O PAPADO NA IGREJA PRIMITIVA, PARTE 1

O PAPADO NA IGREJA PRIMITIVA, PARTE 1

O Papado no Cristianismo primitivo foi um período da história papal entre 30 d.C., em que São Pedro assumiu efetivamente seu papel pastoral como Cabeça Visível da Igreja, até o pontificado do Papa São Melquíades em 313, quando acabam as perseguições do Império Romano e inicia-se a Paz na Igreja.
Nesse período do cristianismo surgiram frequentemente novos cismas e heresias, ao qual os Bispos de Roma tentavam solucionar, embora fatores como a distância geográfica por vezes, os limitavam. Nessa parte, falaremos do Primado Petrino, a liderança de São Pedro na Igreja, e como sua principal Igreja (a de Roma) se tornou a sede da Cristandade.
A promessa e a entrega do primado a Pedro não é um fato isolado no Evangelho. Toda a narração histórica do ministério de Cristo conspira em atribuir no colégio dos Doze um lugar de preeminência ao futuro chefe da Igreja. Dir-se-ia que os evangelistas, tão sóbrios em informações sobre os outros Apóstolos, não perdem a oportunidade de falar de Pedro, de referir suas palavras, de registrar os sinais de predileção com que o distinguia o Salvador. A precedência é liderança do Colégio Apostólico por São Pedro é um fato assumido tanto por teólogos protestantes quanto Católicos, há um artigo muito bom no site Patheos mostrando isso:
https://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2018/04/primacy-of-st-peter-verified-by-protestant-scholars.html”

Durante sua pregação, é a barca de Pedro a preferida por Cristo para doutrinar as turbas (Lucas 5,1-4), em Cafarnaum, na casa de Pedro é onde Ele se hospeda (Mateus 8,14, Marcos 1,29, Lucas 4,38), é Pedro quem, quase sempre, fala em nome dos Apóstolos, e é a Pedro, como o principal do grupo, que se dirigem os coletores de impostos para saber se o Mestre pagava o tributo do Templo, e Jesus paga a taxa legal por si e por Pedro (Mateus 17, 24-27). Em todos os catálogos dos Apóstolos, Pedro ocupa invariavelmente o primeiro lugar: o lugar de honra.
Ao escrever suas memórias, em tempos posteriores, são os próprios evangelistas que se empenham em destacar o lugar preponderante de Simão no colégio apostólico. Quatro catálogos dos Apóstolos oferece-nos o Novo Testamento (Mateus 10,2-4, Marcos 3,16-19, Lucas 6,14-16, Atos 1,13). A ordem em que se sucedem os outros nomes varia de um para outro, mas em todos eles, assim como Judas, o traidor fecha sempre a enumeração, também Pedro, invariavelmente, ocupa o primeiro lugar: o lugar de honra.
Nem é casual coincidência. São Mateus observa expressamente: “Primeiro, Simão que se chama Pedro”. Primeiro em quê? Em idade? Nenhum indício positivo o insinua, nem a velhice foi certamente o critério adotado pelos historiadores sagrados, que alteram a ordem dos outros nomes e mencionam João antes de outros Apóstolos mais idosos. Prioridade de vocação? Tampouco. A eleição para o apostolado foi simultânea para os Doze (Mateus 10,1, Marcos 3,13-15). A vocação inicial de Pedro para discípulo, se foi anterior à de muitos Apóstolos, não foi absolutamente a primeira. André e outro discípulo seguiram antes os passos do Messias (João 1,35-42). Um segundo chamado de Cristo feito nas bordas do lago Tiberíades e narrado pelos Evangelhos apresenta para os quatro Apóstolos Simão, André, João e Tiago uma simultaneidade moral que não permite estabelecer nenhuma prioridade cronológica.

