AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS

AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS

As realidades últimas (εσχατον ) são as realidades posteriores à vida terrena do homem e à história da humanidade. O mundo e o homem são obras de Deus, por Ele livremente criados’, a Ele ordenados numa teleologia sublime que, em última análise, não é outra coisa senão a história da salvação. O homem não termina sua existência metafísica com a morte, que é, ao contrário, o ingresso numa nova vida; e também o mundo, que foi feito espectador da maravilhosa providência de Deus Criador e Redentor, deverá ser transfigurado para transformar-se no cenário do próprio Deus, que irá consumar Seu ato de amor.
Há, portanto, duas escatologias: a humana, que começa com a morte de cada um de nós e com o cumprimento de seu destino na outra vida, e a cósmica, que inicia com o fim da história. Será, então, o fim dos tempos, quando Cristo Ressuscitado, vencedor da morte e do pecado, julgará a humanidade inteira e inaugurará definitivamente o Reino de Deus, onde não haverá nem lágrimas, nem morte, e Deus será tudo em todos: “Já não haverá noite e não terão mais necessidade de luz de lâmpada, nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os iluminará e reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22,5).
A escatologia, última na ordem temporal, é também o objeto último da nossa Esperança, que dá sentido à vida cristã, que vive da Fé: “A Fé é a substância das coisas que  se esperam e prova das que não se veem” [Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium] (Hb 11,1). “Se é só para esta vida que temos posto nossa Esperança em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens” ( ICor 15,19). As realidades escatológicas não são, portanto, as últimas apenas em sentido histórico e temporal, mas também porque são a consumação definitiva da Obra da salvação e a coroa da vitória do amor de Deus pelos homens. Podemos, pois, distinguir:
1) Escatologia individual: morte, juízo, inferno, purgatório, paraíso. É o que comumente se chamam “os novíssimos”, termo derivado dos livros sapienciais: “Em todas as tuas obras lembra-se do teu fim [novíssima tua] e jamais pecarás” (Eclo 7,40).
2) Escatologia coletiva: ressurreição, juízo universal, fim da história em um novo céu e em uma nova terra (cf. Ap 21, 1.5).
3) Escatologia intermediária: chama-se o tempo que transcorre entre a morte do homem e a ressurreição final. A morte marca o destino definitivo para cada um dos homens: para os justos, a vida eterna; para os réprobos, a morte eterna; para os justos, ainda não inteiramente limpos, uma purificação prévia que os prepare para a vida eterna, isto é, o purgatório.
Como acontece com outras verdades reveladas, o Magistério da Igreja limitou-se a definir os pontos essenciais da Fé contra as heresias que foram surgindo no decorrer do tempo. Deste modo foi sendo explicitado, à luz da Sagrada Escritura e da Tradição, o núcleo mais simples dos primitivos símbolos da Fé: a eternidade da retribuição, inclusive para os ímpios (contra os origenistas); a vida eterna, como visão imediata de Deus, em dois sentidos: como ausência de um meio interposto à contemplação e como inexistência de um tempo transitório antes da visão (contra algumas tendências primitivas que retardavam a bem aventurança eterna); a necessidade de uma purificação para quem morre na graça de Deus, mas não se acha de todo purificado (contra os erros de alguns orientais e dos protestantes); a ressurreição do homem todo, não só a sobrevivência da alma, no fim dos tempos. Num ambiente impregnado de dualismo platônico, queconsiderava a ressurreição uma volta da alma ao cárcere do corpo, inaceitável diante de uma filosofia que desprezava a matéria, São Paulo reivindica a ressurreição como verdade revelada por Deus (cf. At 17,32). Este dualismo ressurgiu várias vezes na Idade Média, contra o qual a Igreja sempre defendeu a dignidade de toda a Criação material, principalmente do corpo humano. Nos tempos atuais, renascem tendências diametralmente opostas ao sentido da antropologia tradicional, que concebe o homem como um ser composto de corpo (material mortal) e alma (espiritual e imortal). Segundo os autores dessa tendência (C. Stange em 1925, K. Barth em 1940, H. Thielicke em 1946, E. Brunner e O. Cullman em 1953, P. Menoud em 1966, seguidos de alguns teólogos católicos), a antropologia tradicional, por eles chamada dualista, não é bíblica, mas helenística; e em nome do pensamento hebraico sustentam que o homem é uma unidade indivisível, que nasce, vive e morre inteiro, alma e corpo; a alma é, portanto, para eles, mortal e morreria com o corpo; enfim, morreria o homem todo. A ressurreição consistiria, para eles, numa nova criação de Deus: a recriação do homem novo no mesmo instante de sua morte, um homem obviamente espiritualizado.

É impossível conciliar estas teorias com o dogma católico da ressurreição, que supõe uma identidade pessoal e física com o homem terreno. Por isso, certos autores procuraram apoiar suas afirmações na hipótese da sobrevivência de um núcleo pessoal: nisto consistiria, para eles, a ressurreição no momento da morte. Mas esta solução leva necessariamente a suprimir a escatologia intermediária, que supõe a permanência da vida na alma depois da morte do corpo. O Magistério teve ultimamente que intervir também nesta questão.
Quanto à escatologia cósmica, é preciso dizer que a Igreja sempre defendeu a dignidade da matéria contra todo tipo de dualismo (platônico ou não): a matéria, pelo menos quanto ao corpo ressuscitado, tem uma herança eterna e, como parte do Corpo de Cristo unido à divindade, foi instrumento de salvação para toda a humanidade e cumprirá plenamente sua finalidade no homem escatológico’.
I. A RESSURREIÇÃO
São Paulo dá evidente testemunho, mais de uma vez, de que a ressurreição dos mortos é um tema primordial da Fé cristã, especialmente em I Cor 15; explica-se assim como os símbolos mais primitivos, que professam só as verdades essenciais da Fé, jamais deixam de afirmar a ressurreição dos mortos: o chamado símbolo ambrosiano, seja qual for a data de sua composição, já contém esta afirmação, que se acha também nos escritores cristãos do séc. II¹.
1) Carta Propter subitas de Clemente I(97?)

