O SER HUMANO COMO DESTINATÁRIO DA AUTOCOMUNICAÇÃO DE DEUS I. TEMAS E PERSPECTIVAS DE UMA ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA

O SER HUMANO COMO DESTINATÁRIO DA AUTOCOMUNICAÇÃO DE DEUS

I. TEMAS E PERSPECTIVAS DE UMA ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA

O conceito

A antropologia teológica significa o tratado dogmático em que a origem e a definição do ser humano são interpretadas à luz da autorrevelação histórica de Deus em Jesus Cristo. Ela serve à orientação espiritual e ética na vida com base na fé cristã. Como os dois focos inter-relacionados de uma elipse, a antropologia teológica se move em torno de dois eixos temáticos:
1. Abrange os pressupostos e as condições apriorístico-transcendentais da existência humana diante de Deus (caráter de criatura, imagem de Deus, personalidade, sociabilidade, espiritualidade, liberdade, corporeidade, historicidade). A antropologia teológica estabelece um diálogo com a antropologia filosófica a respeito da tematização comum da questão fundamental: “O que é o homem?” (Salmo 8,5; GS 10; Kant, Logik [1801], Introdução, A 25).

2. Reflete sobre a situação aposteriori-categorial, histórica, social e natural do ser humano no seu mundo vital concreto (unidade natural entre natureza e graça no estado original, a ruptura das relações com Deus e com seus semelhantes em virtude do pecado, da experiência da negatividade e da deficiência no sofrimento e na morte, bem como na esperança de uma salvação abrangente). Desse modo, resulta um nível de diálogo com as antropologias e ciências empíricas (cosmologia, paleontologia, biologia, psicologia, sociologia, antropologia cultural, ciências da religião). A antropologia teológica se encontra numa relação especial com a doutrina da criação, a soteriologia e a doutrina da Trindade. Atinge sua máxima concretização na mariologia, dado que a mãe de jesus é o tipo da pessoa crente tomada pela graça.

O ser humana concreto como sujeito e tema da teologia

Desde a configuração da filosofia subjetiva tipicamente moderna, o ser humano não é mais apenas um objeto de enunciados antropológicos. Tematiza também a si mesmo nos seus pressupostos, condições e limites do seu conhecimento de Deus na criação e na história. Portanto, a antropologia teológica reflete sobre a relevância da revelação para o aclaramento da existência humana, bem como sobre a possível mediação com o conhecimento acerca do ser humano obtido de outra maneira na epistemologia, na metafísica e na ciência.

Portanto, a dogmática não pode mais começar seu discurso diretamente a partir da doutrina de Deus. Deve iniciar com uma análise do ser humano, de sua situação histórica e de sua reflexão transcendental. A antropologia teológica parte do fato de que o ser humano se sabe interpelado pelo Deus de Israel, o Pai de Jesus Cristo, e introduzido na verdade de sua humanidade. Diferentemente da filosofia da religião geral e da teologia natural, a antropologia teológica não começa pela abstração metodológica da realidade da revelação (remoto Deo, remoto Christo).

O Vaticano ll recomendou como ponto de partida da dogmática a questão geral básica: O que é o homem? (GS 10; 2 2),

Aqui, porém, confluem diferentes respostas. Nas concepções do materialismo e do consumismo práticos dissimula-se a dramática da existência humana e a imperiosa referência da questão do sentido a um Horizonte transcendental. As ideologias da fé no progresso contam com a possibilidade de construir, por meio de esclarecimento e da educação e na confiança num processo evolutivo que avança necessariamente, uma sociedade pacífica em que se realizam completamente todas as pretensões materiais e espirituais do ser humano. Além disso, há um ceticismo que afronta a necessidade existencial do ser humano com um suportar heroico ante a conhecida e assumida finitude e futilidade do ser humano. O surgimento da religião é atribuído, neste caso, é inclinação do ser humano à autoilusão em vista da (supostamente evidente) estrutura niilista fundamental da existência.

Para esta sóbria concepção de si, a fé em Deus é algo a respeito do que um homem racional só pode se “admirar” (cf. MACKIE,J.L. Das Wunder des Theimus [O milagre do teismo], ingl. O 1982. Por outro lado, SWINBURNE, R. Die Existenz Gottes [A existência de Deus], al. St 1987).

A antropologia teológica parte, no entanto, do princípio de que só a luz de Jesus Cristo, do “homem novo”, isto e’, “só no mistério do Verbo encarnado” se elucida “verdadeiramente o mistério do homem” (GS 22).

A antropologia teológica não parte de uma “imagem do ser humano”, abstrata, obtida a partir dos conhecimentos da razão ou do testemunho da revelação, mas do ser humano concreto. Ao mesmo tempo, porém, conta com a possibilidade de esclarecer a situação dele com auxílio da razão e também à luz da relação pessoal com Deus na fé.

Todo ser humano já se encontra num contexto histórico, político e cultural concreto. Também essa situação concreta é o objeto de sua análise. Para uma antropologia teológica não é indiferente se seu sujeito se encontra do lado dos pobres ou dos ricos, se nasceu como escravo ou como senhor, se sofre de deficiência física e de experiências traumáticas ou pode se alegrar com uma condição de saúde física e mental, se, a partir de sua predisposição, se inclina, antes, para o ceticismo e a depressão ou se é sustentado na sua Vida por uma confiança fundamental, na acessibilidade da verdade.

O aspecto unificador da antropologia teológica não decorre de uma versão abstrata de uma “essência” do ser humano que excede sua determinação concreta e individual, mas é o resultado do contato com a de Deus em favor de cada ser humano concreto —reconhecida na sua autocomunicação histórica ao ser humano — justamente nas situações de sua existência individual.

Müller, Gerhard Ludwig, dogmática católica — Petrópolis, RJ: VOZES, 2015

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