O PAPADO NA IGREJA PRIMITIVA, PARTE 5

Dando continuidade, e finalizando nosso estudo, quando Santo Estêvão I morreu, em 257, São Sisto II sucedeu-lhe o cargo. Ele governou a Igreja durante um ano (257–258) e, nesse tempo, semeou a paz e a unidade no seio da Igreja de Cristo. Eusébio em “História Eclesiástica” VII,9 nos dá uma carta dirigida por São Dionísio, Bispo da Igreja de Alexandria, a São Sisto II de Roma sobre o caso de um homem que, ao que parecia, havia sido batizado invalidamente por hereges, mas que por muitos anos frequentava os sacramentos da Igreja. Nele ele diz que precisa do conselho de São Sisto II e implora por sua decisão (gnomen), para que não caia no erro (dedios me hara sphallomai).
Sisto II foi decapitado pela polícia durante uma cerimônia clandestina que ele celebrava num cemitério da via Ápia. Foram, ao mesmo tempo, executados seis dos sete diáconos que o rodeavam. Só pouparam algum tempo o diácono Lourenço, seu tesoureiro, a quem deixaram quatro dias para entregar os bens da Igreja. Assim se procedia desde que o imperador Valeriano estabelecera a pena de morte “sem julgamento, só com verificação de identidade”, contra os Bispos, padres e diáconos da religião cristã.

Então, depois que São Sisto II morreu, São Dionísio (outro) fora eleito seu sucessor. Alguns meses após isso, o Imperador Galieno emitiu seu édito de tolerância, que pôs fim à perseguição e deu à Igreja uma existência legal (Eusébio, História Eclesiástica VII,13)
Por volta de 260, outro São Dionísio, Bispo da Igreja de Alexandria, escreveu sua carta a Amônio e Eufranor contra o sabelianismo na qual ele se expressou com inexatidão quanto ao Logos e sua relação com Deus Pai. Após isso, uma acusação contra ele foi apresentada ao Papa Dionísio. Em resposta às acusações de triteísmo (heresia que separa os membros da Trindade como três divindades distintas) contra São Dionísio de Alexandria, o papa convocou um sínodo romano em 260.
O papa emitiu, em seu próprio nome e no do conselho, uma importante carta doutrinária na qual, primeiro, a errônea doutrina de Sabélio foi novamente condenada junto com o triteísmo.
Junto com esta epístola doutrinária, o Papa Dionísio enviou uma carta separada ao bispo de Alexandria, e exigiu uma explicação do mesmo, isto ficou conhecido como “o caso dos dois Dionisios”. São Dionísio de Alexandria se esclareceu em sua “Refutação”, e na sua “Apologia” (Santo Atanásio, “De sententia Dionysii” V, XIII.[1] e “De decretis Nicaenae synodi”, XXVI) aceitou a autoridade do papa. Aqui, o Papa está chamando o segundo bispo mais importante do mundo cristão para se esclarecer e defender sua ortodoxia. O Patriarca Dionísio negou a autoridade do Papa para trazê-lo ao tapete, por assim dizer? De modo nenhum. Ele acolheu o inquérito do Papa e rapidamente escreveu uma explicação que o Papa aceitou como satisfatória. Assim, a reivindicação da Igreja Romana de governar em questões de fé foi reforçada no pontificado de São Dionísio de Roma.
E conforme a antiga prática da Igreja Romana, o Papa São Dionísio também estendeu seu cuidado aos fiéis de terras distantes. Quando os cristãos da Capadócia estavam em grande aflição com as incursões saqueadoras dos godos, o papa dirigiu uma carta de consolo à Igreja de Cesaréia e enviou uma grande soma em dinheiro por mensageiros para a redenção de cristãos escravizados.[2]

