente nos livros do novo testamento atribuídos a João: o quarto evangelho e o Apocalipse.

Embora outros livros neotestamentários (Ap 8,32-35; IPd 1,19) digam que Jesus é
“como” um cordeiro em certos aspectos, só João ousa “chamar” Jesus “o Cordeiro” (Jo 1,36 e Ap todo).

Precisamos saber o “que” o Cordeiro é e “por que” o chamamos “Cordeiro”.
Para descobrir, temos de voltar no tempo, quase até o início…

Para o antigo Israel, o cordeiro identificava-se com o sacrifício, que era uma das formas mais primitivas de adoração.

Já na 2ª geração descrita no Gênesis, encontramos na história de Caim e Abel, o 1º exemplo registrado de uma oferenda sacrifical: “Caim trouxe ao Senhor uma
oferenda de frutos da terra; também Abel trouxe primícias dos seus animais e a
gordura deles” (Gn 4,3-4).
No devido tempo, encontramos holocaustos semelhantes oferecidos:

Por Noé (Gn 8,20-21)
Abraão (Gn 15,8-10; 22,13)
Jacó (Gn 46,1) e outros.
No Genesis, os patriarcas estavam sempre construindo altares, e estes serviam primordialmente para sacrifícios.

Entre os sacrifícios do Gênesis, dois merecem nossa atenção:

– Melquisedec (Malki-Sédeq, Gn 14,18-20)
– E o de Abraão e Isaac (Gn 22).

Melquisedec surge como o 1º sacerdote mencionado na Bíblia e muitos cristãos (Hb 7,1-17) o consideram precursor de Jesus Cristo.

*Melquisedec era sacerdote e rei, combinação estranha no AT, mas que, mais tarde, foi aplicada a Jesus.
Ele é descrito como rei de Shalem, terra que depois seria “Jeru-salém” que significa “Cidade da Paz” (Sl 76,2).
Um dia Jesus surgiria como rei da Jerusalém celeste e novamente como
Melquisedec, “Príncipe da Paz”.

Em conclusão, o sacrifício de Melquisedec foi extraordinário por “não envolver animal algum”.
Ele ofereceu “Pão e Vinho”, como Jesus fez na Última Ceia, quando institui a
Eucaristia. O sacrifício de Melquisedec terminou com uma bênção sobre Abraão.

*Abraão revisitou Shalem, alguns anos mais tarde, quando Deus o chamou para fazer um sacrifício definitivo.
Abraão viajou com Isaac, que carregou nos ombros a lenha para o sacrifício
(Gn 22,6).

Quando Isaac perguntou onde estava a vítima, Abraão respondeu: “Deus
providenciará Ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho” (v8).
No fim, o anjo Deus impediu que a mão de Abraão sacrificasse seu filho e forneceu um carneiro para ser sacrificado.

Mais tarde os cristãos consideraram a narrativa de Abraão e Isaac uma profunda alegoria do sacrifício de Jesus na cruz.
As semelhanças eram muitas:

1º-Jesus, como Isaac, era o filho único querido de um pai fiel.

2º-Também como Isaac, Jesus carregou morro acima a madeira para seu sacrifício, que foi consumado em uma colina de Jerusalém.

De fato, o local onde Jesus morreu, o calvário, era um dos morros da cadeia de Moriá.

Além disso, o primeiro versículo do NT identifica Jesus como Isaac, ao dizer que Ele é “filho de Abraão” (Mt 1,1).
Para os leitores cristãos, até as palavras de Abraão se mostraram proféticas.
Lembre-se de que não havia pontuação no original hebraico e pense em uma
interpretação alternativa de Gn 22,8: “Deus se dá a si mesmo, o Cordeiro, para o holocausto”.

O Cordeiro pronunciado era Jesus Cristo, o próprio Deus – “para que a bênção de
Abraão alcance os pagãos em Jesus Cristo” (Gl 3,14 veja também Gn 22,16-18).

