A GRAÇA ME FEZ CATÓLICO

A GRAÇA ME FEZ CATÓLICO

A GRAÇA

A lei da graça é como a atmosfera que dá oxigênio a toda a teologia católica; mais: o próprio conceito de teologia inclui o da graça, porque o cristianismo é uma religião revelada
produto da razão humana, mas um dom
de Deus comunicado ao homem para lhe confidenciar Sua vontade misericordiosa. A teologia cristã, propriamente dita, nasce do estudo da Revelação, isto é, do debruçar-se sobre o que Deus revelou, de modo inteiramente gratuito, sobre Si mesmo, sobre o homem, sobre seu destino e do mundo.

Sem esta Mensagem vinda dos céus, e portanto sem a graça, é inconcebível a existência da teologia cristă, porque a a Revelação, a que deve corresponder, da parte do homem, a humilde aceitação dos mistérios da Fé, é um conhecimento sobrenatural que eleva a humanidade a um novo modo de existir superior, intangível só por seus recursos naturais.

E a Revelação que nos diz o que Deus quis ser para o homem para Ele: um amigo pessoal e próximo,. que se comunica no amor e na
familiaridade recíproca, que Se dá ao homem numa doação absolutamente insuspeitada que penetra até o íntimo da natureza humana para elevá-lo às alturas inacessíveis em que habita a Trindade, onde então participará eternamente
de uma vida semelhante à de Deus.

Esta antropologia cristã é ensinada pela Sagrada Escritura quando narra que o homem foi constituído na justiça original, mas que a perdeu pelo pecado. Sem a noção da graça é impossível compreender esta antropologia e os problemas
que Ihe são inerentes na dialética cristã do natural- sobrenatural, da natureza-graça,
próximo, que Se comunica no amor e na, muito menos ainda se pode compreender o que seja o pecado como ruptura transcendental das relações de amizade com um Deus que Se tinha dado gratuitamente ao homem. O Deus que infunde a graça não é, porém, um ser abstrato, um motor imóvel: é o único Deus verdadeiro e pessoal: Pai, Filho e Espirito Santo. Donde se conclui que a graça traz consigo a vida
íntima do grande mistério da Trindade, porque ela é, na sua essência profunda, a doação das três Pessoas divinas que penetram no homem transformando-o num templo.

O pecado rompe esta comunhão sobrenatural com Deus: consumado o pecado, jamais poderia o homem, por suas próprias forças, restabelecer uma uma relação a que não tinha direito e por culpa sua perdeu, tanto para si como para os seus descendentes. Por isso, já desde o
início dos tempos se delineia a expectativa de um Salvador, que outro não é senao o
próprio Filho de Deus, que Se encarna para reintegrar a humanidade na intimidade com
Deus por meio de Sua morte e ressurreição: “Mas quando chegou plenitude dos tempos Deus enviou Seu Filho […] para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4, 4.5).
A graça toma assim uma coloração essencialmente cristológica e, desde as origens da humanidade, é conexa com a Obra
de Cristo Salvador. Outra finalidade não tem qualquer ação de Jesus senão o superabundante restabelecimento da primitiva comunhão sobrenatural com Deus: “mas onde abundou o pecado superabundou a graça” (Rm 5, 20).
Consuma-se a doação de Deus por meio da doação filial do Verbo Encarnado, o
primeiro de uma multidão de irmãos que constituem a grande família dos filhos de Deus,
da qual Ele é a Cabeça: constituída visivelmente,
esta é a Igreja, povo de Deus, em que se desenrola a vida humana, mas ao mesmo tempo
instrumento eficaz da graça divina, que é, na realidade, graça de Cristo. Jesus fundou a Igreja dando-lhe o caráter sacramental, capaz de alcançar o homem em cada instante de sua vida: tais são os sacramentos.

Os santos que a Igreja venera são pessoas que foram dóceis ao dom de Deus: neles se contempla o modelo original do que pode ser a alma humana que não interpõe obstáculos à graça, porque a santidade, a que todos são
chamados, outra coisa não é senão o fruto pleno da graça, que no seu desenvolvimento harmônico alicerça as grandes virtudes cristas.