Depois que São Dionísio morreu, São Félix I fora eleito seu sucessor, e também exerceu o ofício do Primado. Em Antioquia, Paulo de Samosata, bispo da Igreja de Antioquia, havia negado a personalidade do Logos, dizendo que apenas a Sabedoria divina se tornou encarnada. Em 264, os bispos da Síria, Palestina e Ásia Menor se reuniram em sínodo e condenaram a heresia de Paulo. Porque ele persistiu em seus erros, num segundo e depois num terceiro sínodo se reuniram e, finalmente, ele foi deposto e excomungado. Domnus foi nomeado como substituto, mas Paulo se recusou a desocupar a residência episcopal. Os bispos apelaram ao imperador Aureliano, que estava em Antioquia na época. Teria sido simples para o imperador resolver a questão naquele momento e ordenar que Domnus fosse instalado como patriarca de Antioquia. Em vez disso, ele pediu a Roma que decidisse quem deveria ser o patriarca. São Félix I escolheu Domnus e ele foi instalado.[3]
O incidente prova que até os próprios pagãos sabiam bem que a comunhão com a Sé Romana era a marca essencial de todas as igrejas cristãs, observe ainda que essa foi uma controvérsia entre os bispos orientais e envolveu o ocupante legítimo da terceira sé mais importante da Igreja, uma sé oriental. Por que Aureliano se voltou para Roma para uma decisão? Por que ele teria a controvérsia resolvida de uma forma que seria uma afronta impressionante aos bispos orientais e à sua autoridade? A menos que reconhecessem a jurisdição universal do papa. Isso eles fizeram. Nenhum objetou. O assunto foi resolvido. “Roma locuta est” (Roma falou).

São Félix I morreu, e Santo Eutiquiano o sucedeu, e durante seu pontificado, após a morte do imperiador Aureliano em 275, a Igreja desfrutou de uma longa trégua das perseguições do Império Romano pagão. Quando Santo Eutiquiano morreu em 283, São Caio fora nomeado seu sucessor, e depois que morreu em 296, São Marcelino sucedeu-lhe o cargo, e durante seu pontificado, aquele longo período de tranquilidade na Igreja fora encerrado por uma nova e sangrenta perseguição do Império Romano pagão contra os cristãos, a última de seu tipo, pelo imperador romano Diocleciano.
Em 303, o imperador Diocleciano e seus colegas Maximiano, Galério (293–311) e Constâncio Cloro (293–306) emitiram uma série de éditos em que revogavam os direitos legais dos cristãos e exigiam que estes cumprissem as práticas religiosas tradicionais.
Os soldados cristãos tiveram de deixar o exército, as propriedades da Igreja foram confiscadas e os livros sagrados foram destruídos, tendo sido proibidas as funções religiosas. Além disso, os cristãos eram obrigados a renunciar a própria fé, sob pena de serem condenados à morte. A própria esposa de Diocleciano, Prisca, e a sua filha Valéria, ambas cristãs, foram forçadas a adorar as divindades pagãs. Marcelino morreu no segundo ano da perseguição, em 304.
A perseguição de Diocleciano continuou com severidade inabalável. Após a abdicação de Diocleciano em 305 e a ascensão de Maxêncio ao trono dos Césares em Roma, em outubro do ano seguinte, os cristãos da capital novamente desfrutaram de relativa paz. No entanto, provocou sérias desordens na Igreja de Roma, e quase dois anos se passaram antes que um novo bispo de Roma fosse eleito, até que finalmente, em 308, São Marcelo I fora eleito para o cargo. Em Roma, Marcelo encontrou a Igreja na maior confusão. Os locais de reunião e alguns locais de sepultamento dos fiéis foram confiscados e a vida normal e as atividades da Igreja foram interrompidas, causada pelo grande número de membros mais fracos que haviam caído durante o longo período de perseguição ativa. Morreu em 309, após 7 meses de pontificado, e então fora sucedido por Santo Eusébio, que morreu no mesmo ano (309), após 6 meses de pontificado.

