Sobre Indulgências

Conta-se que, certa vez, São João Bosco determinou como penitência, a uma mulher que praticava a fofoca, que ela deixasse um cesto de penas de ganso sobre o telhado. Ela o fez e voltou ao confessionário. Dom Bosco então lhe pediu para que buscasse o cesto cheio de penas e ela retrucou: “mas é impossível, o vento as levou todas!”. Pois assim é a fofoca. Não se pode recuperar o que foi espalhado. Ou como dizia um antigo provérbio, a palavra que sai da boca, como a flecha do arco, não pode ser recuperada. Os exemplos poderiam ser inúmeros, mas o objetivo aqui é o mesmo: por mais que se obtenha perdão pelos pecados, as consequências do mesmo permanecem.

“O fim intencionado pela autoridade eclesiástica na concessão das indulgências é não apenas ajudar os fiéis a pagarem as penas que devem, mais ainda incitá-los ao exercício das obras de piedade, de penitência e de caridade e, particularmente, das obras que conduzem ao progresso da fé e ao bem geral” (Indulgentiarum Doctrina, 1967. IV).

Em primeiro lugar é preciso compreender o uso e função das indulgências, dado que, por ter sido tão vilipendiada e atacada na revolta protestante, sua menção hoje remete a algo que era praticado indevidamente, quando a verdade não é esta. A transformação do homem segue algumas etapas:

1. Batismo: Converte a criatura em filho de Deus e apaga TODOS os pecados cometidos até aquele momento pelo sacrifício de Cristo;

2. Durante a vida de batizados, somos tentados pelo corpo, pelo mundo e pelo diabo, portanto, caímos frequentemente, manchando as roupas brancas que obtivemos pelo sacrifício de Cristo;

3. Pelo sacramento da penitência (confissão) oferecemos a Deus algo em troca pela ofensa que fizemos a Ele;

4. Restam as consequências desta ofensa para o próximo e para a cristandade. Estas consequências são pagas com penitências voluntárias durante a vida, ou pela purificação no purgatório, após a morte.


As indulgências servem para reduzir estas dívidas, apressando o encontro do penitente com Deus.

Podemos resumir isto com um exemplo simples: um menino resolve ir jogar bola com a camisa branquinha que sua mãe lhe colocou para sair para uma festa com a família. Ele suja a camisa de lama. Sua mãe o perdoa, mas ainda falta limpar a mancha. Então a mãe lhe dá, por penitência, o dever de colocar a roupa na bacia, lavá-la com água e sabão e secá-la. Mas, como a macha é difícil de sair, esta mesma mãe, por misericórdia, oferece ao filho um alvejante, que acelera a limpeza. Este alvejante é a indulgência que a Igreja (mãe) nos oferece a partir do tesouro dos méritos de Cristo.

O uso de indulgências faz parte da economia da salvação, termo que a Igreja usa para designar a forma como, provavelmente, age a justiça Divina, que precisa ser satisfeita, e Sua misericórdia superabundante. Como nos ensina o Papa Paulo VI, o termo indulgência designa algo que era reconhecido desde a Igreja primitiva como a consequência das boas obras praticadas pelos santos, e pelo sacrifício dos mártires, e inteiramente fundamentada na comunhão dos santos, que nos permite, enquanto Igreja, e jamais pelos nossos méritos próprios, acrescentar ao tesouro espiritual, e dele sacar para nosso benefício (Indulgentiarum Doctrina, 1967. II, 4-6, e III).

A constituição apostólica Indulgentiarum Doctrina, de Paulo VI, foi promulgada para renovar as regras vigentes até então quanto ao uso de indulgências. Houve uma grande simplificação das regras, e uma redução na variedade de indulgências plenárias existentes, com o objetivo de valorizar os atos de preparação e penitência que se fazem necessários para obtê-las, e para não confundir os fiéis, associando indevidamente as indulgências a atos externos apenas. Com a promulgação desta constituição, foram revogadas as indulgências que vigiam até então, de tal forma que, hoje em dia, muitas práticas antigas, embora piedosas e úteis para o crescimento espiritual, não fazem mais jus a indulgências, como, por exemplo as indulgências plenárias associadas aos escapulários, ou ainda as indulgências parciais de 100 dias associadas às cruzes do ano santo de 1900, existentes em diversas igrejas no Brasil e no mundo.

As indulgências hoje se dividem em plenárias – que removem as dívidas devidas aos pecados cometidos até a data de seu recebimento—e parciais. As parciais antigamente removiam uma quantidade de dias da pena no purgatório, mas este uso foi descontinuado pela constituição, e agora, a indulgência parcial efetivamente duplica o benefício que o ato praticado originalmente ganharia. Por exemplo, se é prescrita uma oração para que se ganhe indulgência parcial, o ato de rezá-la com piedade reduz as dívidas na proporção do esforço e da dificuldade para cumprir o ato, e também na proporção da fé e da vontade do fiel, aplicada ao ato de agradar a Deus; a Igreja, então, adiciona uma igual redução, efetivamente duplicando o benefício merecido pelo esforço e fé. É como se, para cada centavo economizado no banco, o banco acrescentasse outro à conta do cliente. Ou: “ao fiel que, ao menos contrito de coração, realiza uma obra enriquecida duma indulgência parcial, é concedida pela Igreja uma remissão de pena temporal igual à que ele mesmo obtém por sua ação” (Enchiridion Indulgentiarum, 1986. Norma 5).

As indulgências plenárias podem ser obtidas uma vez apenas por dia, exceto em risco de morte, onde pode-se receber a indulgência plenária in articulo mortis pela benção apostólica do padre, mesmo já tendo recebido outra plenária no mesmo dia. Neste caso, a segunda plenária apagaria as dívidas devido às consequências de pecados cometidos entre a indulgência anterior e esta última. As indulgências parciais podem ser recebidas mais de uma vez por dia.

