O grande cisma da Igreja CatóIica e ortodoxa, uma questão política ou teológica?

O grande cisma da Igreja CatóIica e ortodoxa, uma questão política ou teológica?

Ao longo da história, Constantinopla têm-se mostrado um patriarcado de pouca confiança, antes do grande cisma houveram pequenos cismas, Constantinopla já adotou a heresia Ariana, e por vários momentos mostra-se que não merece confiança, já selaram acordos com Roma para terminar o cisma, mas logo que conseguem sair de um momento de crise voltam a defender com toda sua arrogância ás questões que levaram ao grande cisma que foram orquestrados por Fócio e Miguel Cerulário, vejamos um desses momentos de acordo e também os grandes motivos para o grande cisma.
Vinte e nove anos depois do primeiro concilio de Lyon celebrou-se nesta cidade um segundo, que é o décimo quarto ecumênico, e cujo objetivo principal foi a volta dos gregos à unidade católica. O patriarcado latino unido em Constantinopla acabara em 1261 com o reinado de Balduíno II, que foi expulso por Miguel Paléologo, primeiro imperador da última dinastia grega. Este príncipe, político astuto, precisando da proteção da santa sé, quer contra os maometanos, quer contra o rei da Sicília, que o ameaçava, trabalhou muito para a reunião da Igreja do Oriente com a Igreja latina. Neste intuito, o Papa Gregório X convidou o imperador do Oriente, bem como os outros príncipes católicos, a virem com os bispos gregos ao concílio geral de Lyon. Miguel não não foi, mas mandou embaixadores e vários bispos das primeiras sedes. A assembleia composta de quinze cardeais, quinhentos bispos, setenta abades, perto de mil doutores, e também dos embaixadores de França, Alemanha, da Inglaterra, e e do rei de Aragão pessoalmente. O concílio foi presidido pelo Papa e celebrou-se na catedral de S. João. Todos os prelados da Igreja latina foram ao encontro dos representantes da Igreja grega até fora da cidade, e os conduziram com grande solenidade no ao Papa, que lhes recebeu de pé o lhes deu o ósculo da paz com todos os sinais de um paternal afeto. De seu lado, os gregos tributaram ao Papa todas as homenagens devidas ao vigario de Jesus Cristo. Apresentaram as cartas do imperador e dos bispos do Oriente, e disseram, que vinham render toda. a obediência à Igreja romana e professor a mesma fé com ela. Logo depois da sua chegada, no dia da festa São Pedro, assistiram á missa, que o Papa celebrou na catedral, perante todo o concílio. O símbolo cantou-se primeiramente em latim; os gregos o cantaram depois na sua língua e repetiram três vezes estas palavras: Que procede do Pai e do Filho, Filioque procedit. Todo o orbe, católico exultou de alegria com o concilio de Lyon. S. Boaventura, que estava presente e foi encarregado do pregar o sermão da abertura, tomou para tema estas belas palavras do profeta: « Levanta-te, Jerusalém; dirige as tuas vistas para. o Oriente, e do alto dos montes contempla os teus filhos, que se congregam desde o Oriente até ao Ocidente.» — mas este júbilo durou pouco; pois, em consequência do fanatismo, da ignorância, e das intrigas, que levaram Miguel Paléologo a dissimular ou a variar, as esperanças dadas pela Igreja grega foram frustradas. Depois de algumas perturbações havidas na volta dos deputados,o cisma. manteve-se como de antes.
O segundo concílio de Lyon fez várias constituições concernentes á fé, ás eleições dos bispos, ás ordenações dos clérigos, ao conclave dos Cardeais, á autoridade suprema dos Papas, etc. Eis o seu decreto sobre este último e importante assunto: «A Santa Igreja Romana possuo a soberania e o pleno primado e principado sobre toda a. Igreja católica, e reconhece com verdade e humildade ter a recebido, com a plenitude do poder, do Senhor mesmo, na pessoa de S. Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos, do qual o pontífice romano é sucessor; e da mesma maneira, que esta Igreja é obrigada, sobre todas as outras, a defender a verdade e a fé, e a decidir todas as questões a este respeito. » Vê-se por estas palavras tão claras e formais o que é a Igreja romana, na constituição da. Igreja. católica. E se as controvérsias da fé devem ser decididas pelo Papa, não é ele por isso mesmo Infalível? (D. Gueranger, monarquia pontifical, 1274 — padre RIVAUX, tratado de História eclesiástica, tomo II, 1877)
A união das Igrejas também não se efetivou. Houve um momento em que pareceu que Sim. Miguel VIII Paléologo, ameaçado por Carlos de Anjou – — que, logo depois do caso de Túnis, se lançara sobre a Albânia —, enviou a Gregório X o patriarca Beccos para acabar com o cisma. Declarava aceitar o Credo romano, incluído o Filioque, o uso dos ázimos e o primado do Papa. No Concilio de Lyon de 1274, a reconciliação parecia selada. Na catedral de São João, os prelados gregos, durante a missa cantada, repetiram três vezes o Filioque, para que todos o ouvissem bem.