Então São Melquíades chegou ao episcopado. No período de seu governo, Melquíades sofreu com a perseguição aos cristãos pelo Imperador Maxêncio. E agora falaremos do tão falado Constantino.
O imperador Constantino, também conhecido como Constantino Magno (O Grande) ou Constantino I, nasceu em 274 e faleceu em 337, foi imperador durante 31 anos: de 306 a 337. Era filho de Constâncio Cloro e Helena, uma cristã que se tornou Santa Helena. Casou-se com Faustina, filha de Maximiliano Hércules. No início século quarto, o cristianismo já estava espalhado por quase todo o mundo, penetrando até na classe nobre e era muito perseguido pelos imperadores que tentavam a todo custo, com o poder das armas destruir o poder da fé, mas não conseguiam.
Após a morte do imperador Galério o poder ficou dividido entre Maxênico que se intitulou imperador, e Constantino, aclamado como imperador pelos soldados. Os dois ambicionavam pelo poder absoluto, tal luta se encerrou no dia 28 de outubro de 312, na batalha da Ponte Mílvia. Segundo os cronistas do século IV Eusébio de Cesareia e Lactâncio, a batalha marcou o começo da conversão de Constantino ao Cristianismo. Eusébio de Cesaréia relata que Constantino e seus soldados tiveram uma visão do Deus cristão prometendo-lhes a vitória caso eles exibissem o sinal do Chi-Rho (☧), as duas primeiras letras do nome de Cristo em grego, em seus escudos. O Arco de Constantino, erigido para celebrar esta vitória, atribui em seus relevos e inscrições à intervenção divina. Este fora um marco para sua conversão, que não se deu de uma hora para outra, pois ele foi batizado somente em 337, no fim de sua vida. Para o bem ou para o mal, sua relutância em abraçar a Cristo publicamente no batismo provavelmente se baseava em sua deferência à agenda política romana. Ele foi batizado apenas antes de sua morte iminente. No entanto, se julgarmos Constantino por seus atos, ele parece ter sido um grande defensor do Cristianismo.
Após sua vitória contra Maxêncio, em 313 deu liberdade de culto aos cristãos com o chamado Édito de Milão : “Havemos por bem anular por completo todas as retrições contidas em decretos anteriores, acerca dos cristãos (restrições odiosas e indignas de nossa clemência) e de dar total liberdade aos que quiserem praticar a religião cristã”. Era o sumo pontífice nessa epoca, São Melquíades, Bispo de toda Igreja Universal, o 32º Papa, tendo Pedro como o 1º. Assim não há que se falar que Constantino é o fundador da Igreja de Cristo, ele apenas deu liberdade aos cristãos, acabando com dois séculos e meio de perseguição e martírio. Assim, São Melquíades passou do Papa da perseguição para o Papa da liberdade dos cristãos. Quando São Melquiades morreu em 314, São Silvestre I fora eleito seu sucessor Apóstolico.
Constantino inaugurou a construção nos locais sagrados de Roma construindo a antiga Basílica de São Pedro original, a Basílica de São Paulo fora dos muros e a Basílica de Cristo Salvador ou São João de Latrão. Ele não apenas isentou a Igreja de impostos, mas até a subsidiou com fundos estatais. Com a ajuda de sua mãe, ele também comissionou a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém para abrigar o túmulo de Cristo. Parece que a profecia de Daniel estava se cumprindo. Por meio do sacrifício de Cristo e do sofrimento da Igreja, a majestade de Roma foi transformada em instrumento do Evangelho.
Os antigos deuses pagãos estavam mortos, Cristo os humilhara, e fizera o império pagão que almejava destruir sua Igreja, se curvar diante dela, e o Império Romano tornou-se uma ferramenta nas mãos da Igreja.
