TODAS AS RELIGIÕES SÃO ALGO QUERIDO POR DEUS?

TODAS AS RELIGIÕES SÃO ALGO QUERIDO POR DEUS?

A ação de Deus na conservação da verdade religiosa, desde Moisés até Jesus Cristo

Vejamos a época dos patriarcas. É incontestável aquela em que a verdade correu menos perigo sobre a terra. Desde Adão até Moisés houve apenas cinco gerações: Adão viveu 100 anos com Matusalém . E, Matusalém 600 anos com Noé e 98 com Sem; Sem como viveu por muito tempo com Abraão e Isaque quando, Isaque foi avô de Davi, e Levi o foi de Moisés, que viveu alguns anos com ele.

Ora, não parece que a tradição das verdades santas, que Adão tinha recebido do próprio Deus, podia facilmente chegar intacta e pura até Moisés, levada entre as mãos de cinco anciãos venerandos? Essa transmissão mostrava-se tanto mais fácil e segura que, únicos e pacíficos possuidores de toda terra e convivendo somente com as suas famílias e entregue a trabalho simples e inocentes, os patriarcas estavam infinitamente menos expostos ao influxo das paixões humanas, cujo sopro violento assola hoje o mundo e procura dissipar, confundir e extinguir as verdades morais e sobrenaturais que lhes são tão opostas.

Sabe-se também que, antes do dilúvio, todos os homens falavam uma só e mesma língua e que a revelação primitiva era quase a única história que tinham de aprender e de ensinar a seus filhos.

E, todo dia, para conservar a verdade, Deus não ser fiel totalmente na reminiscência, na retidão e nas luzes dos patriarcas nem na evidência dos princípios vírgulas aliás, pouco numerosos, da lei natural. Ele mesmo desceu, para se dizer viva ao meio desses Santos patriarcas. Foi ele que principiou por cometer O precioso depósito a fidelidade de Adão, vindo falar com ele. Depois falou várias vezes a Noé e teve tanta intimidade com Abraão que este patriarca estava de alguma sorte com ele para que acendesse aos seus pedidos, diz São João Crisóstomo, como se está com um amigo. Enquanto assim os conduzirá pela mão e os conservavam as suas famílias da Santa interpretação e fiel observância de sua lei pela mandava de tempos em tempos castigos rios a fim de operar o mesmo efeito entre os outros homens. O anátema de carrinho que a sua vida errante, O dilúvio universal, a confusão das línguas na torre de babel pela a destruição de Sodoma e Gomorra, etc. Foram as punições que o todo-poderoso infligiu aos transgressores de seus preceitos divinos.

Mais tarde, quando os homens se tinham multiplicado, quando as paixões começaram a dominar na terra e quando, como se exprime a Sagrada Escritura, “toda a carne tinha confundido os seus caminhos “, Deus apressou-se, para assim dizer, em pôr a verdade a coberto de todo o perigo. Então é que ele chama a Abraão, separa-o dois demais homens e o faz pai de um povo, que ele separa também de todos os outros povos e que destina a guardar fielmente a fé antiga dos patriarcas. Nesse intuito prescreve-lhe praticas particulares, observâncias especiais, e dá-lhe um código completo, que tinha por fim preservado de todo contato perigoso com as nações que se afastavam das verdades reveladas. Não se limitou a isso. Ele mesmo tomou o regime e a direção da nação. Moisés, Josué e os juízes não foram, por espaço de mais de 300 anos, se não os seus lugares-tenentes; e o tabernáculo era como a tenda ou o palácio, onde os chefes subalternos iam receber as ordens do primeiro e verdadeiro soberano. Esse governo puramente teocrático, de uma autoridade evidentemente infalível, e cujos atos pela maior parte foram grandes milagres, durou perto de 400 anos.