Mas, no fundo, isso não passava de uma operação política. O clero grego continuava hostil aos latinos, a esse pontífice que “fomentava a impiedade”, a esse “verdadeiro lobo no redil”. Nas igrejas do Oriente, exaltava-se no púlpito Fócio e Cerulário… A partir de 1278, Nicolau III notou uma evidente má vontade em por em prática as decisões dos acordos de Lyon. Com Martinho IV l, inteiramente devotado à política angevina, o equilíbrio desfez-se; Carlos, Filipe de Courtenay e Veneza, com o apoio de Roma, voltaram a fazer uma aliança contra o “pretenso imperador dos gregos”. O Imperador Andrônico II, quando sucedeu a seu pai, tirou a conclusão que impunha: exilou Beccos e os partidários da união, ao mesmo tempo que financiava a revolta anti-francesa que culminaria com as vésperas sicilianas. Perante o islã vencedor, o escândalo do cisma continuava.( Daniel Rops, A Igreja das catedrais e das cruzadas, pág. 532-533, São Paulo, 2014, quadrante)
Um acontecimento capital acabava de abater-se pesadamente sobre a cristandade: destino: o Cisma de 1054. O lento desentendimento que se insinuara no decorrer dos séculos entre as duas metades da Igreja tinha múltiplas causas: evolução diferente dos ritos e práticas, mais fixos e uniformes no Oriente, mais variados no Ocidente; desacordos teológicos cuja importância os dois campos aumentavam a seu bel-prazer, tal como o que havia provocado a introdução da expressão Filioque no Credo por parte dos ocidentais; má vontade do patriarca de Constantinopla em reconhecer o primado da sé de Roma, sobretudo a partir do momento em se tornara o único que contava no Oriente, pois os territórios dos outros patriarcas tinham sido ocupados pelo lslã ( Jerusalém e Alexandria) ou vinham sendo fortemente atacados por ele de (Antioquia); e, finalmente, desprezo não dissimulado dos bizantinos, astutos e letrados, pelos bárbaros do Ocidente.
A ruptura foi provocada pela ambição de um homem: Miguel Cerulário patriarca de Constantinopla. lnteligente até o excesso, de uma sutileza que sabia mascarar uma firmeza de aço, esse homem que, na sua juventude, desejara calçar as sandálias de púrpura do Basileu, uma vez Clérigo. Transferiu para o plano eclesiástico os sonhos da sua ambição: ser o chefe único de uma igreja livre de qualquer controle e na qual se incluíssem todas as dioceses do Oriente. Para atingir esse fim, não teve o menor escrúpulo em lançar mão de todos os meios: habilidades suspeitas, perfídias e violências. Insistindo no que aparentemente separava os cristãos, chamando heresias as mínimas diferenças de expressão, qualificando como escandalosos costumes tão inocentes como o de cortar a barba, trabalhou habilmente para introduzir a cizânia entre as duas partes da Cristandade. O erro dos ocidentais, e principalmente do papa Leão IX, foi não se aperceberem de que o patriarca desejava a ruptura e de que toda a manifestação inoportuna de autoridade o favorecia. Enviando como ligados a Bizâncio dois rudes lorenos, desconhecedores das sutilezas bizantinas o cardeal Humberto, o célebre reformador, e Frederico de Lorena, futuro papa “gregoriano” –, Roma precipitou os acontecimentos. A astúcia e a cautela opuseram-se à falta de moderação e de jeito, sob o olhar indiferente do imperador Constantino IX Monômaco, mais preocupado com a literatura e os encantos femininos do que com discussões teológicas. Quando, em 6 de julho de 1054, o cardeal Humberto, julgando dobrar Cerulário, depôs sobre o altar de Santa Sofia o texto de uma excomunhão, deu a vitória ao patriarca. Valendo-se da indignação provocada por esse gesto, o ambicioso pôde reunir todo ou quase todo o Oriente, desde o basileu ao último dos calafates, contra essa Roma Bárbara e herética que vinha insultar na sua casa os príncipes da Santa Igreja bizantina. E, em 24 de julho, um sínodo oriental promulgou cânones que consagravam a ruptura.
