A PREGAÇÃO DE SÃO DINIS DECAPITADO NO CONTEXTO ALEGÓRICO MEDIEVAL

A PREGAÇÃO DE SÃO DINIS DECAPITADO NO CONTEXTO ALEGÓRICO MEDIEVAL

Neste presente artigo, vamos tratar de um personagem da História da Igreja. Trata-se de São Dinís, de Paris. Este personagem tem sido alvo de controvérsias devido a uma interpretação errada de sua morte e de sua iconografia (está segurando sua cabeça após ser decapitado, e continua pregando). Ele pode ser classificado como um dos grandes heróis da fé e da cultura medieval. A controvérsia existe tanto por parte de Católicos ou Protestantes devido à sua história não ser conhecida e compreendida da maneira correta. Tal controvérsia é descabida, pois, na própria Idade Média, sabia-se distinguir os estilos de linguagem. Dessa forma, para chegarmos até o desfecho da sua construção histórica, será necessário explicar como a sociedade medieval francesa escrevia e compreendia a literatura em todos os seus aspectos.

Uma boa parte da produção literária da Idade Média ficou em manuscritos por muito tempo nas bibliotecas, mas a Escola dos Analles mudou essa perspectiva, juntamente com a grande medievalista Régine Pernoud. A partir das pesquisas desses grandes historiadores, podemos hoje ter uma compreensão da cultura e mentalidade da sociedade medieval.

Observa-se que a Idade Média não havia ignorado a Antiguidade. “Horácio, Séneca, Aristóteles, Cícero e muitos outros são estudados e citados frequentemente e os principais heróis das literaturas antigas, Alexandre, Heitor, Piramo e Tisbe, Fedro e Hipólito, inspiraram, por seu turno, todos os autores medievais; as Metamorfoses e as Heroides, de Ovídio, foram traduzidas por várias vezes seguidas; sobretudo, a Idade Média amou profundamente Virgílio, manifestando nisso um gosto indiscutível, uma vez que Virgílio foi, sem dúvida, o único poeta latino digno deste nome. Mas, se se vê então na Antiguidade um reservatório de imagens, de histórias e de sentenças morais, não se vai ao ponto de a enaltecer como um modelo, como o critério de toda a obra de arte; admite-se que é possível fazer tão bem e melhor do que ela; admiram-na, mas preservar-se-iam de a imitar.” (Pernoud; P.109)

Em contrapartida, a literatura medieval francesa é fruto inteiramente da sua sociedade. Sem influência exterior relevante direta, reproduz seus menores contornos e mínimos detalhes.

“Todas as classes sociais, todos os acontecimentos históricos, todos os traços da alma francesa nela revivem, num fresco deslumbrante. É que a poesia foi a grande ocupação da Idade Média e uma das suas paixões mais vivas. Reinava por toda a parte: na igreja, no castelo, nas festas e nas praças públicas; não havia festin sem ela, nem festejo em que ela não desempenhasse o seu papel, na sociedade, universidade, associação ou confraria; permeava todas as classes da sociedade.”(Pernoud, 109)

“Se se pode falar, na Idade Média, de uma literatura do povo, de uma literatura clerical e de uma literatura da nobreza, isso deve compreender-se antes como uma nota dominante, pois, tanto nos seus criadores como no seu público, as obras em geral participam tanto de umas como de outras classes, com apenas um gosto mais marcado aqui ou ali.” (Pernoud, P. 111)

E este domínio literário é tão móvel quanto vasto. “Deparamos com extremas dificuldades quando queremos fazer uma edição critica de uma canção de gesta ou de um poema medieval. Também aí, parece que se fez mal em trazer para os textos da Idade Média um método que só convida às obras antigas ou modernas. Na realidade, há sempre, não uma, mas múltiplas formas de uma mesma obra” (Pernoud, P. 11), (…) “Para nós, uma obra literária é coisa pessoal e imutável, fixada na forma que o seu autor lhe deu: daí a nossa obsessão do plagiato.” (Pernoud, p.111)

Na Idade Média, o anonimato é corrente. Sobretudo, uma ideia, uma vez emitida, pertence imediatamente ao domínio público. Passa de mão em mão, ornamentada com mil fantasias, sofre todas as adaptações imagináveis e só cai no esquecimento quando dela se esgotaram os múltiplos aspectos. “O poema leva uma vida independente da do seu criador, é coisa móvel, e renascendo incessantemente; qualquer descoberta é retomada, modificada, amplificada, rejuvenescida, com o movimento e a animação que caracterizam a vida.” (Pernoud, 111)

“Ao lado destes temas universais, alguns temas são especiais da literatura da Idade Média. Entre outros, a mágica; assiste-se a um transbordar da imaginação; o mundo real e os seus tesouros não bastaram à inspiração dos contistas: foi-lhes necessário beber da fantasmagoria e semear de maravilhas a vida dos seus heróis. Bem frequentemente, estes pormenores imaginários são apenas figuras encobrindo altas verdades. A alegoria está entre estas: podemos achar artificiais estas evocações de qualidades abstratas, este modo de fazer falar Doce Pensar e Falso Parecer, de invocar Esperança e de mal dizer Desconfiança ou Traição. É, em todo o caso, mais um indício dessa vida prodigiosa que anima as letras medievais e que dá uma alma, um corpo, uma linguagem a todas as coisas, mesmo às mais imateriais. Sabe-se qual foi o gosto da época por tudo aquilo que é concreto, pessoal, visível. O processo alegórico, que se alia curiosamente ao culto da imagem, manifesta este gosto mais uma vez (….) A alegoria parece ser apenas a transposição de um mundo invisível, ao qual damos de novo um lugar de eleição.” (152)

