A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX)

A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX)

Durante o reinado de Nabucodonosor (Foi Rei da Babilônia no séc. VI a.C.), as Escrituras Sagradas hebraicas foram perdidas, por ocasião do cativeiro imposto ao povo judeu, que em aproximadamente 587 a.C. foi deportado de Jerusalém para a Babilônia. As Escrituras foram novamente constituídas no tempo do Profeta Esdras, durante o reinado de Artaxerxes (cf. Esd 9,38-41).O conjunto de manuscritos hebraicos mais antigos que chegaram até nosso tempo, é conhecido como Texto Massorético. Nesta compilação das Escrituras, o texto foi transcrito com a omissão das vogais. Com origem no séc. VI, o Texto Massorético possui este nome por ter sido desenvolvido por um grupo de judeus conhecidos como Massoretas; que deste então se tornaram os responsáveis em conservar e transmitir o texto bíblico hebraico.Bem anterior ao Texto Massorético, se conservou até nosso tempo, a versão Grega das Escrituras Hebraicas conhecida como Septuaginta ou Versão dos Setenta (LXX). Vertida, aproximadamente no séc. III a.C. para grego a partir dos mais antigos manuscritos hebraicos (hoje não mais disponíveis), o valor histórico da Septuaginta é inestimável e de profunda importância para a identificação do Cânon Bíblico Cristão.Origem da Septuaginta Ptolomeu II Filadelfo (287-247 a.C.), rei do Egito, encomendou especialmente para sua Biblioteca em Alexandria (Fundada por Alexandre, o Grande tornou-se o grande centro cultural e comercial do império helênico), uma tradução grega das escrituras sagradas dos judeus. Esta foi a primeira tradução feita dos livros hebraicos para uma outra língua. A tradução do hebraico para o grego, segundo a tradição, foi feita por 72 escribas durante 72 dias, por isso possui o nome Septuaginta que significa “Tradução dos Setenta”. A primeira menção à versão da Septuaginta encontra-se em um escrito chamado “Carta de Aristéias”. Segundo esta carta, Ptolomeu II Filadelfo tinha estabelecido recentemente uma valiosa biblioteca em Alexandria. Ele foi persuadido por Demétrio de Fálaro (responsável pela biblioteca) a enriquecê-la com uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Para conquistar as boas graças deste povo, Ptolomeu, por conselho de Aristéias (oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão por religião) emancipou 100 mil escravos, de diversas regiões de seu reino. Então, enviou representantes (entre os quais Aristéias) a Jerusalém e pediu a Eliazar (o Sumo Sacerdote dos judeus) para que fornecesse uma cópia da Lei e judeus capazes de traduzi-la para o grego. A embaixada obteve sucesso: uma cópia da Lei ricamente ornamentada foi enviada para o Egito, acompanhada por 72 peritos no hebraico e no grego (seis de cada Tribo) para atender o desejo do rei. Estes foram recebidos com grande honra e durante sete dias surpreenderam a todos pela sabedoria que possuíam, demonstrada em respostas que deram a 72 questões: então, eles foram levados para a isolada ilha de Faros e ali iniciaram os seus trabalhos, traduzindo a Lei, ajudando uns aos outros e comparando as traduções conforme iam terminando. Ao final de 72 dias, a tarefa estava concluída. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e povo, reunidos em Alexandria; a tradução foi reconhecida por todos e declarada em perfeita conformidade com o original hebraico. O rei ficou profundamente satisfeito com a obra e a depositou na sua biblioteca.Comumente se acredita, que a Carta de Aristéias foi escrita por volta de 200 a.C., 50 anos após a morte do Rei Filadelfo.Não há ainda entre os estudiosos um consenso sobre a origem e autenticidade desta carta. Embora a grande maioria considere seu conteúdo fantasioso e lendário, questiona-se se não há algum fundamento histórico disfarçado sob os detalhes lendários. Por exemplo, hoje se sabe com certeza que o Pentateuco foi mesmo traduzido em Alexandria.