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Essa ruptura foi fatal? De maneira nenhuma. Certamente, as diferenças entre os gregos e latinos eram profundas; as sensibilidades eram dessemelhantes. As atitudes, espiritual e moral no Ocidente, simbolista e escatológica no Oriente, não combinavam. No entanto, os vínculos estabelecidos ao longo dos séculos por trinta gerações uniam ainda as duas partes da Cristandade. No princípio do século XI, pudera-se até constatar uma tendência para a aproximação; o duplo perigo dos normandos e dos turcos, a frequência cada vez maior das peregrinações a Terra Santa, um melhor Conhecimento no Ocidente das origens orientais da espiritualidade, tudo isso contribuía para a unidade. Constantino IX só manifestava respeito e boas intenções para com o Papa de Roma. Por que, então, eclodiu o drama? É preciso reconhecer aqui um desses casos, mais frequentes do que se julga, em que a personalidade de um homem e as suas intenções são decisivas e podem obliterar os destinos durante séculos.
Perante um acontecimento que, na perspectiva do tempo, tem urna importância dramática, qual foi a reação dos contemporâneos? Aperceberam-se eles de que se tratava de um corte doloroso e desastroso que se introduzia no cristianismo? Se Miguel Cerulário tinha querido que fosse assim, a simples ideia do cisma perturbava muitas almas fiéis. Não podemos ler sem emoção a carta que o santo patriarca Pedro de Antioquia escreveu ao seu colega de Constantinopla: “Peço-te”, escreve ele, “suplico-te, adjuro-te, e em pensamento lanço-me aos teus joelhos sagrados, rogando-te que a tua divina Beatitude ceda a este golpe e se dobre ás circunstâncias. Tremo só de pensar que, querendo curar esta ferida, ela pode degenerar em coisa pior, no cisma, ou que, procurando erguer o que está abatido, se prepare uma queda ainda maior. Considera o que resultará evidentemente de tudo isto, quer dizer, desta imensa divergência, que acabará por separar da nossa santa Igreja essa sé magnânima e apostólica. A maldade passará a invadir a Vida e o mundo inteiro será subvertido. Se os dois reinos da terra estiverem mergulhados na intranquilidade, poo toda a parte haverá lágrimas abundantes; os nossos exércitos em parte alguma serão vitoriosos”.
Palavras admiráveis e proféticas! Mas não foi apenas Pedro de Antioquia quem se exprimiu desta forma; Jorge o Hagiorita declarava perante o imperador Constantino Ducas, em 1064, que a fé dos latinos não sofrera qualquer desvio e que o uso do pão fermentado no Oriente só se tornara necessário para provar a certos extraviados que o corpo do Senhor possuía alma e razão, respectivamente simbolizadas pelo fermento e pelo sal misturados a farinha. Joao ll, metropolita de Kiev, reconhecia que os erros de que os ocidentais eram acusados não feriam os dogmas. Teofilacto, arcebispo de Ácrida na Bulgária, no seu tratado sobre os erros dos latinos, dizia formalmente que esses “erros” não podiam justificar um cisma, criticava duramente a orgulhosa pretensão dos teólogos orientais e afirmava que, no fundo da questão, havia sobretudo rivalidades pessoais ou raciais.
Mas, ao lado dessas vozes serenas, quantas outras injustas e apaixonadas! O fosso do cisma foi aprofundado, como por prazer, pela maldade e pela estupidez. Houve, em Bizâncio, homens, teólogos, que, incapazes de compreender o Ocidente, ou não desejando compreendê-lo, continuaram o trabalho de Miguel Cerulário, acumulando calúnias e acusações sem fundamento. Basta consultar um dos inumeráveis tratados que apareceram então para medir a sua fraqueza e tantas vezes a sua abjeção. Os agravos articulados nessa espécie de libelo são em número de vinte e oito, nem um a menos! Os seis erros maiores, tirados da argumentação de Fócio, referem-se aos ázimos (pão fermentado ou não? Grave questão…), à processão do Espirito Santo, à Confirmação separada do Batismo, às infrações ao jejum da Quaresma e ao do sábado, e, por fim, ao celibato dos padres. Mas, a essas acusações fundamentais, os panfletários acrescentam atabalhoadamente outras, sempre sob o sopro da mesma indignação. Durante os ofícios, os padres latinos têm uma compostura pouco conveniente, levam a luxúria ao ponto de raspar a barba em vez de deixá-la crescer, e o celebrante chega ao altar com a cabeça coberta, o que é verdadeiramente escandaloso; além disso, os fiéis ousam benzer-se com cinco dedos, quando todos sabem que devem fazê-lo apenas com três; e, finalmente, os bispos do Ocidente, quando morrem, são expostos no caixão sem as mãos juntas… E é por bagatelas desse género que o Oriente passará a julgar Ocidente…
( Daniel Rops, A Igreja das catedrais e das cruzadas, pág. 532-533, São Paulo, 2014, quadrante)

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