Finalmente, a graça tem uma consumação final, individual, social e até cósmica na vida sem fim e na bem-aventurança eterna, com a dimensão corporal na ressurreição da carne.

A graça, portanto, envolve toda a história da salvação, que conhecemos pela Revelaçao; ao mesmo tempo pressupõe a colaboração do homem: aqui nascem os delicados problemas do harmonioso equilibrio que protege a liberdade humana. Surge também a questão de saber se o homem pode chegar, por si so, a estes fins
sobrenaturais: “E se foi pela graça, não foi pelas obras; do contrário, a graça já não seria graça” (Rm 11, 6).
Por tudo isso, voltamos à verdade inicialmente afirmada: a teologia católica respira inteiramente numa atmosfera de graça.

A EXISTÊNCIA HUMANA ENTRE PECADO E GRAÇA

sob o domínio do pecado e da morte

O pecado como oposição à condição de criatura do ser humano
“O pecado de Adão, que é um só quanto a origem” (DH)

A partir da história da perdição real da humanidade pode medir-se, do alto do mistério da redenção em Cristo, o abismo inteiro, ou seja, de que é evidente que o “primeiro ser humano” como expoente da humanitas originans) categorializou de maneira negativa sua liberdade apriorista e aberta para Deus em face da oferta do amor e da graça.

Assim, o “principio da história” é determinado pela contradição do ser humano com sua condição de criatura e sua constituição em “santidade e justiça”. A incipiente história da liberdade iniciante se transformou por meio
do pecado original numa história da perdição.

Se a autorrevelação de Deus como criador e a comunicação de sua vida divina alguma vez se tornou concreta no modus da livre recepção no mundo ou se ela se apresentou na autorreflexão espiritual como a livre auto-oferta de Deus dada com sua existência espiritual, é uma questão que permanece em aberto na teologia.

numa história da perdição.
Isto se aplica também à questão do intervalo temporal entre a constituição no estado original e o pecado original.

O conceito do pecado original não pode ser considerado no sentido de uma ação pecaminosa, uma transgressão dos mandamentos de Deus.

O “verdadeiro e próprio caráter de pecado” (DH 1515) se refere, formalmente, no caso do pecado original, à livre recusa, realizada em vista da graça, da condição de criatura como a relação transcendental fundamental com Deus.

Ainda que, na linguagem figurada, o pecado original possa ser designado “transgressão de um preceito” (Rm 5,14), no caso da proibição de “comer do fruto da árvore, que está no meio do jardim” (Gn 3,3), contudo, é evidente que não se trata de um preceito concreto da legislação moral, mas do respeito aos limites do ser humano em relação a Deus, que lhe são impostos por meio de sua condição de criatura. (Por isso, também a história da queda no pecado nada tem a ver com a antiga noção de um furto de uma fruta, ao que Deus teria imposto um castigo absolutamente desproporcional.) A natureza do pecado original se aclara a partir da tentadora intenção de tornar-se “como Deus” e pretender um poder de disposição sobre o “conhecimento do bem e do mal” igual ao
de Deus (Gn 3,5).

O núcleo do pecado original consiste, portanto, em que “pela desobediência de um só homem todos se fizeram pecadores” (cf. Rm 5,19).
“Desobediência” não significa aqui a falta de obediência dos filhos diante dos pais ou o não cumprimento da ordem de um superior. Significa, antes, a negação da autotranscendência natural da vontade criada para a unidade com Deus, seu criador, do encontro com Ele como a origem da vida e do amor (cf. Rm 5,21; 8,39 e outros), portanto, a perversão da capacidade positiva de escutar (da potentia oboedientialis activa) que visa à consumação pessoal.