Mais tarde quando Moisés faz um apelo a Faraó, sua exigência principal é o direito dos israelitas oferecerem sacrifícios a Deus (Ex 10,25).

O que significam todas essas oferendas? O sacrifício animal significava muitas
coisas para os antigos israelitas:
-Era o “reconhecimento da soberania” de Deus sobre a criação: “Ao Senhor, a terra
e sua riquezas” (Sl 24,1). Assim o sacrifício louvava a Deus, de quem fluem todas as bênçãos.

-O sacrifício era um ato de “agradecimento”. A criação foi dada ao homem como dádiva.

-Às vezes, o sacrifício servia para “ratificar solenemente uma acordo ou juramento, uma aliança diante de Deus” (Gn 21,22-23).

-O sacrifício também era “ato de renúncia e tristeza pelos pecados”. O que oferecia o sacrifício reconhecia que seus pecados faziam-no merecer a morte; em lugar de
sua vida, oferecia a do animal.

Mas, na história de Israel, o sacrifício principal foi a “Páscoa”, que apressou a fuga dos Israelitas do Egito.
Foi na Páscoa que Deus instruiu toda família israelita a tomar um “animal sem
defeito, sem ossos quebrados, degolá-lo e passar seu sangue na ombreira da porta”.

Os israelitas deveriam COMER O CORDEIRO naquela noite. Se o fizessem, seus primogênitos seriam poupados.
Se não o fizessem, seus primogênitos morreriam durante a noite, juntamente com todos os primogênitos de seus rebanhos (Ex 12,1-23).
O cordeiro sacrifical morreu como expiação, em lugar do primogênito da casa. A Páscoa então, foi um ato de redenção, um “resgate”.

Contudo, Deus não apenas resgatou os primogênitos de Israel; também os
consagrou como um “reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6) – uma nação que Ele chamou seu “filho primogênito” (Ex 4,22).

O Senhor pediu, então, aos Israelitas para comemorarem a Páscoa todos os anos e até deu as palavras que deveriam usar para explicar o ritual às gerações futuras:
“Quando vossos filhos vos perguntarem: ‘Que rito é esse que estais celebrando?’,
direis:

‘É o sacrifício da Páscoa para o Senhor, que passou diante das casas dos filhos de Israel no Egito, quando golpeou o Egito e libertou nossas casas'” (Ex 12, 26-27).

Sabemos que Jesus cumpria as leis judaicas referentes ao sacrifício.
Ele celebrava a Páscoa todos os anos em Jerusalém afinal de contas, “isso não era facultativo”. CONSUMIR O CORDEIRO era o único jeito de o judeu fiel “renovar a aliança com Deus”, e Jesus era um judeu fiel.

Jesus é o Cordeiro.

Quando Jesus estava diante de Pilatos, João observa que “era o dia da preparação da Páscoa, por volta da sexta hora” (Jo 19,14). João sabia que era na sexta hora que os sacerdotes começavam a imolar os cordeiros pascais. Esse, então, é o momento do sacrifício do Cordeiro de Deus.

Em seguida, João relata que nenhum dos ossos de Jesus foi quebrado na cruz,
“para que se cumprisse a Escritura” (Jo 19,36). Que Escritura era essa? Êxodo 12, 46, que estipula que os ossos do Cordeiro da Páscoa não sejam quebrados. Vemos, então, que o Cordeiro de Deus, como o cordeiro da Páscoa, é oferenda condigna, realização perfeita.

Na mesma passagem, João relata que fixaram uma esponja embebida em vinagre na ponta de um ramo de hissopo e a serviram a Jesus (Jo 19,29; Ex 12,22).
Hissopo era o ramo preceituado pela lei para borrifar o sangue do cordeiro na
Páscoa.

Assim, essa ação simples marcou a realização da nova e perfeita redenção.
E Jesus disse: “Tudo está consumado”.

