CELIBATO, TEOLOGIA E HISTÓRIA DA IGREJA

Nos últimos tempos, sobretudo em razão das matérias tratadas no Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica no Brasil, somando-se ao recente anúncio da publicação do livro “Do fundo do nosso coração” (tradução livre) do Cardeal Robert Sarah, com participação do Papa Emérito Bento XVI, o tema do celibato sacerdotal tem sido alvo de intensas discussões.

om a concepção moderna de sexo absolutamente diferente daquela prevista pela doutrina cristã, não raro é possível testemunhar discursos apontando o celibato como uma doutrina estranha à palavra do Evangelho (sobretudo nos círculos literalistas/ fundamentalistas) e à Tradição, ou ainda como um “capricho” da profissão ocidental do catolicismo, dado que sacerdotes chamados “viri probati” (casados ordenados ao sacerdócio) são permitidos na Igreja Oriental, entre outros diagnósticos.

O intuito deste breve texto é trazer luz a alguns fatos aparentemente desconhecidos ou ignorados pela maior parte dos fiéis e debatedores do tema. Enfocaremos, obviamente, a compreensão feita pela Tradição da Igreja, em seu desenvolvimento e sua interpretação das Escrituras, bem como seu testemunho histórico, válidos segundo a autoridade concedida por Nosso Senhor (Lc 10,16) àquela que é o sustentáculo da Verdade (I Tm 3,15).

Em primeiro lugar, é importante saber de forma precisa o que é o celibato. O termo provém do latim caelebs, caelibātus ou coelibātus, algo como “estado de solteiro”. No contexto eclesiástico designava o estado de abstinência sexual, também chamado estado de continência. Esta concepção é notadamente diferente daquela tida comumente, sobretudo pelos leigos e pela sociedade secular no Ocidente. É importante concluir desde já que a disciplina do Celibato não requere a ordenação de solteiros necessariamente, mas a completa abstinência sexual do ordenado, como vimos.

Vamos à fundamentação histórico-teológica:

Nas Escrituras, sobretudo três textos fundamentam o entendimento e a prática do celibato sacerdotal, apesar de outras passagens nos mostrarem que a ordenação de homens casados foi uma prática aceita, uma vez que São Paulo exorta a seus discípulos Timóteo e Tito a que candidatos a este ofício deveriam ter se casado apenas uma vez (I Timóteo 3,2; Tito 1,6), além da menção à sogra de Pedro (São Mateus 8,14; São Marcos 1,30).
Em São Marcos 10,30, com paralelo em São João 19,29, Nosso Senhor afirma que, assim como os apóstolos – os primeiros sacerdotes (ordenados pelo Sumo Sacerdote perfeito) – haveriam aqueles que abandonariam suas famílias por sua causa; a estes é prometido o reino dos céus. No segundo texto, São Mateus 19,12, Cristo registra que haveriam os que se fariam eunucos (incapazes de práticas sexuais) por amor do reino dos céus. Dada a gravidade da matéria, Cristo acrescenta a expressão “quem puder compreender, compreenda” (exclusivamente em São Mateus).

À partir daí, todos os testemunhos registrados pela Igreja Primitiva dão conta de que, desde os solteiros ordenados até os ordenados já tendo contraído matrimônio válido, todos aqueles empregados do serviço do altar (Sacerdotes, Bispos e até Diáconos) assumiam, via de regra, um estado de total abstinência sexual, com o devido consentimento das esposas, detentoras de direitos matrimoniais sobre estes homens, o que permanece em vigência nas Igrejas tradicionais Católicas e Ortodoxas até os dias de hoje, em fidelidade à herança da Tradição Apostólica, a não ser quando houvera dissidências da ortodoxia e com raríssimas exceções (como veremos no Oriente, por exemplo). A compreensão teológica desde então não era (e não é!) a de que o Sacerdote não se havia desposado, mas que sim, como figura de Cristo, era igualmente esposo da Igreja, vocacionado a amá-la como a qualquer homem é exigido amar a sua companheira (São Paulo aos Efésios 5,25).