O pecado original é, em suma, o ato espiritual interior que reconhece a referência da criatura a Deus e, em oposição estrita a ela, Deus. Por isso, o pecador não só incorre numa oposição a Deus, mas também numa insolúvel oposição a si mesmo. O afastamento de Deus torna o ser humano um pecador e o entrega à corrupção, à escravidão, à perdição (Rm 8,19-21) e à morte, que é o salário do pecado (Rm 6,23). Está dominado pela “lei do pecado e da morte” (Rm 8,2).

As consequências do pecado original

Como consequência fundamental do pecado de Adão aparece a expulsão do ser humano do paraíso, ou seja, a perda das relações de confiança do ser humano com Deus (Gn 3,23s.). O ser humano não tem mais acesso à “árvore
da vida” e, assim, está sujeito ao poder da morte com sua finitude (Sb 2,23s.). A sentença pronunciada contra a mulher e contra Adão tem como consequência uma dificuldade maior na realização das tarefas naturais estabelecidas para o ser humano, ou seja, a paternidade e o cultivo, mediante o trabalho, de seu espaço vital, bem como uma desestabilização das relações inter-humanas (Gn 3,14-19; 4-11).

Paulo descreve, sobretudo na Carta aos Romanos, a consequência do pecado original como a “perda da glória de Deus” (Rm 1,22-24; 3,3) que atinge todos os seres humanos. Por isso, todos atraíram sobre si a “ira de Deus”
Rm 1,18; 2,5), isto é, seu justo juízo sobre os pecados. A “ira” de Deus não significa, contudo, que Deus estaria dominado por sentimentos e desejos de vingança ou pelo afa de desforra. Na “ira”, Deus revela que todos os seres humanos dependem e necessitam do perdão dos pecados. A “ira de Deus” é a revelação de sua glória em oposição do pecado e, assim, o primeiro chamado à conversão e ao arrependimento (metanoia).

No lugar da “justiça e santidade” originais, encontra-se no pecador agora a “impiedade e a injustiça” (Rm1,18). Aquele ser humano, amigo e filho, tornou-se um “inimigo de Deus” (Rm 5,10). A liberdade e a glória originais dos filhos de Deus (Rm 8,21) se degenerou na perdição e na servidão do pecador. Se, originalmente, fora
concedidos ao ser humano os dons da glória, da honra, da incorrupção e da paz (Rm 2,6; 1Cor 15,49; Sb 2,23), agora só se lhe concede a necessidade e dificuldade, porque ele faz o mal (Rm 2,6; cf. Tb 12,10: “Aqueles que cometem
pecado e injustiça são inimigos de si mesmos.”).

Se a dádiva de Deus é a vida eterna em Cristo, o salário do pecado é a morte (Rm 6,23), O ser humano sob a lei do pecado deve considerar a morte como o último e mais funesto inimigo (1Cor 15,26).

Deus não aplica ao pecador sanções exteriores ou castigos humilhantes (pena vindicativa). Deus simplesmente o abandona às consequências negativas interiores do pecado. Ele “os entregou aos desejos do coração, à impureza” (Rm 1,24) ou ao seu “sentimento depravado”, que os leva a cometer “injustiça, malícia, avareza e maldade,
inveja, homicidio, discórdias, fraudes e malvadezas” e faz com que sejam murmuradores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, fanfarrões, maquinadores do mal, rebeldes contra os pais, insensatos, desleais, sem coração nem misericórdia” (Rm 1,28-31).

Isto tem o sentido de “encerrar a todos na desobediência para usar com todos de misericórdia” (Rm 11,32).

A nova existência no Espírito de Deus e de Cristo conduz, por outro lado, à vida. Onde Jesus Cristo condena em sua carne, o pecado e rompeu com seu poder, superou também o poder da “carne”, ou seja, a autorreferência alienada de Deus. “Ora, a tendência da carne é a morte, enquanto a tendência do espírito é a vida e a paz. Pois o
desejo da carne é hostil a Deus. A carne não se sujeita nem pode sujeitar-se à Lei de Deus” (Rm 8,6s.).

