AS APARIÇÕES SOBRENATURAIS E AS FANTASIAS DA MENTE HUMANA A IMAGINAÇÃO MEDIADORA 

AS APARIÇÕES SOBRENATURAIS E AS FANTASIAS DA MENTE HUMANA

A IMAGINAÇÃO MEDIADORA
Se Agostinho nega que os vivos e os mortos possam ter a menor comunicação direta, é que ele quer banir toda forma de culto material dos mortos. Todo o fim do tratado refere-se, ao contrário, às preces que os vivos devem dirigir a Deus pela salvação da alma dos mortos. O fenómeno da aparição não é totalmente negado, mas é recolocado em seu justo lugar: pertence ao domínio da “visão espiritual”, que consiste em imagens imateriais produzidas de diversas maneiras possíveis na imaginação do homem, particularmente quando este sonha. E o que Agostinho expõe de maneira sistemática em seu comentário em doze livros do Gênese, onde estabelece a teoria cristã dos três gêneros de visões: as visões ditas “corporais”, “espirituais” e “’intelectuais”. Essa distinção tem uma importância considerável ao longo de toda a Idade Média. Portanto, é preciso deter-se nela.
A teoria agostiniana da visão é herdeira, em parte, das concepções da Antiguidade. Ela exerce a maior influência até o século XII, para combinar-se no século seguinte com as concepções naturalistas de Aristóteles, transmitidas pela ciência árabe. Três tipos de visões constituem uma hierarquia, homóloga à hierarquia das faculdades da alma: a visão corporal depende dos sentidos do corpo; a visão da imaginação; a visão intelectual, da razão pura.
No plano mais baixo, com efeito, a visio corporalis não é mais que o sentido da visão. Ela permite ao homem, por seus sentidos corporais. perceber objetos materiais exteriores a ele. Segundo nossa concepção da visão hoje, desde as descobertas de Kepler no século XVII, a luz solar refletida sobre um objeto provoca na retina um influxo nervoso transmitido ao cérebro. As teorias antigas e medievais eram diferentes. Umas acreditavam na “intromissão”, mas sem a ideia de reflexão
da luz solar: o próprio objeto emite no “meio”, separando-o do olho, species, gêneros de partículas (segundo Democrito e os atomistas) ou puras aparências (segundo o árabe Al Hazen e, depois dele, Roger Bacon, no século XIII). Para falar da forma ou imagem do objeto que vem imprimir-se no olho, Roger Bacon utiliza os termos species. lumen, idolum, phantasma, simulacrum,forma, similitudo, umbra etc. Se a teoria da intromissão não cessou de progredir a partir do século XIII, os cientistas antigos e medievais, desde Platão e seu comentador Chalcidius até Guillaume de Conches no século XII e mesmo além professaram bem mais amplamente a teoria da extramissão: a “virtude natural” e depois “espiritual”, produzida no corpo do homem e conduzida pelo nervo ótico do cérebro até o olho, é uma espécie de raio emitido por este último e enviado através da luz exterior até o objeto; ele toma-lhe a forma e a cor, que reconduz ao olho e, de lá até a alma. Dessa interpretação do poder visual do homem. restarão quando ela se houver tornado definitivamente caduca pelas leis da ótica e da visão retiniana, as concepções populares da “fascinação” e do “mau-olhado. Todas essas noções têm em comum a ideia de uma interação concreta. física, através do meio exterior, do olho e do objeto: Species circulam, penetram no olho que, longe de ser passivo, exerce sua virtus sobre o mundo exterior.
No plano mais alto, a visio intelectualis domina todas as outras visões. já que provém da razão do homem (mens, ratio) e visa à contemplação direta de Deus. Em matéria de visão, esta abisma-se no indizível e no invisível, está além de toda imagem. Os clérigos da Idade Média concordavam em dizer que essa experiência estava reservada a muito poucos: como são Paulo perguntando-se se fora arrebatado até o “terceiro céu, em sou corpo ou fora de seu corpo” (2Cor, 12,2).
Enfim e sobretudo, entre visão corporal e visão intelectual, Santo Agostinho e seus continuadores dão um lugar muito importante
à visio spiritualis pela qual o “espirito” do homem (não os sentidos de seu corpo e tampouco a mens, a parte superior da alma) percebe “imagens” ou “semelhanças” de corpos (e não os próprios corpos). A função da alma que entra em jogo aqui é a imaginatio, poder intermediário e mediador entre sensus e mens, que recebe e elabora imagens. Seu papel é central: cabe-lhe acolher as imagens percebidas pelos sentidos para submetê-las ao julgamento da razão antes de as conservar na memória. Ela pode também representar para si mesma coisas ou seres ausentes, mas que foram precedentemente percebidos pelos sentidos, ou mesmo “imaginar ao sabor de nossa fantasia coisas que não existem absolutamente em parte alguma”. As afecções do corpo e do espirito influem também na imaginação, pois é reconhecido que os doentes sujeitos à febre e os melancólicos têm tais “fantasmas”, alucinações. A discussão sobre as visões e os sonhos comporta, como se vê, várias facetas: a tradição das classificações dos sonhos (de Macróbio a Gregório, o Grande) cruza com o discurso médico oriundo de Galiano e particularmente atento ao papel do corpo na gênese de tais fenômenos.
Se a “visão intelectual” está além das imagens, a visão corporal e a visão espiritual apresentam mais de uma analogia. Uma e outra tratam de imagines, seja em relação com objetos materiais (visão corporal), seja independentemente dessa percepção de objetos (visão espiritual). Esta última não percebe corpos, mas “semelhanças de corpos”, igualmente chamadas species, similitudes, figurae, formae, umbrae; elas são “como corpos” (quasi corpora) sem o ser verdadeiramente. Essas aparências são, durante o sono, as imagens oníricas e toda
espécie de visões e de aparições que os miracula e as exempla relatam em profusão. Enfim, nos loucos e nos doentes, são as alucinações provocadas pela febre.
Schimidt, Jean-claude, os vivos e os mortos na sociedade medieval.

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