Então Jesus finalmente muda o nome do pescador da Galileia: “Tu és Simão”, diz-lhe Jesus, “tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra” (João 1,42), é fato que Cristo é a Pedra fundamental da Igreja: a Pedra angular e a Pedra de tropeço para os judeus, mas o fato de nosso Senhor ter mudado o nome de Simão para Cefas (do grego, Pedra) mostra a intenção d’Ele em fazer de Pedro seu representante (ou seja, aquele que age como Seu representante no governo da Igreja). Pois a imposição de um nome novo, conforme o costume de Deus, era rica de significados e de promessas (Como fora com Abraão, Sara, e Jacó).
O mesmo evento da re-nomeação de Simão Bar-Jonas é narrado na famosa passagem de Mateus 16, onde Cristo entrega a São Pedro as chaves do Reino dos Céus, e concede a todos os Apóstolos o poder de ligar e desligar. Todos podiam ligar e desligar, mas ao entregar individualmente as chaves a Pedro, Jesus estava cumprindo uma profecia que aparece no Livro de Isaías (Isaías 22,15-23) em que o primeiro-ministro Sobna, que servia Ezequias (rei de Israel e descendente de Davi), é considerado indigno de seu posto e expulso por Deus, e Eliacim, filho de Hilquias, preenche o seu cargo:

“Contra Sobna, prefeito do palácio. Eis o que diz o Senhor, Deus dos exércitos: Vai ter com esse ministro, Depor-te-ei de teu cargo e arrancar-te-ei do teu posto. Naquele dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias. Revesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com o teu cinto, e lhe transferirei os teus poderes; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi; se ele abrir, ninguém fechará, se fechar, ninguém abrirá;”

Muitas profecias messiânicas se referem a uma situação num futuro próximo e ao mesmo tempo a um futuro mais distante. Como por exemplo quando o Rei Davi quis construir o Templo, mas foi dito através do profeta Natã que ele não o faria, mas quando ele morresse, “um de seus filhos” edificaria a casa do Senhor, e teria o Trono confirmado por Ele para sempre (1 Crônicas 17,11-14). A profecia falava de Salomão, e ao mesmo tempo de Jesus Cristo.
Em Isaías 22, Deus revela que irá instituir um administrador ou guardião para o palácio, entregando-lhe as chaves, e Jesus faz isso com São Pedro e as chaves do céu.
Na Bíblia, o termo “chaves” tem sido usado como um símbolo de autoridade docente (Lucas 11,52), Jesus, filho de Davi e portanto, o rei do novo reino davídico: a Igreja, nomeia São Pedro como mestre primário da Igreja, um cargo que continuará com seus sucessores, assim como a posição de Eliacim no reino davídico do Antigo Testamento.
Como dito pelo teólogo luterano Oscar Cullmann
“Assim como em Isaías 22,22 o Senhor coloca as chaves da casa de Davi sobre os ombros de seu servo Eliacim, Jesus entrega a Pedro as chaves da casa do reino dos céus e com o mesmo golpe o estabelece como seu superintendente. Há uma conexão entre a casa da Igreja, cuja construção acabamos de mencionar e da qual Pedro é o alicerce, e a casa celestial da qual ele recebe as chaves. A conexão entre essas duas imagens é a noção do povo de Deus”
Oscar Cullmann, “St. Peter: Disciple. Apostle, Martyr”, páginas 183-184)
Com essas chaves, assim como Eliacim, São Pedro o primeiro Papa (bem como seus sucessores) tem a autoridade e o governo dado por Cristo, sobre a nova Casa de Davi, que é a Igreja na terra (Apocalipse 1,18, Apocalipse 3,7).