DIFUSÃO E REVISÕES 
Pelo fato de serem pouquíssimos os Judeus que ainda possuíam conhecimento da língua hebraica, principalmente após o domínio helenista (entre os séculos IV e I a.C.) onde o koiné (grego popular) era o idioma falado, a Septuaginta foi bem acolhida, principalmente pelos judeus alexandrinos que foram os seus principais difusores, pelas nações onde o grego era falado. A Septuaginta foi usada por diferentes escritores e suplantou os manuscritos hebraicos na vida religiosa (JAEGER, 1991).Em razão de sua grande difusão no mundo helênico (tanto entre judeus, filósofos gregos e cristãos), as cópias da Septuaginta passaram a se multiplicar, dando origem a variações contextuais.Orígenes “Orígenes de CesaréiaOrígenes nasceu em Alexandria por volta de 190. Em Cesaréia é ordenado sacerdote em 231 pelo Bispo Alexandre. É considerado o criador da Ciência Bíblica. Deixou-nos muitíssimas obras, das quais algumas se perderam e outras foram conservadas por escritores posteriores. Ele relacionou os livros canônicos da seguinte forma:“ ‘Observe-se que os livros do Antigo Testamento, segundo a tradição hebraica, são vinte e dois, número das letras de seu alfabeto’. (…) Os vinte e dois livros, conforme os hebreus, são os seguintes: O livro que damos o título de Gênesis, entre os hebreus traz inscrito, de acordo com as palavras iniciais: Bresith, que significam “No começo”; Êxodo, Ouellesmoth, isto é, “Eis os nomes”, Levítico, Ouicra, isto ê, “Ele me chamou”; Números, Ammesphecodeim; Deuteronômio, Elleaddebareirrv “Estas são as palavras”; Jesus, filho de Navé [Josué], Iosouebennoun; Juizes, Rute, entre elesformamumsó livro, Sophteim; Reis primeiro e segundo livros, entre eles um só, Samuel: “O eleito de Deus”; Reis, terceiro e quarto livros, em um só, Ouammelch David, isto é: “Reino de Davi”; Paralipômenos [Crônicas], primeiro e segundo livros, em um só, Dabreiamein, isto é, “Palavra dos dias”; Esdras, primeiro e segundo livros34, em um só, Ezra, isto é, “Auxiliar”; Livro dos Salmos, Spharthelleim; Provérbios de Salomão, Meloth; Eclesiastes, Koeleth; Cântico dos Cânticos – e não como alguns julgam, Cântico dos Cânticos -, Sirassereim ; Isaías, Iessia; Jeremias, com as Lamentações e a Carta em um só livro35, Iéremia; Daniel, Daniel; Ezequiel, Ezechiel; Jó, Job; Ester, Esther. Além destes, os Macabeus, intitulados Sarbethsabanaiel'” .Curiosamente Orígenes não cita os 12 profetas. Os judeus normalmente organizavam seus livros sagrados em 22 volumes, conforme o número de letras do alfabeto hebraico36. Como os livros sagrados são mais que 22 alguns livros eram agrupados como um único volume. A omissão dos 12 Profetas se deve provavelmente por estarem agrupados a outros livros, provavelmente Isaías, conforme veremos em outras coleções mais adiante37. A omissão de Baruc ê o mesmo caso, pois normalmente figurava como apêndice do livro de Jeremias. Isto se atesta ainda mais pelo fato de que a Epístola de Jeremias foi mencionada, e os dois livros sempre estiveram juntos (Nas Biblias Católica e Ortodoxa, a Epístola de Jeremias é apêndice de Baruc, mantendo assim a organização original conforme consta na Septuaginta) “Dos deuterocanônicos do AT faz referência apenas aos livros dos Macabeus.Outros escritos de Orígenes mostram que a Igreja considerava outros livros canônicos além dos livros supracitados:“5. […]Nós [cristãos] procuramos não ignorar quais são as Escrituras dos judeus afim de que, ao disputarmos com eles, não citemos as que não se encontram nos exemplares deles, mas sim aquelas de que eles se servem f../’39 (ORIGINES, 2004).Este trecho é de sua Carta a Júlio Africano40, onde Orígenes defende a canonicidade dos acréscimos ao Livro de Daniel, que mais (arde serão defendidos também por São Jerônimo. Os judeus de Jâmnia recusaram estes acréscimos em seu Cânon.Quanto ao NT escreve:“Conforme aprendi da tradição sobre os quatro Evangelhos, os únicos também indiscutíveis na Igreja de Deus que há sob os céus, foi escrito em primeiro lugar o evangelho segundo Mateus; este anteriormente fora publicano e depois Apóstolo de Jesus Cristo. Ele o editou para os fiéis vindos do judaísmo, redigindo-o em hebraico. O Segundo é o Evangelho segundo Marcos, que escreveu conforme as narrações de Pedro, o qual o nomeia seu filho [segundo o espírito] na carta católica, nesses termos: ‘A que está em Babilônia [Roma], eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho’ [cf lPd !