DEFESA DA RAZÃO 

l. DEFESA DA RAZÃO

1) Proposições subscritas por Bautain (18.11.1835 e 8.9.1840)
Louis Eugéne Bautain (1796-1867), médico e filósofo, professor na Universidade de Strassburg, é um representante qualiEcado do Edeismo do século XIX. Nascido no seio de uma familia profundamente cristã, chegou a perder a Fé, influenciado pelo agnosticismo kantiano. Auxiliado pela piedade e pelo saber de Louise Humann, recuperou a antiga Fé (1822) e reuniu em volta de si um grupo de jovens, alguns deles judeus, que não tardaram em se converter ao catolicismo (M. T. Ratisbonne, Goschler, Level e outros). Ordenado sacerdote em 1828, pouco tempo depois foi encarregado da direção do seminário diocesano (1830) pelo bispo de Strassburg, Dom Lepappe de Trévern. Mas logo começaram os conflitos: a formação kantiana, a experiência da própria conversão e o desejo de modernidade, conjugados à falta de uma sólida formação teológica, induziram-no a procurar uma aproximação da Fé compatível com a desconfiança na razão. Nos seus sermões na catedral combateu a Escolástica, acusando-a de racionalismo; no ensino, defendia a incapacidade da razão para demonstrar os motivos de credibilidade. Esposando as idéias do romantismo católico de Baader e do tradicionalismo de De Bonald, afirmava que a razão era um elemento passivo, no qual é recebido o conhecimento certo da verdade, assim como a vida é recebida de um germe proveniente de um agente anterior. Deste modo, a Fé (fideísmo), transmitida por meio de homens extraordinários (tradicionalismo) na Igreja e na Palavra viva da Sagrada Escritura, é a última garantia das certezas metafísicas que constituem os motivos de credibilidade. Foi grande a influência de Bautain em A. Gratry, L. Ollé-Laprune, M. Blondel, Le Roy, Laberthonniére e outros, a ponto de ser chamado o Newman francês.
O bispo interveio com rapidez e determinação: escreveu uma Instrução pastoral (Avertissement), em que denunciava os erros de Bautain (15.9.1834); afastou-o e a seu grupo da direção do seminário; enviou relatório do ocorrido a Gregório XVI, que aprovou as medidas com um Breve (20.12.1834), manifestando a esperança de submissão de Bautain. De fato, 3 18.11.1835, subscrevia Bautain as seis proposições que lhe foram apresentadas pelo bispo Dom Trévern. Mais tarde, com receio de que sua obra La philosophie du Chistianisme (Strasbourg, 1835) fosse posta no índex, voltou a subscrever as mesmas proposições, levemente alteradas pelo bispo auxiliar, Dom Raess (8.9.1840).
Embora emanadas de uma autoridade local, estas proposições têm valor universal, porque a Congregação do Index as assumiu na causa contra Bonnetty. Damos, a seguir, os dois textos unificados, o que foi acrescentado em 1840 e entre colchetes o que foi suprimido da redação de 1835.
Bautain fundou depois uma congregação religiosa, para cuja aprovação teve de assinar, tanto ele como seus companheiros, um compromisso exigido pela Congregação dos
Bispos e dos Religiosos (26.4.1844). A Congregação teve vida efêmera; Bautain tornou-se então Vigário geral da diocese de Paris, onde santamente morreu.
TEXTO: Kat 59 (1838), supl. 1, XXV; 79 (1841), supl. I, LVI.
1. O raciocínio pode provar com certeza a existência de Deus e a infiinidade de Suas perfeições. A Fé, dom do céu, supõe a [é posterior à] Revelação; por isso, ela
Não pode ser convenientemente [convenablement] invocada no debate com os ateus como prova da existência de Deus”.
2. A [origem divina da, divinité de la] revelação mosaica se prova com certeza pela tradição, oral e escrita, do judaísmo e do cristianismo.
3. A prova [da Revelação cristã] tirada dos milagres de Jesus Cristo, prova sensível e contundente para as testemunhas oculares, não perdeu, de modo algum, sua força e seu esplendor para as gerações posteriores. Esta prova é encontrada com toda a certeza ”a autenticidade do Novo Testamento, na Tradição oral e escrita de todos os cristãos. Por meio desta dupla Tradição é que devemos demonstrá-la ai incrédulo que a rejeita [áqueles que a rejeitam] ou àqueles que, sem admiti-la ainda, a desejam.
4. Não se tem o direito [de modo algum] de esperar de um incrédulo que ele admita a Ressurreição de nosso divino Salvador, sem dela lhe ter dado provas certas; e estas provas são deduzidas [da própria Tradição] pelo raciocínio.
5. Nestas várias questões, a razão precede a Fé e à Fé nos deve conduzir [O uso da razão precede a Fé e a Fé conduz o homem por meio da Revelação e da Graça]“.
6. Por mais enfraquecida e obscurecida que tenha ficado a razão pelo pecado original, restam-lhe ainda clareza e força para nos conduzir com certeza à existência de Deus, à Revelação feita aos judeus por Moisés: e aos cristãos por nosso adorável Homem-Deus [A razão pode provar com certeza a autenticidade da Revelação feita aos judeus por Moisés e aos cristãos por Jesus Cristo].
2) Compromisso de Bautain e de seus companheiros (26.4.1844)
TEXTO: E. DE RÉGNY, L’abbé Bautain, Paris, 1884, 337-338.
(…) Prometemos para o presente e para o futuro jamais ensinar:
1. que, só com a luz da reta razão, sem a Revelação divina, não se possa dar uma verdadeira demonstração da existência de Deus;
2. que, só com a razão, não se possa demonstrar a espiritualidade e a imortalidade da alma ou qualquer outra verdade puramente natural, racional ou moral;
3. que, só com a razão, não se possa ter a ciência dos princípios ou da metafísica, bem como das verdades que dela dependem, enquanto ciência absolutamente distinta da teologia sobrenatural, que se fundamenta na Revelação divina;
4. que a razão não possa adquirir verdadeira e plena certeza dos motivos de credibilidade, ou seja, dos motivos que fazem com que a Revelação divina seja evidentemente crível, tais como são, em especial, os milagres e as profecias e, particularmente, a Ressurreição de Jesus Cristo (…) .

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