O Concílio de Elvira no Ocidente, da primeira década do século IV, já expunha a oficialização do que já era prática universal à aquele tempo: em seu cânon lê-se a “proibição total (da prática sexual), válida para bispos, sacerdotes e diáconos, ou seja, para todos os clérigos dedicados ao serviço do altar, que devem se abster de suas esposas e não gerar filhos (caso os tenha, obviamente)”, seguindo-se que “quem fizer isso (permanecer sexualmente ativo) deve ser excluído do estado clerical”.

Na Igreja do Oriente, dadas as condições político-teológicas e a considerável autonomia dos patriarcados orientais, as questões disciplinares não detinham a mesma uniformidade vista no Ocidente, o que inclui o Celibato Sacerdotal. Dado o chamado cesaro-papismo, as primeiras disposições à respeito das regras disciplinares destas Igrejas eram decretos imperiais. Por não haver amparo em questões teológicas e na autoridade universal da Igreja, eventualmente estas disposições não eram convergentes. Teodósio, primeiro Imperador de que se tem notícia a falar do tema, no chamado Código Teodosiano (434 d.C) já assinalava a necessária (e comum, diga-se) continência sexual, mesmo para os casados – que só eram aceitos caso já houvessem contraído matrimônio antes da Ordenação – apesar da permissão para a convivência conjugal (com relação puramente fraterna, de irmãos). Com Justiniano I, a regra foi flexibilizada, por tudo exposto, permitindo a coabitação e o uso do matrimônio, desde que contraído uma única vez, e com uma virgem. Importa salientar que a este tempo, apesar da pluralidade disciplinar, havia plena harmonia dogmática entre Oriente e Ocidente

Historicamente, o próximo grande passo da Igreja do Ocidente para a promulgação da disciplina tal como se vê hoje foi a decisão de fundar os Seminários para a formação de sacerdotes, estabelecida através do famoso cânone 18, da Sessão XXIII, e imposta a todas as dioceses. Os jovens deveriam ser eleitos para o sacerdócio, formados e fortalecidos para o ministério nesses Seminários.

Essa decisão providencial, que se tornou realidade progressivamente em todos os lugares, permitiu à Igreja contar com tantos candidatos celibatários para os graus superiores do sagrado ministério, que, a partir de então, se pode ir prescindindo de ordenar homens casados, o que tinha sido um desejo explícito de muitos Padres conciliares, dadas as dificuldades do cumprimento da disciplina pelos Viri Probati, além do escândalo dos desvios que haviam – a Igreja não poderia colocar em situação de tamanho risco fiéis e Sacerdotes, dada a clareza e a gravidade do pecado de transpor a Tradição Apostólica. Após isso, nos I e II Concílios de Latrão, a Igreja Ocidental atualizou a sua disciplina e restringiu a ordenação apenas aos não casados Séc XII.

Considerando que vimos, fica claro que, tanto o argumento de que a doutrina disciplinar do Celibato Sacerdotal é estranha à Tradição Apostólica, quanto a sua falta de embasamento escriturístico são falsos. Se por “reforma” tem-se o interesse de levar a Igreja aos seus primórdios e reforçar-lhe a herança apostólica, é certo que não se há de fazê-lo com a fragilização do Celibato Sacerdotal sem que se incorra em um grave erro histórico-teológico.

Fontes
Celibato Eclesiástico: História e Fundamentos: http://diocesepetropolis.com.br/celibato-eclesiastico-historia-e-fundamentos-teologicos.html

Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus: http://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/d
ocuments/hf_p-vi_enc_24061967_sacerdotalis.html

Qual a origem do Celibato Sacerdotal?: https://padrepauloricardo.org/episodios/qual-e-a-origem-do-celibato-sacerdotal

Celibato Sacerdotal: a origem e as incompreensões: https://www.presbiteros.org.br/o-celibato-sacerdotal-a-origem-das-incompreensoes/

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