Jesus é sacerdote e também “vítima”.
Isso se confirma nos relatos da Última Ceia contido nos três evangelhos, onde Jesus usa claramente a linguagem sacerdotal de sacrifício e libação, até quando descreve a si mesmo como a vítima.

“Isto é o meu corpo dado por vós… Esta taça é a nova Aliança em meu sangue
derramado por vós” (Lc 22,19-20).
O sacrifício de Jesus realizou o que todo o sangue de milhões de ovelhas e touros e bodes jamais conseguiram.

“Pois é impossível que o sangue de touros e de bodes elimine os pecados “(Hb 10,4). Nem o sangue de um quarto de milhão de cordeiros salvaria a nação de Israel, muito menos o mundo.

Para expiar as ofensas contra um Deus que é bom, infinito e eterno, a humanidade precisava de um sacrifício perfeito: um sacrifício tão bom, puro e infinito quanto o próprio Deus. E esse era Jesus, o único que podia “abolir o pecado com seu próprio sacrifício” (Hb 9,26).
“Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36).
Por que Jesus tinha de ser um cordeiro e não um garanhão, um tigre ou um touro?
Por que o Apocalipse retrata Jesus como “um cordeiro que parecia imolado” (Ap
5,6)?

Por que a Missa precisa proclamá-lo como “Cordeiro de Deus”?

Porque só um cordeiro sacrifical se encaixa no padrão divino de nossa salvação.

Jesus era sacerdote além de vítima e como sacerdote fazia o que nenhum outro sacerdote fazia, pois este entrava “todos os anos no santuário com sangue
estranho” (Hb 9,25) e mesmo então, só ficava pouco tempo antes que sua
indignidade o obrigasse a sair.
Mas Jesus entrou no Santo dos Santos – o céu – de uma vez por todas, para
oferecer-se como nosso sacrifício.

Além disso, pela nova Páscoa de Jesus, nós também nos tornamos um reino de
sacerdotes e a Igreja do primogênito (Ap 1,6; Hb 12,23 e compare com Ex
4,22;19,6).

E com Ele entramos no santuário do céu toda vez que vamos à Missa.

Como devemos “celebrar” nossa Páscoa?
São Paulo nos dá uma resposta: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos
pois a festa… com pães sem fermento: na pureza e na verdade” (ICor 5,7-8).
Nosso cordeiro pascal é, então, pão sem fermento. Nossa festa é a MISSA! (ICor
10,15-21;11,23-32).

À luz clara da nova aliança, os sacrifícios da antiga aliança fazem sentido como
preparação para o sacrifício único de Jesus Cristo, nosso sumo sacerdote régio no santuário celeste.
E é esse sacrifício único que, na Missa, oferecemos com Jesus.
A essa luz, vemos as orações da Missa com clareza:

**Nós vos oferecemos o seu Corpo e Sangue, sacrifício do vosso agrado e salvação do mundo inteiro. Olhai com bondade o sacrifício que destes à vossa
Igreja…..(Oração eucarística IV).
…Vos oferecemos, ó Pai, dentre os bens que nos destes, o sacrifício perfeito e santo.
…Recebei, ó Pai, esta oferenda, como recebeste a oferta de Abel, o sacrifício da Abraão e os dons de Melquisedec. Nós vos suplicamos que ela seja levada à vossa presença…* (Oração eucarísticaI).

Não basta Cristo ter derramado seu sangue e morrido por nós. Agora também temos nosso papel a desempenhar.

Como aconteceu com a antiga aliança, acontece com a nova.

Quem quer expressar a aliança com Deus, ratificar a aliança com Deus, renovar a aliança com Deus ‘tem de comer o Cordeiro – o cordeiro pascal que é nosso pão sem fermento.

Começa a soar familiar. “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54).

Retirado do livro O Banquete do Cordeiro.
Do ex-pastor presbiteriano Scott Hanh.ef0938d0106cf160ae2c5d0fe1fea908

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