Quando Cristo ressuscita, Ele pergunta a Pedro se este o amava, Jesus perguntou isso por três vezes. Pedro respondeu que sim as três vezes. Foi uma forma de Jesus curar o remorso no coração de Pedro por causa das três negações que tinha feito de seu Mestre. Jesus o perdoou e, em seguida disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. Óbvio que todos os Apóstolos eram pastores das ovelhas de Deus, bem como seus Bispos sucessores. Mas Cristo faz uma declaração individual à Pedro, se referindo à todas as ovelhas universalmente. Como explica o pastor luterano Richard Baumann antes de se converter ao Catolicismo: “Em João 21, a forma da ordem de autoridade, com aquele que está no comando, é claramente discernível como uma revelação de significado duradouro. Assim como o “guardião das chaves” foi o guardião do trono eterno de Davi, o pastor também governará a nação para sempre. O Messias prometido também foi descrito como aquele que alimentaria o povo de Deus (Mateus 2,6, João 21,15). Jesus, portanto, entregou Sua equipe pastoral a um dos discípulos para que todos os redimidos fossem um rebanho sob o mesmo pastor. Deve haver alguém que guarda e protege a todos nós do diabo que é um perseguidor. É preciso zelar pelos fracos e pequenos, e dirigir os fortes, servindo a todos os homens para que tenham vida e felicidade plena no Senhor. O serviço do pastor é, portanto, um ato de amor, um retorno de amor àquele que primeiro amou a Cristo e toda a humanidade. É o vínculo do amor de Jesus, e do amor de Deus e dos irmãos, que mantém toda a Igreja unida indissoluvelmente. Este serviço abrangente do pastor é estendido também aos seus companheiros pastores, os padres e bispos da Igreja ”. (“Too see Peter”, páginas 172-173)

Depois de Pentecostes, Apóstolos e fiéis serão um só coração e uma só alma sob o poder de Pedro. Desde o início os demais Apóstolos entenderam a missão especial de Pedro, conferida a ele por Jesus, e o respeitaram. No dia de Pentecostes é Pedro quem se levanta e toma a palavra para falar ao povo:

“Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras.”
Atos 2,14

E quando os Apóstolos foram presos e julgados pelo Sinédrio, é Pedro quem fala por eles:

“Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: “Chefes do povo e anciãos, ouvi-me:”
Atos 4,8

Outro fato importantíssimo do exercício dos poderes de Pedro, foi a admissão do primeiro gentio (Cornélio) na Igreja, em Jope, aceita por ele. Isto era algo inadmissível para os judeus, mas Jesus mostrou a Pedro que veio salvar a todos. Foi justamente Pedro quem teve a visão da Toalha com animais impuros, agora tornados puros por Deus, o que significava a entrada dos gentios na Igreja. Pedro entendeu isso, batizou Cornélio e sua família, Pedro reafirmou isso:

“E, subindo Pedro a Jerusalém, disputavam com ele os que eram da circuncisão,
Dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos, e comeste com eles.
Mas Pedro começou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo: ‘Estando eu orando na cidade de Jope, tive, num arrebatamento dos sentidos, uma visão; via um vaso, como um grande lençol que descia do céu e vinha até junto de mim. E, pondo nele os olhos, considerei, e vi animais da terra, quadrúpedes, e feras, e répteis e aves do céu’. E ouvi uma voz que me dizia: ‘Levanta-te, Pedro; mata e come’. Mas eu disse: ‘De maneira nenhuma, Senhor; pois, nunca em minha boca entrou coisa alguma comum ou imunda’.
Mas a voz respondeu-me do céu segunda vez: ‘Não chames tu comum ao que Deus purificou’. E sucedeu isto por três vezes; e tudo tornou a recolher-se ao céu.”
Atos 11,2-10

E Pedro defendeu esse ponto novamente no Concílio de Jerusalém.
Este Concílio girou em torno da necessidade da circuncisão antes do gentio ser batizado. São Paulo e São Barnabé ensinavam, na Igreja de Antioquia, que não era necessário a circuncisão, mas alguns cristãos, vindos de Jerusalém à Antioquia ensinavam o contrário, e então o fez-se a necessidade do primeiro Concílio da Igreja. Concílio este, que ocorreu na Igreja de Jerusalém (de Tiago), a Igreja até então principal, mas mesmo a Igreja principal sendo a de Tiago, Pedro ainda expressou sua Primazia

“E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: ‘Homens irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem’.”
Atos 15,7