Nessa época, o povo de Deus pedia um rei, como os demais povos. Obteve-o, E esse novo governo subsistiu até ao tempo de Jesus Cristo. Mas, ainda que o Senhor tivesse abdicado de alguma sorte a autoridade temporal, vigiou sempre o precioso depósito da verdade e nunca o deixou à mercê do povo judaico. Porquanto conservou ainda debaixo da sua dependência o chefe da nação; os reis não foram, para assim dizer, mais que súditos seus, e, quando violavam a sua lei, depunha-os como a Saul ou castigava-os e ao seu povo com calamidades, que os faziam voltar ao caminho da verdade. Além disso, instituiu-se um tribunal especial para zelar pela conservação do depósito sagrado. Ademais, foi exatamente nessa época que começaram a aparecer os profetas. Houve, diz Bossuet, uma série não interrompida de grandes ou pequenos que, longe de aderir aos erros do povo, quando se estraviava, ou de os encobrir, se lhes opunham com toda a força. Era tão contínua essa sucessão que o Espírito Santo diz que Deus lhe dirigia frequentemente a sua palavra por meio de seus profetas, levantando-se de noite e admoestando-os todos os dias; para mostrar que a verdadeira fé nunca deixou de ser publicada nem o povo que a conservava de ser advertido por Deus. Esses profetas pertenciam ao povo escolhido; confirmavam a sua missão com numerosos milagres e mantinham no dever e na verdade uma grande parte dos sacerdotes e do mesmo povo; e quanto mais a impiedade parecia dominar, mais Deus fazia resplandecer o poder de seus enviados e mais meio da instrução e salvação subministrava.

Desde o cativeiro de Babilônia até Jesus Cristo, não houve idolatria pública e duradoura. É verdade, sabemos, que sobreveio uma perseguição durante o reinado de Antíoco IV, chamado Epifânio ou o Ilustre; mas também não ignoramos o zelo de Matatias e o grande número de verdadeiros fiéis, que ser agregaram a sua família, e as brilhantes Vitórias de Judas Macabeus e de seus irmãos em todo o tempo do seu governo e do de seus sucessores até Jesus Cristo, subsistiu a profissão da verdadeira fé. Por último, os fariseus introduziram na religião e no culto numerosas superstições. Como a corrupção ia prevalecer, Jesus Cristo apareceu no mundo. Até então, a religião havia se conservado. É verdade que os doutores da lei possuíam muitas máximas e práticas perniciosas, que se propagavam pouco a pouco, mas elas não tinham sido ainda recebidas como dogma da sinagoga (pelo contrário, entre todas as outras nações, a lei natural e a revelação primitiva naufragaram tristemente. Em toda a superfície do Globo, era a nação judaica a única que proclamava a unidade de Deus; que recusava a toda criatura, até aos anjos, o direito de participar das honras Divinas; que teve ideias razoáveis a respeito da criação; que compreendeu a necessidade do culto interno; que rendeu à Divindade um culto externo e irrepreensível, etc. Todas as outras nações, até as mais instruídas, tinham se afastado da direção primitiva. É verdade que nas suas tradições apareceu ainda vestígios das verdades reveladas, mas horrivelmente desfiguradas. “Nessas nações tudo era Deus, diz Bossuet, exceto o mesmo Deus.” Expulsaram Deus dos seus altares, acrescenta Nicolau, e puseram em seu lugar tudo quanto há de mais criminoso e repugnante. A única exceção digna de se notar, que aqui apresenta a nação judaica, mostra bem a necessidade da intervenção divina para a conservação da verdade na terra.(Rollon, tratado dos estudos. Pluché, história do Céu. Riambourg).

Por isso é que Jesus Cristo dizia também: “sobre a cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus; fazei tudo quanto eles vos disserem; porém não andeis segundo a prática das suas ações” (São Mateus capítulo 23, versículo 2-3). Ele não cessou de honrar o ministério dos sacerdotes; enviou-lhes os leprosos, nos termos da lei; frequentou o templo e, repreendendo os abusos, foi sempre dedicado ao povo de Deus e ao culto público. Finalmente, chegou-se ao estado de decadência e de reprovação do antigo povo, designado pelas escrituras e pelos profetas, quando a sinagoga condenou Jesus Cristo e a sua doutrina. Mas então Jesus Cristo tinha aparecido e começado na sinagoga a reunir a sua Igreja, que devia subsistir eternamente.

“Deus, diz o grande apóstolo, tendo falado muitas vezes e de muitos modos em outro tempo pelos profetas, ultimamente nestes dias nos falou pelo seu próprio filho.” “o verbo se fez carne, diz São João; e habitou entre nós: e nós o vimos; era cheio de graça e de verdade.” veio ao mundo no estábulo, “porque não havia lugar para seus pais na estalagem”. A riqueza do Redentor dos homens consistiu no presépio.