Constantino percebeu sabiamente que a fé católica emergente uniria seu frágil Império. No entanto, ele sabia que a natureza adesiva da fé só se manteria se aquela fé permanecesse uma. Duas heresias ameaçavam a unidade da Igreja: Donatismo e Arianismo. O donatismo era um movimento rigorista que sustentava que os sacramentos administrados por um clérigo caduco eram inválidos e que a Igreja Católica em união com o bispo de Roma era frouxa e corrupta. A heresia ariana ensinava que Deus Filho não era totalmente divino como Deus Pai, mas que o Filho era apenas a primeira e mais elevada criatura do Pai.
Constantino não recuou e permitiu que esses movimentos heréticos prejudicassem a unidade da Igreja ou do Império. Em 316, Constantino resolveu uma disputa no norte da África a respeito dos donatistas. Ele governou a favor dos católicos. Mais significativamente, em 325 Constantino convocou o Concílio Universal de Nicéia. Este concilio derrubou os arianos e emitiu o Credo Niceno. Embora modificado em 381, o Credo Niceno ainda é recitado todos os domingos em todas as catedrais e paróquias católicas do mundo.
A questão ariana que provocou esse concílio foi resolvida pelos papas um século ou mais antes. No segundo século, o Papa São Vitor I excomungou Teódoto, um dos primeiros expoentes da heresia mais tarde chamada de “Arianismo”. O Papa São Dionísio I condenou a heresia mais tarde associada ao nome de Ário e estabeleceu o termo teológico mais tarde adotado pelo Concílio de Nicéia. No início do século IV, a heresia condenada por Vitor e Dionísio irrompeu novamente nos ensinamentos de Luciano de Antioquia. Sob o impulso de seu discípulo Ário, um sacerdote de Alexandria, a heresia espalhou-se por todo o Oriente como um incêndio.
O Papa Silvestre foi representado por dois padres romanos: Vitor e Vincente, e também pelo bispo de Córdoba, um deles de nome Ósio. Tanto Santo Atanásio quanto Teodoreto confirmam que Ósio era o presidente do Conselho. Em uma lista elaborada em ordem de classificação, o historiador (não o filósofo) Sócrates de Constantinopla lista Ósio antes de todos os bispos, antes dos bispos mais eminentes. Na verdade, Ósio e os dois padres assinaram os decretos primeiro. Depois de suas assinaturas, vem a de Santo Alexandre, Patriarca de Alexandria. Por direito, nenhum padre deveria ter assinado antes de qualquer bispo. Nem o bispo de Córdoba, na Espanha, tem o direito de assinar perante um Patriarca. Os outros bispos espanhóis assinaram mais abaixo na lista, onde Ósio teria feito, se ele apenas estivesse representando a si mesmo, e não o Papa Silvestre.
O Sínodo foi convocado, de acordo com o Sexto Concílio Ecumênico (Constantinopla III) por Constantino e o Papa Silvestre: “Ário surgiu como um adversário da doutrina da Trindade, Constantino e Silvestre imediatamente reuniram o grande Sínodo em Nicéia.”
De acordo com Sócrates de Constantinopla, o Papa Júlio afirmou que “a disciplina eclesiástica proíbe que um decreto seja recebido pelas Igrejas, a menos que seja sancionado pela Igreja Romana”. O papa Júlio governou a Igreja 11 anos após o Concílio e foi o papa que afirmou a ortodoxia de Atanásio. O próprio Atanásio cita este mesmo pontífice repreendendo os eusebianos (semi-arianos) por ignorarem sua própria autoridade (que ele “recebeu do abençoado apóstolo Pedro”).
O Cânon VI do Concílio de Nicéia é um exemplo desta última classe. O principal objetivo do decreto é confirmar os privilégios consagrados pelo tempo da Sé de Alexandria. O cânon 6 do Concílio concede a Alexandria uma autoridade metropolitana sobre o Egito, Líbia e Persépolis, e a razão dada para isso é que “isso também é costume do bispo de Roma”:

“Que prevaleçam os antigos costumes do Egito, Líbia e Pentápolis, de que o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes, já que isso é costume para o Bispo de Roma. Da mesma forma em Antioquia e nas outras províncias, que as Igrejas mantenham seus privilégios. E isso deve ser universalmente entendido, que se alguém for nomeado bispo sem o consentimento do metropolita, o grande Sínodo declarou que tal homem não deve ser bispo.”

No grego: “Ta archaia ethe krateito ta en Aigupto kai Liboe kai Pentapolei, hoste ton Alexandreias episopon panton touton echein dez exousian, epeide kai to en te Roma episkopo touto sunethes estin. Homoios de kai kata kai antiocheiano em tais allais eparchias ta presbeia sozesthai tais ekklesiais”

A versão latina mais antiga (aquela que foi lida no Concílio de Calcedônia) é mais direta : “Quoniam et Romano Episcopo hmc est consuetudo” que coincide com o nosso. Os escritores protestantes também interpretaram o texto da mesma forma que nós, embora naturalmente se esforcem depois para atenuar as suas pontas. Na tradução de August Neander: “Visto que este é o costume também com o bispo romano.”.[4] e Philip Schaff: “Visto que isso também é costume com o bispo de Roma.”.[5]
O grande sínodo decretou “que a antiga ordem das coisas no Egito, Líbia e Pentápolis deve ser mantida, a saber, que o bispo de Alexandria deve ter autoridade sobre todas essas províncias”. E para que desordens semelhantes não surjam em Antioquia ou em qualquer outro lugar, o Concílio decretou ainda “que todas as igrejas deveriam manter sua antiga posição.”
O cerne da dificuldade é o demonstrativo (touto), isso. “Este é o costume do bispo romano.” A que isso se refere? “Que o bispo de Alexandria mantenha seu antigo domínio sobre essas três províncias, pois esse também é o costume do bispo romano.”
Touto refere-se ao Patriarcado de Alexandria, mostrando que o Bispo de Alexandria continue a governar estas províncias, porque este é também o costume do Romano Pontífice, isto é, porque o Romano pontífice, antes de qualquer promulgação sinódica, reconheceu repetidamente a autoridade do bispo alexandrino sobre esta região do país.
Os bispos arianos (em especial, Eusébio de Nicomedia e o próprio Ário) pensavam que depois de expor seus motivos a assembleia concordaria. Mas quando Eusébio de Nicomédia tomou a palavra para dizer que Jesus Cristo “nada mais era do que uma criatura, ainda que excelsa e eminente, e que não era de natureza divina”, a imensa maioria dos participantes percebeu que essa doutrina atraiçoava a fé que tinham recebido dos Apóstolos. Os Padres Conciliares, para evitar as consequências de uma confusão tão grave, decidiram redigir, baseados no Credo batismal da Igreja de Cesareia, um símbolo de fé que fosse o reflexo, de forma sintética e clara, da confissão genuína da fé recebida e admitida pelos cristãos desde as origens. O Concílio de Nicéia condenou os ensinos de Ário como blasfêmia, e o seu Credo reafirma a Doutrina Original defendida desde o 1° Século de que Jesus Cristo é “da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, homoousios tou Patrou (consubstancial ao Pai)”. Todos os Padres Conciliares, menos os dois Bispos, no dia 19 de junho de 325, autenticaram esse Credo, que é o Símbolo de Niceno.
Além desta questão fundamental, em Niceia fixou-se a celebração da Páscoa no primeiro domingo depois da primeira lua cheia da primavera, seguindo a práxis habitual decidida pela Igreja de Roma no pontificado de São Vítor I no século II. Também foram tratadas algumas questões disciplinares de menor importância, pois eram referentes ao funcionamento interno da Igreja.
O resultado do concílio foi que a ortodoxia prevaleceu no Concílio. A ortodoxia defendida por Santo Atanásio era a declarada pelo Papa Vitor I (que um século e meio antes havia condenado o ensino de Teódoto, um ancestral doutrinal de Ário), e do Papa Dionísio I, que sessenta anos antes havia condenado o que foi chamado mais tarde de heresia ariana e que fixou o termo “homoousios” (Consubstancialidade) como um chave para uma cristologia autêntica.
O concilio reafirmou toda Ortodoxia, incluindo a autoridade primacial de Roma. Tanto, que o reformador protestante João Calvino admite no 4° volume de sua obra “As institutas da religião Cristã”:

“Quanto à antiguidade do primado da Sé Romana, nada há a favor da sua instituição mais antigo do que o decreto do Concílio de Nice, pelo qual o primeiro lugar entre os Patriarcas é atribuído ao Bispo de Roma, e ele é encarregado de cuidar das igrejas suburbanas. Enquanto o Concílio, ao dividir entre ele e os outros Patriarcas, designa os próprios limites de cada um, certamente não o nomeia chefe de todos, mas apenas um dos chefes.”
– “As institutas da religião Cristã”, volume 4, capítulo 7.[6]

As indicações nesse artigo mostram que a igreja de Roma emergiu a uma posição de preeminência já no primeiro século. O pontífice romano era, de fato, a única autoridade eclesiástica amplamente reconhecida e capaz de influenciar toda a cristandade a aceitar novos costumes ou observâncias.
Isso foi magistralmente explicado por São Tomás de Aquino em “Contra Errores Graecorum” (“contra os erros dos gregos”), um tratado curto escrito em 1263 para o Papa Urbano IV como uma contribuição para os esforços do Papa em reunir as Igrejas Cismaticas do Oriente. Nele, São Tomás menciona os fatos de:

“Que o Romano Pontífice é o primeiro e o maior entre todos os bispos.