Temos, além do mais, de contar com essa aptidão, bem medieval para procurar o sentido oculto das coisas, para ver na natureza nos símbolos. “Para os nossos antepassados, a história natural propriamente dita apenas apresentava um interesse muito secundário (…) toda a manifestação de uma verdade espiritual, ao contrário, cativava-os no mais alto grau; de tal modo que a sua visão do mundo exterior não passa, as mais das vezes, de um simples suporte para dar suporte às lições morais: assim acontece com esses bestiários em que, ao descrever animais — tanto os mais familiares como os mais fantásticos — os autores veem nos seus hábitos, reais ou supostos, a imagem de uma realidade superior. O licorne, que só uma virgem pode acorrentar, representa para eles o Filho de Deus encarnando no seio da Virgem Maria: o galo canta para anunciar as horas:”(152)

“O onocentauro, metade homem e metade asno, é o homem arrastado pelos seus maus instintos; o nycticorax, que se alimenta de dejetos e de trevas e que só voa em movimentos de recuo, é o povo judeu virando as costas à Igreja e atingido pela maldição; a fénix, ave única e de cor púrpura, que morre numa fogueira e que ao terceiro dia ressuscita das cinzas, é Cristo vencendo a morte.”(152)

“O conjunto, de uma poesia sombria dá exatamente a medida do que o homem da Idade Média gostava de descobrir na natureza: “não um sistema de leis e de princípios cuja classificação, provavelmente, o teria aborrecido, a supor que a tivesse conhecido, mas um mundo fremente de beleza, profuso e secreto”.(153

Certa ou erradamente, colocavam no mesmo plano a verdade histórica e a verdade moral – preferindo, se necessário fosse, esta àquela. “Pense-se, por exemplo, no popular da Idade Média, de São Jorge vencendo o dragão. A questão de saber o que poderia ter sido exatamente esse dragão monstruoso e qual o grau de autenticidade que lhe devia ser atribuído nem sequer aflorava os espíritos da época. O que importava era a lição de coragem que essa luta lendária deve inspirar ao cavaleiro cristão. Por um processo análogo, os sermonários da época atribuem imensos pormenores miraculosos aos santos que elogiam e atribuem indiferentemente a um ou a outro este ou aquele milagre. São Dinis decapitado, segurando a cabeça debaixo do braço, teria tido numerosos imitadores. Porém nem o público nem o predicador se deixavam iludir, e seria uma grande ingenuidade tomá-los à letra: o essencial para eles não era a exatidão do pormenor, mas a verdade do conjunto e da lição a tirar.(153
“Não podemos expressar, pensar e compreender sequer a nossa própria experiência a não ser dentro dos limites do nosso poder sobre a linguagem – e esses limites foram estabelecidos para nós pelos nossos grandes escritores.”
Northrop Frye, na citação acima, faz uma importante revelação, a de que a literatura nos ensina sobre as experiências humanas através da imaginação.

Em Huizinga, vemos Jean Gerson tratar de problemas de superstição e crenças populares. “Uma forma mecânica com que se tendia a multiplicar quando não havia nenhuma interferência de uma autoridade rígida”. “Jean Gerson toma esse costume como motivo para um tratado contra a superstição de um modo geral (…)”.(p.251)

“Ele foi um dos que enxergam nitidamente o perigo representado pela proliferação de ideias religiosas para a Igreja. Com o seu espirito aguçado, e de certa forma sensato, ele também percebe algo do fundamento psicológico que favorece o surgimento de todas essas crenças.”(p.251)

Elas nascem ex sola hominum phantasiatione et melancholica imaginatione exclusivamente da fantasia e da imaginação melancólica das pessoas: é uma corrupção da força imaginativa causada por uma lesão cerebral interna e esta, por sua vez, resultado de inspirações diabólicas. Assim, o diabo acaba por conseguir seu quinhão.

“Trata-se de um processo de contínua redução do infinito às coisas finitas, uma desintegração do milagre em átomos.”(p.251)
Para concluir, podemos recorrer à obra de Daniel Rops. Nela podemos encontrar o relato do martírio de São Dinís, junto com seus companheiros: “É no entanto, à perseguição de Décio que as mais respeitáveis tradições ligam o martírio de São Dinís – bispo de Paris, que teria sido decapitado no lugar que ainda hoje tem o seu nome, juntamente com os seus companheiros Rústico e Eleutério(…)”. Não existe nenhuma menção ao Santo decapitado andando e pregando; essa é uma mensagem alegórica, e assim deve ser observada.

PERNOUD, Régine; Luz sobre a Idade Média
HUIZINGA, Johan; o outono da Idade Média
ROPS, Daniel; A Igreja dos Apóstolos e mártires

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