É muito relevante notar o que Pedro lembra a todos: “há muito tempo Deus me escolheu dentre vós”, pois a missão de Pedro sobre os demais Apostolos de evangelizar aos gentios e assim tornar a Igreja Universal, ja foi conferida a ele há muito tempo, e mais ainda do Senhor ter introduzido os gentios na Igreja pelo Batismo exatamente através de Pedro, e assim a tornado Universal (Mais uma vez Pedro…). É por meio de Pedro que a Igreja de Cristo tornou-se Católica.
Em Atos 15,12 é dito que depois que Pedro falou, todos ficaram calados. Só “depois de terminarem” (Atos 15,13) é que Tiago toma a palavra para corroborar e completar o que Pedro decidiu. Tiago então expressou sua concordância com a decisão de São Pedro. Não sei sob que fundamentos alguns livros protestantes querem afirmar que foi Tiago, e não Pedro (a não ser o desejo deles de depreciar a autoridade de Pedro), quem presidiu o Concílio de Jerusalém. Basta ler Atos 15, para se tirar facilmente a conclusão.
É relevante notar ainda que Paulo e Barnabé, bem como a importante comunidade cristã de Antioquia, a mais antiga depois da de Jerusalém, não resolveu a questão da circuncisão por ela mesma, mas foram levar a decisão para a Igreja Principal (de Jerusalém), e para Pedro e os Apóstolos. Isto mostra que no Cristianismo nunca ouve comunidades totalmente “independentes” ou igrejas que viviam independentes dos Apóstolos. A Igreja primitiva sempre esteve sob a jurisdição dos Apóstolos e de Pedro, como podemos ver em vários fatos.
Após a perseguição que se seguiu à morte de Estevão, muitos gentios se converteram em Antioquia, pela pregação dos dispersos que lá se refugiaram. A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém. Então a Igreja de Jerusalém enviou Barnabé à Antioquia (Atos 11,19-22). A Igreja de Jerusalém mantinha a vigilância. São Lucas registra que em cada Igreja os apóstolos instituiam anciãos e, após orações com jejuns encomendavam eles ao Cristo em quem tinham confiado (Atos 14,23). Esses fatos mostram claro que as igrejas particulares nunca foram independentes dos Apóstolos, e de Pedro especialmente, como querem os separados da Igreja Católica. Toda a Tradição Apostólica confirma isto.

Outro evento que atesta a Primazia de Pedro é o incidente em Antioquia narrado em Gálatas 2. Muitos o citam alegando que estaria contra o primado de Pedro, pois dizem que como Paulo teria feito uma crítica à Pedro, isso negaria sua autoridade primacial. Mas na verdade, o episódio apenas atesta que ela já era um fato:

“Mas quando Cefas veio a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele se tinha tornado digno de censura. Com efeito, antes de chegarem alguns vindos da parte de Tiago, ele comia com os gentios, mas, quando chegaram, ele se subtraía e andava retraído, com medo dos circuncisos. Os outros judeus começaram também a fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar pela sua hipocrisia. Mas quando vi que não andavam retamente segundo a verdade do evangelho, eu disse a Pedro diante de todos: se tu, sendo judeu, vives à maneira dos gentios e não dos judeus, porque obrigas os gentios a viverem como judeus?”
Gálatas 2,11-14

Paulo, na ocasião não negou a autoridade primacial de Pedro. Não lhe desobedeceu nenhuma ordem, não lhe contrariou nenhuma doutrina, não lhe contestou nenhuma reivindicação. A passagem atesta que Pedro costumava comer/estar com os gentios.
Não se tratava, de uma questão doutrinária. Ambos os apóstolos criam na universalidade do cristianismo e condenavam o particularismo judaico, o próprio Pedro havia antes batizado Cornélio e dito no Concílio de Jerusalém que “é pela graça do Senhor Jesus que nós cremos ser salvos, da mesma forma que eles (os gentios)” (Atos 15,11), e esta também é a doutrina de Paulo (Romanos 11,11, Efésios 2,8). O que aconteceu?
Com a chegada dos Judeus da parte de Tiago, Pedro, que se sentava com os gentios, não fez por receio deles. Em outra ocasião Paulo, se submeteu à purificação e custeando as oblações legais de quatro nazireus pobres para não escandalizar os judeus também (Atos 21,15-26). Mas em Antioquia, o que talvez fosse justificável em Jerusalém não o era naquela cidade. A atitude de Pedro poderia resultar em prejuízos para a Igreja, Paulo percebeu isso e falou ao Príncipe dos Apóstolos que isso era arriscado
Mas a oposição de Paulo revela, antes, a liderança de Pedro, por que se fosse outro apóstolo, Paulo talvez nem mencionasse o fato. Mas Paulo vai a Pedro
Tanto que até Barnabé, colaborador de Paulo e, como este, opositor do partido judaizante (Atos 15,2) passou a desconsiderar os gentios (Gálatas 2,13), Pedro tinha autoridade primacial tão clara aos olhos da comunidade cristã primitiva, que o próprio Paulo disse que ele estava “obrigando” os gentios a viverem como judeus (Gálatas 2,14)
A única explicação possível pra Paulo dizer que Pedro “obrigava”, era por causa da liderança que Pedro exercia sobre toda a Igreja. Poderia Pedro obrigar os Cristãos sem essa Autoridade? Não. Por isso, o destaque Primacial de Pedro como cabeça dos Apóstolos fora afirmado desde os primeiros seculos por Clemente de Alexandria, Tertuliano, Origenes, São Cipriano de Cartago, São Cirilo de Jerusalém, Santo Efrém da Síria, Papa Dâmaso I, São Jerônimo, Inocêncio I, Santo Agostinho, pelo I Concílio de Éfeso e Leão Magno.