O erro de quem afirma que o Vigário de Cristo, Pontífice da Igreja Romana, não tem primazia sobre a Igreja universal, é semelhante ao erro de quem afirma que o Espírito Santo não procede do Filho. Pois o próprio Cristo, Filho de Deus, a consagra e a marca como sua com o Espírito Santo, como se fosse com seu próprio caráter e selo, como as autoridades já citadas deixam abundantemente claro. E do mesmo modo o Vigário de Cristo, por seu primado e previdência como servidor fiel, mantém a Igreja universal sujeita a Cristo. Deve, então, ser demonstrado a partir dos textos dos doutores gregos acima mencionados que o Vigário de Cristo detém a plenitude do poder sobre toda a Igreja de Cristo.
Ora, que o Romano Pontífice, sucessor de Pedro e Vigário de Cristo, é o primeiro e o maior de todos os bispos, está expressamente afirmado no cânone do Concílio que diz: “Segundo as Escrituras e a definição do cânon que veneramos o mais sagrado bispo da velha Roma como o primeiro e o maior de todos os bispos.”
Isso, além disso, está de acordo com a Sagrada Escritura, que tanto nos Evangelhos quanto nos Atos dos Apóstolos (Mateus 16,18, João 21,17, Atos 1,15-16, 2,14, 15,17) atribui o primeiro lugar entre os apóstolos a Pedro. Daí, o comentário de Crisóstomo sobre o texto de Mateus 8,1: Os discípulos vieram a Jesus e perguntaram, quem é o maior no reino dos céus, diz: “Porque criaram em suas mentes uma pedra de tropeço humana, que podiam não ficam mais para si mesmos; nem controlaram o orgulho do coração, porque viram que Pedro foi preferido a eles e recebeu um lugar mais honrado. ”

Que o mesmo Pontífice tem jurisdição universal sobre toda a Igreja de Cristo.

Também é mostrado que o Vigário de Cristo tem jurisdição universal sobre toda a Igreja de Cristo. Pois está registrado no Concílio de Calcedônia como todo o sínodo aclamou o Papa Leão: “Viva Leão, o santíssimo, apostólico e ecumênico, isto é, patriarca universal”.
E Crisóstomo comentando sobre Mateus diz: “O poder que é do Pai e do próprio Filho, o Filho conferiu mundialmente a Pedro e deu ao homem mortal autoridade sobre todas as coisas do céu, dando-lhe as chaves para que pudesse estender a Igreja em todo o mundo.” E na homilia 85 sobre João: “Ele atribuiu a Tiago um determinado território, mas nomeou Pedro mestre e mestre de todo o mundo”. Novamente, comentando sobre os Atos dos Apóstolos: “Não como Moisés sobre um povo, mas em todo o mundo Pedro recebeu do Filho poder sobre todos os seus filhos”.
Isso também é ensinado com base na autoridade das Sagradas Escrituras. Pois Cristo confiou suas ovelhas aos cuidados de Pedro sem restrição, quando ele disse no último capítulo de João (21,15): Apascenta minhas ovelhas, e em João 10,16: Para que haja um só rebanho e um só pastor.

Que o mesmo possui na Igreja uma plenitude de poder.

Também se estabelece a partir dos textos dos doutores citados que o Romano Pontífice possui plenitude de poder na Igreja. Para Cirilo, o Patriarca de Alexandria, diz em seu “Thesaurus”: “Visto que Cristo veio de Israel como líder e cetro da Igreja dos Gentios foi concedido pelo Pai o mais completo poder sobre cada principado e poder e tudo o que é que todos possam dobrar os joelhos a ele, então ele confiou mais plenamente poder para Pedro e seus sucessores.” E ainda: “A ninguém mais senão a Pedro e somente a ele Cristo deu o que é totalmente seu”. E mais adiante: “Os pés de Cristo são a sua humanidade, isto é, o próprio homem, a quem toda a Trindade deu a força máxima, que um dos Três assumiu na unidade da sua pessoa e elevou-se ao alto ao Pai acima de cada principado e potestade, para que todos os anjos de Deus o adorem (Hebreus 1,6); tudo o que ele deixou em sacramento e poder a Pedro e à sua Igreja”.
E Crisóstomo diz à delegação búlgara que fala na pessoa de Cristo: “Três vezes te pergunto se você me ama, porque você me negou três vezes por medo e apreensão. Agora restaurado, porém, para que os irmãos não acreditem que você perdeu a graça e autoridade das chaves, eu agora confirmo em você o que é totalmente meu, porque você me ama na presença deles.”
Isso também é ensinado com base na autoridade das Escrituras. Pois em Mateus 16,19 o Senhor disse a Pedro sem restrição: Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus.