Jesus Cristo pregou depois o seu santo evangelho; Revelou à terra por um espaço de 3 anos os segredos que ele via desde toda a eternidade no seio de seu pai. Percorreu a Judeia e encheu de benefícios. caritativo para com todos, misericordioso para com os pecadores, de quem se mostrou o verdadeiro médico, era dotado de uma autoridade e bondade que nunca tinham aparecido senão em sua pessoa. Foi amigo dos pobres, mas não desprezou os ricos. Anunciou altos mistérios, mas confirmou-os com estrondosos milagres. Prescreveu grandes virtudes, mas dava ao mesmo tempo grandes instruções, grandes exemplos e liberalizava grandes favores. Tudo atesta a divindade da sua pessoa: a sua vida, a sua doutrina, os seus milagres, a mesma verdade que nele resplandeceu por toda parte, tudo concorreu para que o conhecessem como supremo Senhor e modelo de perfeição. E só Ele, no meio dos homens e diante de seus inimigos, pôde dizer: “qual de vós me seguirá de pecado?”. E também: eu sou a luz do mundo.

“As raposas tem o seu covil e as aves do céu o seu ninho; mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Pobre até o fim, recebe da caridade o pão que o sustenta, os vestidos que cobrem amostra em que o envolvem. Sofreu as maiores dores sem fraqueza e sem ostentação e morreu orando pelo pelos seus inimigos e abençoando os seus algozes. Numa palavra, a sua morte foi milagrosa é inteiramente divina como a sua vida. Seus próprios inimigos o declararam: “na verdade este homem era filho de Deus” (São Mateus capítulo 27 versículo 54). E os mais ímpios filósofos não puderam deixar de reconhecê-lo. “Se a vida e a morte de Sócrates são as de um sábio, diz Rousseau, a vida e a morte de Jesus Cristo são as de um Deus” quando morreu, a natureza cobriu-se de luto. Três dias depois da sua morte, ressuscitou por sua própria virtude; e 40 dias depois da sua ressurreição, subiu ao céu de onde intercede por todos nós.

A Igreja católica. Sua missão

Contudo, o depósito da verdade, guardado até ali pelo mesmo Deus, e agora enriquecido, desenvolvido por Jesus Cristo e regado com seu Divino sangue, mais que nunca necessitava de não ser abandonado à mercê dos homens e ao furor das paixões cada vez mais terríveis Deus. Os profetas e Jesus Cristo tinham falado sempre ao homem uma linguagem exterior e sensível, porque a sua natureza e a sua necessidade exigem esse modo de ensino. Depois da morte do Salvador, a sua doutrina devia, pois, continuar a tomar uma forma visível; convinha que ela fosse confiada ainda a enviados, que falassem e ensinasem, como ele, de uma maneira sensível. É por isso,como já observamos com Bossuet, que Jesus Cristo, mesmo no meio da sinagoga, tinha tido o cuidado de fundar a sua Igreja pelo chamamento de 12 pescadores. Havia-lhes dado por chefes Simão Pedro, com uma prerrogativa tão manifesta que os evangelistas, na enumeração que faz dos Apóstolos, não seguem ordem certa, são todos concordes em designar Pedro como o primeiro de todos os outros. Depois, antes de subir ao céu, Jesus Cristo convocou esse sacro colégio, que o devia substituir neste mundo, e disse: “Assim como o pai me enviou a minha, também eu vos envio a vós: foi-me dado todo o poder no céu e na terra: ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura; ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do pai e do filho e do espírito santo; e estais certos de que eu sou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. palavras dignas do esposo Celeste, diz Bossuet, que dá o seu poder e empenha para sempre a sua fé a sua Santa Igreja. De onde se segue que a Igreja não é para assim dizer, senão Jesus Cristo, falando e ensinando continuamente debaixo de uma forma humana. “É, como a encarnação permanente do filho de Deus”. assim como em Jesus Cristo, a divindade e a humanidade, ainda que distintas entre si, estavam estritamente unidas, assim também a Igreja, sua manifestação permanente, tem um lado Divino e um lado humano. Humano quanto aos homens que a compõem e Divina quanto ao espírito de Deus, que a anima e a governo, a igreja está agora encarregada do depósito da verdade até o fim do mundo (Fora da igreja católica, a verdade evangélica teve a sorte que havia tido a revelação primitiva fora do povo judaico. Foi dividida e confundida e horrivelmente desfigurado em todos os seus diversos pontos. Os milhares de hereges que tem aparecido a 21 séculos foram tão versáteis, tão discordantes e opostos uns aos outros como o foram entre si os filósofos pagãos. Disseram sim e não a todas as questões, a respeito da revelação, assim como os primeiros o tinham feito a todas as questões sobre a lei natural. A história das aberrações e das contradições da heresia é talvez até mais longa e deplorável que a da filosofia. “Todo erro, diz Bossuet, é uma verdade de que se abusou”. Ora, tendo sido o depósito da verdade aumentado e completado por Jesus Cristo, é evidente que os estragos dos novos racionalistas deveram sobrepujar os de seus antecessores. Ademais, todo universo sabe que os sublimes e profundos mistérios do Evangelho são menos acessíveis à razão humana que os princípios da lei natural. As paixões, sempre inimigas da verdade, vão também aumentando à proporção que os homens se multiplicam, etc. Todos esses desvarios da razão humana mostram o motivo porque Pascoal dizia: “Escarnecer a filosofia é verdadeiramente filosofar”. Logo é necessária hoje, mais que nunca, uma autoridade infalível para a conservação do depósito sagrado da verdade. Como o seu Divino esposo, ela ela deve esclarecer, ensinar, consolar e conduzir o homem pelo caminho da verdade. Fiel à sua missão, ela esclarece, consola, ensina o mundo, fazendo sempre bem, a exemplo de Jesus Cristo; E desde há 21 séculos alivia todas as dores que pesam sobre a humanidade. Mas os seus benefícios são negados, e o mundo tem lhe respondido sempre com a maior ingratidão. Nunca a Igreja de Jesus Cristo deixou de ser caluniada, atacada e perseguida em toda parte. Esse último fato completa a sua semelhança com seu Divino autor, de quem se disse: “veio para o que era seu, e os seus não o receberam… Está posto para ser alvo de contradição… “.