E qual a necessidade de Deus criar um Papado? O simples fato da Instituição que é a Igreja de Cristo não ser uma anarquia.
Em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o devido fim. Um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim de destino, se o piloto não o dirigisse até o porto. No caso do Cristão, deve haver para ele uma finalidade para o qual se ordenam toda a sua vida e ação: Deus. Acontece, porém, que os homens agem de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanas comprova. Portanto, o Cristão precisa de um dirigente para o fim.
Se é natural ao cristão viver numa familia de muitos (o rebanho de Cristo), há alguém entre os homens por quem seja governada a multidão. Pois se a cada ovelha tratasse cada uma do que lhe conviesse, dispersar-se-iam as Igrejas em diversidade, caso também não houvesse alguém cuidando do que pertence a ela, assim como se corromperia o corpo da Igreja se não houvesse alguma potência regedora comum que visasse o bem comum de todos os membros. Isso ponderando diz Salomão: “Onde não há governante, dissipar-se-á o povo” (provérbios 21,14).
Se há uma Instituição que abrange todo o mundo, há necessidade de se aplicar a ela os mesmos termos. Por isso Jesus deixou claro que queria uma Igreja com hierarquias:

“Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano.”
Mateus 18,15-17

Ao dizer Igreja, Cristo se refere a autoridade, LIDERES, da Igreja, Ele queria uma hierarquia, e a hierarquia de uma Instituição SEMPRE leva a esferas de maior poder com menos pessoas até chegar em um árbitro máximo, e esse alguém como já vimos, era São Pedro.
É racionável isso pela diferença do próprio de cada igreja e o comum de toda a Igreja Universal: o próprio divide e o comum une. Assim, importa existir além do que move ao bem particular de cada Igreja (seus ritos, litúrgias) o que mova ao bem comum de todas (um só batismo, uma só Fé, para Um só Senhor. Uma única Doutrina). Pelo que em todas as coisas ordenadas a um todo se acha algo diretivo a êle. E no mundo dos corpos, um só corpo (isto é, o celeste) dirige os demais por ordem da Providência Divina, e a todos os rege a criatura racional. Igualmente no homem, a alma rege o corpo, e entre as partes da alma, o irascível e o concupiscivel são dirigidos pela razão. Também entre as partes do corpo, uma deve ser a principal que todos move: o cérebro ou o coração.