Que ele desfruta do mesmo poder conferido a Pedro por Cristo.

Mostra-se também que Pedro é o Vigário de Cristo e o Romano Pontífice é o sucessor de Pedro, gozando do mesmo poder conferido a Pedro por Cristo. Pois o cânone do Concílio de Calcedônia diz: “Se algum bispo for sentenciado como culpado de infâmia, ele é livre para apelar da sentença ao bendito bispo da velha Roma, a quem temos como Pedro, a rocha de refúgio, e somente a ele, no lugar de Deus, com poder ilimitado, é concedida autoridade para ouvir o apelo de um bispo acusado de infâmia em virtude das chaves que lhe foram dadas pelo Senhor.” E mais adiante: “E tudo o que foi decretado por ele deve ser mantido como do vigário do trono apostólico.”
Da mesma forma, Cirilo, o Patriarca de Jerusalém, diz, falando na pessoa de Cristo ”“ Você por um tempo, mas eu estarei plena e perfeitamente em sacramento e autoridade com todos aqueles que eu colocar em seu lugar, assim como Eu estou contigo.” E Cirilo de Alexandria em seu Tesauro diz que os Apóstolos “nos Evangelhos e nas Epístolas afirmaram em todos os seus ensinos que Pedro e sua Igreja estão no lugar do Senhor, garantindo-lhe a participação em cada capítulo e assembleia, em cada eleição e proclamação de doutrina. ” E mais adiante: “A ele, isto é, a Pedro, todos por decreto divino inclinam a cabeça e os governantes do mundo obedecem-lhe como o próprio Senhor.”. E Crisóstomo, falando na pessoa de Cristo, diz: “Apascenta as minhas ovelhas (João 21,17), isto é, em meu lugar cuida dos teus irmãos”.

Que a ele pertence o direito de decidir o que pertence à fé.

Também é demonstrado que ao citado Pontífice pertence o direito de decidir o que pertence à fé. Para Cirilo em seu Thesaurus diz: “Vamos permanecer como membros em nossa cabeça no trono apostólico dos Romanos Pontífices, de quem é nosso dever buscar o que devemos acreditar e o que devemos guardar”. E Máximo na carta dirigida aos orientais diz: “Todos os confins da terra que acolheram sinceramente o Senhor e os católicos em todos os lugares que professam a verdadeira fé olham para a Igreja dos Romanos como para o sol, e recebem dela a luz do a fé católica e apostólica”.” Com razão, pois Pedro é registrado como o primeiro a ter, enquanto o Senhor o iluminava, confessou a fé perfeitamente quando disse a ele (Mateus 16,16): Você é o Cristo, o Filho do Deus vivo. E por isso o Senhor também lhe disse (Lucas 22,32): ‘Rezei por ti, Pedro, para que a tua fé não desfaleça’.

Que ele é o superior dos outros patriarcas.

Também fica claro que ele é o superior dos outros patriarcas a partir desta declaração de Cirilo: “É dele”, a saber, dos Romanos Pontífices do trono apostólico, “direito exclusivo de reprovar, corrigir, decretar, resolver, dispor e liga em nome daquele que o estabeleceu. ” E Crisóstomo comentando os Atos dos Apóstolos diz que “Pedro é o cume santíssimo do bendito coro apostólico, o bom pastor”.
E isso também é manifesto na autoridade do Senhor, em Lucas 22,32 dizendo: “Vós, uma vez convertidos, confirmai vossos irmãos.”

Que estar sujeito ao Romano Pontífice é necessário para a salvação.

Também é mostrado que estar sujeito ao Romano Pontífice é necessário para a salvação. Pois Cirilo diz em seu Thesaurus : “Portanto, irmãos, se deve imitar a Cristo para ouvir sua voz permanecendo na Igreja de Pedro e para não se ensoberbecer com o vento do orgulho, para que talvez não por causa de nossa contenda com a astuta serpente tire-nos do paraíso como uma vez fez com Eva.” E Máximo na carta dirigida aos orientais diz: “A Igreja unida e estabelecida sobre a rocha da confissão de Pedro chamamos de acordo com o decreto do Salvador de Igreja universal, na qual devemos permanecer para a salvação de nossas almas e na qual somos leais a sua fé e confissão, devemos obedecê-lo”.”
-“Contra Errores Graecorum”, capítulos 32-38.[7]

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