A igreja, cumprindo, através das idades, a missão que Deus lhe deu, de ensinar a verdade e de fazer bem. Filha do céu, recebeu e contém em si 5 caracteres que proclamam sua Celeste origem: é uma, Santa, católica, apostólica, Romana. O inferno tem empregado os maiores e mais repetidos esforços para derrubar esses sinais divinos; mas não pôde consegui-lo nunca. Depois de decorridos 21 séculos, em que a perseguição foi contínua, eles brilham mais do que nunca sobre sua fronte. Os fatos, os monumentos, os testemunhos escritos e todo esse tempo provam unânime e irrefragavelmente, durante todos estes séculos, que a Igreja foi sempre uma, Santa, católica, apostólica, Romana, ou, por outros termos, que foi sempre divina e a verdadeira esposa de Jesus Cristo. É esse o Belo e consolador espetáculo que vemos por cada século da história da Igreja.

Se nossa coragem tendesse a ser abalada à vista das cruéis provações porque está passando a Igreja, e ainda das mais cruéis que pareçam ameaçá-la, deveríamos lembrar-nos de que é essa a sua sorte constante e como que um poderoso elemento para sua sustentação. Esposa do Salvador, ela deve ser a primeira a seguir o caminho da Cruz, que o filho de Deus abriu e que todos os santos trilharam uns após outros. Mãe dos cristãos, o sofrimento é para ela, assim como para cada um dos seus filhos tomados individualmente, o meio de conseguir a salvação. A igreja foi inabalável através de 21 séculos de perseguição; porque o não será em face das tempestades contemporâneas? Nossos pais não desanimaram nos lances das provações passadas. No meio de tantas dúvidas, tinham fé; no meio de tantos desesperos, esperavam; no meio de tantos ódios, amavam. Façamos como eles ergamos a cabeça. Ouvimos vozes inimigas e impacientes clamar: “não chegará um dia em que se possa disser: eis o último Papa!” sim, mas esse dia vós não vereis; só chegará no fim dos tempos, quando Jesus Cristo aparecer para julgar os vivos e os mortos. Então ele já não precisará de um representante visível na terra; então terá acabado de sofrer na pessoa de seu último Vigário tudo quanto tinha de sofrer neste mundo. Quanto a nós, que não sabemos o dia nem a hora; quanto a nós, que no pó do combate vemos o Cristo encetar no seu representante atual um novo caminho da Cruz, sigamos com amor e fé, repetindo esse brado de dolorosa admiração, pelo qual a liturgia grega interrompe algumas vezes na sexta-feira Santa a solene leitura da paixão: “Glorificada seja a vossa paciência, senhor!’

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