Recorrendo ao Concílio de Cartago, do ano de 418 (DH 222-224), ao Indiculus (DH 239) e ao II Concílio de Orange, do ano de 529 (DH 371s.), o Concílio de Trento, no cânon 1 do Decreto sobre o pecado original, ensina:

“Se alguém não admite que o primeiro homem, Adão, tendo transgredido no paraíso a ordem de Deus, perdeu imediatamente a santidade e a justiça nas quais tinha sido constituído (constitulus), e que, por este pecado de prevaricação, incorreu na ira e na indignação de Deus e, por isso, na morte com que Deus o havia ameaçado anteriormente, e, com a morte, na escravidão sob o poder daquele que depois ’teve o domínio da morte’ (Hb 2,14), isto é, o diabo; e que o Adão inteiro por aquele pecado de prevaricação mudou para pior, tanto no corpo como na alma (secundum corpus et animam in deterius com commutatum), seja anátema
(DH 1511)

Dh

Cân. 7. Igualmente foi decidido: Quem afirmar
que os santos, quando na oração do Senhor dizem:
“Perdoa-nos as nossas dívidas” [Mt 6,12), o digam não em favor de si mesmos, já que para eles esta oração já não é necessária, mas pelos outros de seu povo, que são pecadores; e que cada santo não diz:
“Perdoa-me os meus pecados”, mas “Perdoa-nos os nossos pecados”, para que se compreenda que o justo pede isto antes pelos outros que para si mesmo, seja anátema. Santo e justo era de fato o Apóstolo Tiago quando dizia: “Em muitas coisas todos nós erramos” [Tg 3,2]. Pois por qual motivo foi acrescentado “todos”, senão porque com esta afirmaçao está de acordo também o Salmo onde se lê: “Nao entres em juízo com teu servo, porque diante de tua face nenhum vivente será justificado” [Sl 143,2]? E na oração do sapientíssimo Salomão: “Não há ser
humano que não tenha pecado” {IRs 8,46]. E no
livro do santo Jó: “Na mão de cada homem põe uma marca, para que cada um conheça sua fraqueza” (Jó 37,7). Por isso, também o santo e justo Daniel diz, na oração em forma plural: “Pecamos, cometemos iniquidade” [Dn 9,5.15]
ele confessa com veracidade e humildade;
para que não se pensasse, como alguns entendem, que o tivesse dito dos seus pecados e não dos do povo, diz mais adiante: “Enquanto eu
confessava os meus pecados e os pecados do meu povo” [Dn 9,20] ao Senhor meu Deus; não quis dizer “os nossos pecados”, mas falou dos pecados do seu povo e dos seus, pois como profeta previu que haveria quem o entendesse mal.

            Conclusão

Em uma audiência em 2014 o Papa Francisco falou com muita clareza sobre a Santidade.

“Um grande dom do Concílio Vaticano II foi ter recuperado uma visão de Igreja fundada na comunhão e ter voltado a entender também o princípio da autoridade e da hierarquia em tal perspectiva. Isto ajudou-nos a compreender melhor que, enquanto baptizados, todos os cristãos têm igual dignidade diante do Senhor e são irmanados pela mesma vocação, que é a santidade (cf. Const. Lumen gentium, 39-42). Agora, interroguemo-nos: em que consiste esta vocação universal a sermos santos? E como a podemos realizar?

Antes de tudo, devemos ter bem presente que a santidade não é algo que nos propomos sozinhos, que nós obtemos com as nossas qualidades e capacidades. A santidade é um dom, é a dádiva que o Senhor Jesus nos oferece, quando nos toma consigo e nos reveste de Si mesmo, tornando-nos como Ele é. Na Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo afirma que «Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para a santificar» (Ef 5, 25-26). Eis que, verdadeiramente, a santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo: é redescobrir-se em comunhão com Deus, na plenitude da sua vida e do seu amor. Então, compreende-se que a santidade não é uma prerrogativa só de alguns: é um dom oferecido a todos, sem excluir ninguém, e por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão.

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