Para se receber uma indulgência parcial faz-se necessário estar com o coração contrito, como afirmado anteriormente, além disso, é preciso atender às circunstâncias que a Igreja exige para a concessão. Para receber uma indulgência plenária, além da contrição (e repulsa a todo pecado mortal ou venial), e do cumprimento das circunstâncias exigidas, também é necessário atender a três condições: confessar-se na semana anterior ou posterior ao dia da concessão da indulgência, receber a eucaristia (Se receber como parte da missa, deve-se estar presente à missa ao menos desde antes das leituras) e recitar ao menos um pater e um ave nas intenções do Papa, podendo, entretanto, o fiel usar outras orações que lhe forem de especial devoção. É interessante aqui fazer um parêntese, pois a oração “Oremos pelo nosso pontífice, N., o Senhor o conserve…” é, por si mesma, indulgenciada, sendo excelente usá-la também neste momento. A oração pelo Papa e a comunhão devem ser no dia do recebimento da indulgência, e valem para aquela indulgência apenas, já a confissão, desde que mantido o estado de graça, pode valer para mais indulgências ao longo da semana. Dado o caráter penitencial das obras que dão direito à indulgências, estas não podem ser por obrigação de estado, dever ou lei, mas de livre e espontânea vontade do fiel.

O Enchiridion Indulgentiarum, ou, manual das indulgências, contém três concessões gerais, e uma lista mais detalhada de orações e atos que concedem indulgências. As três gerais são:

  1. Indulgência parcial ao fiel que, no decurso do cumprimento de suas obrigações suportar as aflições da vida elevando o espírito a Deus e oferecendo-Lhe orações e jaculatórias em ação de graças, demonstrando assim obediência e mansidão em aceitar a sua cruz;
  2. Indulgência parcial ao fiel que, com o coração misericordioso, dispõe de si e do que é seu para ajudar ao irmão que sofre pela falta do necessário, sendo assim chamado à caridade para com o próximo;
  3. Indulgência parcial ao fiel que abstém de coisa que lhe é lícita e agradável em espírito de penitência, buscando, com aquilo do qual se absteve, auxiliar aos que necessitam, sendo assim, somos chamados à refrear as paixões, domar o corpo e praticar também a caridade.

Em seguida, o manual oferece uma lista de orações e práticas enriquecidas com indulgências parciais ou plenárias. Das quais vale citar aquelas plenárias que se pode obter todos os dias, e as parciais que se obtém com facilidade:

Indulgências plenárias que se podem obter todos os dias:

  1. Adoração ao Santíssimo Sacramento pelo menos por meia hora (concessão n. 3), se por menos tempo, é parcial;
  2. Leitura espiritual da Sagrada Escritura ao menos por meia hora (concessão n. 50) se por menos tempo, é parcial;
  3. Piedoso exercício da Via Sacra (concessão n. 63);
  4. Recitação do Rosário de Nossa Senhora na igreja, no oratório ou na família ou na comunidade religiosa ou em piedosa associação (concessão n. 63) se não for concluído, é parcial.

Indulgências parciais que se pode obter frequentemente e com pouco esforço:

  1. Oração do Santo Anjo;
  2. Alma de Cristo (normalmente após a eucaristia);
  3. Maria, ó mãe da graça;
  4. Uso de sacramentais bentos (crucifixo, medalha, terço, escapulário, etc.);
  5. Oremos pelo pontífice;
  6. Salve rainha;
  7. Sinal da cruz.

Durante uma única missa, portanto, pode-se obter muitas indulgências devido à profusão de orações e atos indulgenciados. Sendo mais um motivo para participarmos piedosa e atentamente das missas todos os dias, e não somente em dias de preceito.

Fonte: <https://rumoasantidade.com.br/tenhamos-compaixao-pobres-almas/6-novembro-sofrimento-purgatorio/&gt;

O poder das indulgências não está em obtê-las para si, mas em obtê-las pelos mortos no purgatório, e mais sublimemente, em concedê-las todas a Maria Santíssima, pela consagração a Ela. As indulgências obtidas para si mesmo não são tão eficientes, pois uma indulgência plenária elimina as penas decorridas desde o recebimento da última indulgência plenária. Para os cristãos na Igreja Militante, ainda haverá chances de pecar e constantemente precisaremos de mais ações penitenciais. Entretanto, para os cristãos da Igreja Padecente, não há mais possibilidade de pecar, pois já morreram e estão salvos; por outro lado, também não podem mais praticar obras de penitência com as quais apressar sua saída do Purgatório. Desta forma, um fiel Militante que obtenha uma indulgência plenária e a conceda por sufrágio à uma alma no Purgatório efetivamente a retira daquele local e a envia à presença de Deus! Mas, este ainda não é o uso mais eficaz, pois nós não podemos saber quem está no purgatório, e poderíamos conceder uma indulgência a quem já está em Deus (e não precisa dela), ou já está condenado (e não pode recebe-la). Sendo assim, ao consagrarmos todas as indulgências que recebemos a Maria Santíssima, estamos certos de que ela, como dispensadora das graças divinas, saberá aplica-las às almas do purgatório que mais precisarem, notadamente as que possuem mais penas a expiar.

É fato crido pela Igreja que as almas do purgatório, uma vez que saem de lá pela intercessão dos vivos e passam a estar ao lado de Deus, não cessarão de interceder por aqueles que rezaram para retirá-las de lá. Esta é a sublime equação do amor que nos une na comunhão dos santos. De tal maneira que, ao entregar os frutos de suas penitências àquelas almas, nós ganhamos para nós muitos intercessores no Céu, que nos fortalecerão com suas orações para que não caiamos em vida.

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