Quando e como a Igreja Principal deixou de ser a de Jerusalém e se tornou a de Roma?
Em Atos 28, ao sair da ilha de Malta Paulo partiu em direção a Siracusa, na Sicília. Dali, foi costeando até chegar em Régio da Calábria, já na Itália, depois Poteoli, e finalmente Roma. Os judeus, que afirmaram nada saber sobre Paulo por não terem recebido notícias da Judeia, pediram que Paulo lhes falasse sobre os cristãos. No dia combinado, muitos judeus foram à casa de Paulo para ouvir sua pregação, muitos judeus o rejeitaram, então Paulo lhes falou sobre uma profecia de Isaías (Isaías 6,9-10):

“Vai a este povo e dize: ‘Certamente ouvireis, e de nenhum modo entendereis; Certamente vereis, e de nenhum modo percebereis.’ Pois o coração deste povo se fez pesado e os seus ouvidos se fizeram tardos; e eles fecharam os olhos para não suceder que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos, entendam no coração e se convertam e eu os sare. Ficai sabendo, portanto, que esta salvação de Deus é enviada aos gentios; eles também a ouvirão.”
Atos 28,26-28

O livro de Atos termina quando a Igreja encontra seu destino, e termina afirmando que Paulo viveu em Roma por mais tempo, e durante todo este tempo pregou lá. É fato (e nenhum Católico ou Protestante que estuda a Patristica nega isso) que ele foi martirizado junto de Pedro (co-fundador da Igreja de Roma), em Roma por ordens do imperador Nero. Assim afirmam São Clemente, Santo Inácio, Santo Irineu, e os outros Padres dos primeiros séculos
Uma explicação bastante coerente a respeito da razão dos Apóstolos fazerem de Roma sua sede, é feita pelo historiador argentino Rúben Calderón Bouchet, na revista Gladius, ano 1, N° 1:
“A atitude de Pedro e de Paulo ao tomar Roma como centro do seu apostolado foi, desde o começo, favorável a um entendimento profundo com as expressões mais notáveis da civilização helênico-romana.
Paulo não perdeu nunca a oportunidade de fazer valer sua condição de cidadão romano para defender sua liberdade contra a ameaça dos seus antigos companheiros soldados. Os seguidores de Pedro não apenas oraram pela prosperidade do Império, como também começaram a levar a sério a possibilidade de converter o próprio imperador ao cristianismo. Nada digo sobre as primeiras expressões de arte cristã, pois todo mundo sabe que, embora nada originais, elas tomaram por razão o fornecido pela tradição estética da Grécia e de Roma. Basta ler o prólogo do Evangelho de São João para compreender que o Apóstolo do Verbo tentou uma interpretação teológica de Cristo que emprestava do helenismo uma de suas ideias mais fundamentais, a do Logos, e a introduzia com audácia singular para designar a posição de Cristo nas processões intradivinas.
Política, arte, ciência, economia e língua vinham agora do mundo gentio greco-latino. De Israel se conservava a Escritura e, com ela, o conteúdo da tradição revelada, mas examinado à luz dos princípios impostos pelo mistério do Verbo Encarnado.
Os usos e os costumes propriamente hebreus, de temperamento hebreu, não puderam resistir muito tempo em comparação com aqueles provenientes do mundo helenístico. Somente restou, talvez como modalidade literária, uma certa influência dos escritores do Antigo Testamento.
O encontro de gregos e cristãos foi decisivo para o futuro de uma assembleia religiosa cuja catolicidade dependia dessa união. Escreve Werner Jaeger que o autor dos Atos dos Apóstolos viu isso com toda clareza quando narrou a visita de Paulo a Atenas, centro cultural e intelectual da Grécia clássica e símbolo de sua tradição histórica. “Paulo pregou neste venerável foro, o Areópago, perante uma audiência de filósofos estoicos e epicuristas, acerca do deus desconhecido. Citou o verso de um poeta grego: ‘porque somos também da sua linhagem’, e empregou argumentos amplamente estoicos, calculados para convencer mentes educadas na filosofia.”

Vale lembrar aos protestantes que a ideia de que a Igreja de Roma teria caído é totalmente contrária à Sagrada Escritura, pois foi São Paulo quem prometeu que Deus não tardará em esmagar Satanás debaixo dos pés dos Romanos (Romanos 16,20), E podem ter certeza, Deus esmagará satanás debaixo dos pés dos romanos.

São Pedro morreu no ano 67, na cidade de Roma, e seu cargo foi sucedido por São Lino, em seguida por Santo Anacleto (Como documentado por Santo Irineu no século II), e em seguida por São Clemente I, de quem falaremos na próxima parte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: