ERROS SOBRE A EUCARISTIA FALSAMENTE ATRIBUÍDOS AO PAPA SÃO GELÁSIO ENTRE 492 ATÉ 496

ERROS SOBRE A EUCARISTIA FALSAMENTE ATRIBUÍDOS AO PAPA SÃO GELÁSIO

ENTRE 492 ATÉ 496

No meio das revoluções políticas da Itália, a sé Apostólica continuava a brilhar com um vivo esplendor. Era então ocupada pelo Papa. S. Gelásio I, eleito em 492. «Toda a Vida. deste pontífice, diz Bossuet, foi de leitura ou de oração.» Convocou em Roma no ano 494, um concílio, a que assistiram setenta bispos. Um dos decretos desta assembleia encerra uma declaração sobre a instituição divina da primazia da Santa Sé de Roma: ’Tu és Petrus, etc. A segunda sé é a do Alexandria, estabelecida em nome dos Apóstolos por S. Marcos, seu discípulo; a terceira é a de Antioquia, que S. Pedro ocupara antes de vir a Roma. Em muitas de suas cartas, S. Gelásio proclama Igualmente de modo mais, forte e solene, a supremacia universal dos sumos pontífices, entre outros, o sou direito do confirmar os bispos.
CONFORMIDADE ENTRE A LITURGIA DE SÃO GELÁSIO E A LITURGIA ATUAL
Além de umas vinte cartas, e de sessenta cânones, que entraram no Corpus juris, temos ainda do Papa S. Gelásio um tratado contra Nestório o Eutiques, o outro contra os pelagianos. S. Fulgêncio e alguns outros padres da Igreja já citam, como sendo do mesmo pontífice, porque o tinham encontrado entre as suas obras, um Opúsculo de pouco mérito, intitulado: Das duas naturezas, igualmente dirigido contra os heresiarcas Nestório e Eutiques. Como este Opúsculo, que contém uma passagem, em que se diz a respeito da Eucaristia, que este «sacramento do corpo e sangue de Jesus Cristo é uma coisa divina, e nos faz participantes da sua natureza divina; que não cessa de ali estar a substância ou a natureza do pão e do vinho: tamen esse non desinit substantia vel natura panis et vini, alguns autores serviram-se destas palavras como de um argumento tanto mais concludente contra a presença real e a unidade da fé Romana, que é tirado dos próprios escritos do um Papa. Mas, em primeiro lugar, não está demonstrado, que o Opúsculo atribuído a S. Gelásio lhe pertença. Bellarmino, Melchior Canus, Baronio, Duperron, apoiados em Fócio, afirmam o contrário, e o provam claramente. Demais, a referida. passagem tomada na sua íntegra, longe de ser oposta a presença real, a supõe e estabelece; se favorecesse algum erro, seria antes a impanação luterana, quo todos os protestantes rejeitam. Mas como as palavras natureza e substância tiveram durante um longo espaço de tempo diversas significações, entro outras, a do modos e acidentes, come se prova por uma infinidade de exemplos tirados dos autores antigos, é muito natural, que se conclua, quo o autor das palavras objetadas quiz ali exprimir o dogma da transubstanciação, como o indicam estas outras palavras do contexto: «( o pão e o vinho, por operação do Espirito Santo, convertem-se na substância divina, transeunt in divinam substantiam. — Além disto, o Papa S. Gelásio em todas as suas obras autênticas, principalmente em seu Sacramentario, ensina e professa do modo mais formal o dogma da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Logo, não se lhe podem opor algumas palavras, quando muito obscuras ou equívocas, de um Opúsculo, que se duvida muito, que lhe pertença. — Segundo Gennade e o Liber pontificalis, o Papa S. Gelásio compôs também hinos a imitação de Santo Ambrósio, prefácios e orações para o santo sacrifício e para a administração dos sacramentos. É por esta razão, que se lhe atribue com muita probabilidade um antigo Sacramentario da Igreja romana, contendo com as orações e as cerimônias dos sete sacramentos as missas de todo o ano. Esta importante obra, diz Darras, não foi feita, propriamente falando, por esta grande Papa, mas sim revista por ele e publicada com a sua autorização. Notam-se nela as três missas do Natal; as orações das quatro temporas; a benção do santo crisma, dos santos óleos; o ofício da sexta-feira santa, com as orações que só recitam ainda hoje, a adoração da cruz, e a comunhão feita com a hóstia consagrada no dia precedente; as ladainhas do sábado santo, seguidas da benção do Círio Pascal com um belo canto, que não era porém ainda o nosso magnífico Exultet, atribuído a Santo Agostinho; a benção da fonte batismal; a confirmação administrada pelo bispo, com a imposição das mãos e a unção na fronte do confirmado; as cerimônias da dedicação de uma igreja; as da ordenação, da consagração das virgens; as orações pelas diversas necessidades da Vida, a chuva, o bom tempo, etc.; a benção do altar, dos vasos sagrados, etc.; a aspersão da água benta; as missas votivas dos defuntos e dos santos; as grandes festas do ano católico, a quaresma, o advento, etc. A maior parte das missas tem prefácios próprios, mas o cânon é como o que recitamos ainda hoje. — Se um protestante de boa fé le-se o Sacramentário de S. Gelásio, não poderia deixar de reconhecer que as cerimônias, os ritos, as orações da Igreja são hoje, nas suas principais partes, exatamente as mesmas, que no século v. O Papa..S. Gelásio é o primeiro, que fixou para as ordenações as quatro têmporas; antes podiam fazer-se todos os domingos. Este sábio e piedoso pontífice morreu no ano 496.
SENTENÇA DE THEODORICO, REI DOS OSTROGODOS SOBRE A ELEIÇÃO DO PAPA SYMMACO
ANO 498
Ele teve por sucessor Santo Athanasio II, que ocupou de pouco tempo a santa sé, e a quem uma escolha misteriosa deu dois sucessores Simultâneamente, Symmaco e Lourenço. Era. o princípio de um cisma, e o problema necessitava de uma solução rápida. O mais legítimo e o único canônico teria sido um concílio, mas ele só poderia reunir-se passados alguns meses. Para tirar a dificuldade, recorreu-se a Theodorico, remetendo-se ao sou arbítrio. Foi, diz Baronio, um espetáculo de aflição, mas o único meio de evitar uma guerra civil no seio de Roma. Os dois competidores, Symmaco e Lourenço, compareceram pois em Roma. perante Theodorico, que decidiu sabiamente, que se devia ter como legítimo a Symmaco, que fora. eleito primeiro, o que tivera mais sufrágios. Em consequência desta sentença, Symmaco foi confirmado e reconhecido pelos bispos como legítimo Papa. Como depois este Papa foi acusado do vários crimes, Theodorico convocou para o julgar um concílio em Roma, no ano 501, mas os bispos representaram-lhe, que «competia ao Papa convoca-lo por direito divino e por autoridade dos concílios, o que não havia exemplo de que nenhum Papa tivesse sido sujeito ao juízo de seus inferiores.» Então Theodorico mostrou-lhes por algumas cartas de Symmaco, que este pontífice consentia em que se convocasse o concílio, que efetivamolente se reuniu em Roma no ano 501, e o Papa, na presença dos padres’, autorizou-os a julgar o pleito: são os próprios termos dos atos do concilio. Symmaco foi reconhecido inocente e absolvido das culpas, que lhe imputavam.
A glória de Theodorico não durou até ao fim da sua Vida. A idade e as enfermidades o tornaram invejoso, avarento, desconfiado. Os aduladores aproveitaram-se de suas fraquezas para o indispor contra os homens mais respeitáveis do seu reino. O senador Symmaco e o seu genro Boecio pereceram em horríveis suplícios. -Theodorico não sobreviveu muito tempo ás suas crueldades. Um dia puseram-lhe á mesa uma cabeça de peixe; ele imaginou que era a cabeça de Symmaco, que o ameaçava; levantou-se assustado, deitou-se na cama, e expirou cheio do remorsos no ano 526. A sua morte foi seguida. de algumas revoluções políticas, e em 540 as proezas do Belizário fizeram de novo passar Roma e uma parte da Itália para a dominação dos imperadores do Oriente.
Tratado de história eclesiástica, volume 2 — Padre RIVAUX, 1876— Brasília: Editora Pinus, 2011.

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