>, 13]. E o terceiro é o Evangelho segundo Lucas, elogiado por Paulo [cf. 2Cor 8,18-19; 2Tm 2,8; Cl 4,14] e composto para os fiéis provenientes da gentilídade. Enfim, o Evangelho segundo João” (Ibid., p.313).Pelo testemunho de Orígenes os 4 Evangelhos são reconhecidos como canônicos em toda Igreja (“os únicos também indiscutíveis na Igreja de Deus que há sob os céus”). Estas palavras testemunham haver ainda outros evangelhos, no entanto não consensualmente aceitos.Ainda sob a estreita de Eusébio:“No quinto livro dos Comentários ao Evangelho segundo João, o mesmo Orígenes declara o seguinte acerca das Epístolas dos apóstolos: ‘Paulo, digno ministro do Novo Testamento, não segundo a letra, mas segundo o espírito, depois de ter anunciado o evangelho desde Jerusalém e suas cercanias até o Ilírico [cf. Rm 15,19], não escreveu a todas as Igrejas que ele havia instruído; mesmo àquelas que escreveu, enviou apenas poucas linhas” (Ibid. p. 313).Aqui Orígenes reconhece como canônicas as cartas paulinas, embora não cite quais são. Quanto à controversa carta aos Hebreus, registrou Eusébio:“Finalmente, extema-se da seguinte maneira sobre a Carta aos Hebreus, nas Homilias proferidas a respeito desta última; ‘O estilo da epístola intitulada Aos Hebreus carece da marca de simplicidade de composição do Apóstolo, que confessa ele próprio ser imperito no falar, isto é, no fraseado [cf. 2Cor 11,6]; no entanto, a carta é grego do melhor estilo, e qualquer perito em diferenças de redação o reconheceria. Efetivamente, os conceitos da Epístola são admiráveis e em nada inferiores aos das genuínas cartas apostólicas. Há de concordar quem ouvir atentamente a leitura das cartas do Apóstolo’. Mas adiante [diz Eusébio], [Orígenes] adita essas afirmações: ‘Mas, para exprimir meu próprio ponto de vista, diria que os pensamentos são do Apóstolo, enquanto o estilo e a composição originam-se de alguém que tem presente a doutrina do Apóstolo, e por assim dizer, de um redator que escreve as preleções de um mestre. Se, portanto, uma Igreja tem por certo que a carta provém do Apóstolo [Paulo], felicito-a, pois não será sem fundamento que os antigos a transmitiram como sendo da autoria de Paulo. Entretanto, quem escreveu a carta? Deus o sabe. A tradição nos transmitiu o parecer de alguns de ter sido  redigida por Clemente, bispo de Roma [e discípulo de Pedro e Paulo], outros opinam ter sido Lucas, o autor do Evangelho e dos Atos”’ (Ibid., p. 314).Como podemos ver, embora seja controversa a autoria da Carta aos Hebreus, Orígenes não só a. considerava canônica, como afirma que este é o mesmo parecer dos presbíteros que o antecederam. Observem que quanto ao livro dos Atos dos Apóstolos, Orígenes apenas mostra que o conhece, mas não emitiu seu parecer quanto ã canonicidade do livro.Ainda sob a pena de Eusébio, sobre os outros livros afirma Orígenes:“Pedro, sobre quem está edijicada a Igreja de Cristo, contra a qual não prevalecerão as portas do inferno [cf. Mt 16,18], deixou apenas uma carta incontestada, e talvez ainda outra, porém controvertida” (Ibid., p. 313).Orígenes não só reconhece a canonicidade da primeira epístola de São Pedro, como declara que o mesmo é o parecer comum da Igreja em seu tempo. E quanto à segunda Epístola que hoje se encontra em nosso cânon, ele afirma que não é aceita por todos. Identificamos então o terceiro livro deuterocanônico do NT.Orígenes continua:“Que dizer de João, que reclinou sobre o peito de Jesus [cf Jo 13,25; 21,20], deixou um evangelho, assegurou ser-lhe possível compor mais livros do que poderia o mundo conter [cf. 21,25], e escreveu o Apocalipse, mas recebeu a ordem de se calar e não escrever as mensagens das vozes das sete trombetas [cf. Ap 10,4]?’ (Ibid., p. 313-314).Aparece aqui afirmar a canonicidade do Apocalipse de João. Ainda:“Legou-nos também uma Carta de muito poucas linhas e talvez outra e ainda terceira, pois nem todos admitem que estas sejam autênticas; aliás, as duas juntas não abrangem cem linhas” (Ibid., p.314).Quanto às cartas de São João Apóstolo e Evangelista, Orígenes diz que comumente era reconhecida como canônica somente a primeira carta. Ainda não havia na Igreja antiga um parecer comum quanto à canonicidade das outras duas. Identificamos aqui mais dois livros deuterocanônicos do NT: a segunda e terceira epístola de São João.”, motivado pela necessidade de restaurar o texto à sua condição original, dá origem à sua revisão que ficou registrada em sua famosa obra, conhecida como Hexápla (Recebe este nome por dispor do texto do AT em 6 colunas distintas, cada uma conforme uma tradução hebraico, a LXX, versão de Áquila, versão de Símaco, versão deTeodocião, e outra de menor importância. Foi perdida restando em nossos dias somente alguns fragmentos.)
Luciano, sacerdote de Antioquia e mártir, no início do séc. IV publicou uma edição corrigida de acordo com o hebraico; tal edição reteve o nome de koiné, edição vulgar, e, às vezes, é chamada de Loukianos, após o nome de seu autor Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou, quase que ao mesmo tempo, uma nova revisão, difundida principalmente no Egito.Os Manuscritos Os três manuscritos mais conhecidos da Septuaginta são: o Vaticano (Codex Vaticanus), do séc. IV; o Alexandrino (Codex Alexandrínus), do séc. V, atualmente no Museu Britânico de Londres; e o do Monte Sinai (Codex Sinaiticus), do séc. IV, descoberto por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, em 1844 e 1849, sendo que parte se encontra em Leipzig e parte em São Petersburgo.Todos foram escritos em unciais ( Letras maiúsculas). O Codex Vatícanus é considerado o mais fiel dos três; é geralmente tido como o texto mais antigo, embora o Codex Alexandrinus carregue consigo o texto da Hexapla e tenha sido alterado segundo o Texto Massorético. O Codex Vatícanus é referido pela letra B; o Codex Alexandrinus, pela letra A; e o Codex Sinaiticus, pela primeira letra do alfabeto hebraico [Aleph] ou S.

Os livros que estão presentes na Septuaginta, conforme a ordem original: Gênesis, Êxodo, Levitico, Números, Deuteronômio, Josué, Juizes, Rute, 1 Samuel (1 Reis), 2 Samuel (2 Reis), 1 Reis (3 Reis), 2 Reis (4 Reis), 1 Crônicas (1 Paralipômenos), 2 Crônicas (2 Paralipômenos), 1 Esdras, 2 Esdras (Esdras e Neemias), Ester, Judite, Tobias, 1 Macabeus, 2 Macabeus, 3 Macabeus, 4 Macabeus, Salmos, Odes, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Job, Sabedoria, Eclesiástico (Sirac), Salmos de Salomão, Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruque, Epístola de Jeremias, Ezequiel, Suzana12, Daniel, Bel e o Dragão (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2003, XII-XIII).É importante notar que o conjunto de livros da Septuaginta é bem maior do que qualquer versão do AT disponível nas Bíblias Protestantes. O que isto necessariamente significa? Será que o catálogo da LXX corresponderia a um cânon bíblico conhecido e utilizado pelos antigos Judeus? Sim! Jesus e os Apóstolos utilizaram este catálogo mais amplo de Escrituras Sagradas? Sim.
LIMA, Alessandro Ricardo. 1975O Cânon Bíblico: A Origem da Lista dos Livros Sagrados. Brasília, DF: 2007.

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