O mais antigo testemunho de Fé na ressurreição dos mortos, dado por um Papa, depois de São Pedro, está no seguinte fragmento da carta de São Clemente de Roma aos coríntios.24, 1-3. Consideremos, caríssimos, como o Senhor nos mostra continuamente a futura ressurreição [αναστασιν], da qual deu as primícias no Senhor Jesus Cristo, ressuscitando-Oεκ dos mortos [εκ νεκρων αvαστησας]. Vejamos, caríssimos, a ressurreição que se dá na sucessão do tempo. O dia e a noite nos oferecem um exemplo claro da ressurreição: adormece a noite, surge o dia; vai-se o dia, vem a noite.

2) Papiro de Dêr-Balyzeh
(séc. III?)
Este fragmento, encontrado em Dêr-Balyzeh e composto em meados do séc. VI, descreve a liturgia vigente em pelo menos dois séculos, mas o símbolo é muito mais primitivo, como se vê pela sua extrema simplicidade e por seu reduzido número das verdades de Fé.
TEXTO: G. ROBERTS-B. CAPELLE, An early Euchologion, Louvain, 1940, 32.
 Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, e em Seu Filho 2 Unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, e no Espírito Santo, e na ressurreição da carne [εις σαρκος αναστασι], [e na] Santa Igreja Católica.
3) I Concílio de Nicéia (I ecumênico) Símbolo da Fé
(19/06/325)

4) Símbolo de Epifânio
(374)
Deve-se notar neste símbolo a insistência na identidade do Corpo glorioso do Senhor com o Corpo que padeceu na Cruz.

5) I Concílio de Constantinopla (II ecumênico) Símbolo da Fé
(381)

6) Fides Damasi (séc. V?)
De origem obscura, no passado foi atribuído ao Papa São Dâmaso ou a São Jerônimo, mas hoje geralmente se pensa que tenha provindo das Gálias e que foi composto em fins do séc. V. Uma peculiaridade deste símbolo é que, ao falar da ressurreição, afirma tratar-se “do mesmo corpo no qual agora vivemos”; esta precisão será acolhida nos símbolos posteriores, sem, no entanto, jamais se definir o que seja necessário para que o corpo ressuscitado possa ser numericamente o mesmo.
TEXTO: A. E. BURN, An Introduction to the Creeds and to the Te Deum, London, 1899, 245-246.

No fim dos tempos o Filho desceu do Pai para nos salvar e para cumprir as Escrituras, mas sem jamais deixar de estar com o Pai, e foi concebido por obra do Espírito Santo, e nasceu da Virgem [Maria], assumiu a carne, a alma e a inteligência, isto é, uma humanidade completa [perfectum suscepit hominem], e sem deixar de ser o que era começou a ser o que não era [nec amisit, quod erat, sed coepit esse, quod non erat], de tal modo que é perfeito na Sua natureza e verdadeiro na nossa [ut perfectus in suis sit et verus in nostris]. Porque Aquele que era Deus nasceu como homem, e Aquele que nasceu como homem age como Deus, e Aquele que age como Deus morre como homem, e Aquele que morre como homem ressurge como Deus [Nam qui Deus erat, homo natus est, et qui homo natus est, operatur ut Deus; et qui operatur ut Deus, ut homo moritur; et qui ut homo moritur, ut Deus resurgit]. Ele, tendo vencido o império da morte, ressuscitou ao terceiro dia com a Carne na qual nasceu, padeceu e morreu, subiu ao Pai e está sentado à Sua direita na glória que sempre teve e tem. Cremos estarmos purificados na Sua morte e no Seu sangue (cf. I Jo 1,7) e que devemos ser por Ele ressuscitados, no último dia, nesta carne em que agora vivemos [in hac carne, qua nunc vivimus], e temos a Esperança de que por Ele alcançaremos a vida eterna como prêmio por nossas boas obras, ou a pena do suplício eterno pelos pecados. Lê estas coisas, recorda-as e submete a tua alma a esta Fé, e por Cristo Senhor obterás a vida e a recompensa.
7) Símbolo Quicumque
(?)
Este símbolo, chamado Quicumque por sua palavra inicial, ou atanasiano porque até o séc. XVII era atribuído a Santo Atanásio, circulou nas Igrejas do Oriente e do Ocidente como legítima expressão da Fé universal, com uma autoridade comparável só ao Símbolo dos Apóstolos ou ao de Nicéia, e foi inserido também no breviário. É certamente posterior ao I Concílio de Constantinopla (381), mas anterior ao IV de Toledo (633), que o menciona. O verdadeiro autor é desconhecido: além de Santo Atanásio, foram propostos como autores Santo Hilário de Poitiers (+367), Santo Ambrósio de Milão (†397), Nicetas de Remesiana (t c.414), São Vicente de Lérins († antes de 450), São Fulgêncio de Ruspe (+532), São Cesário de Arles (†541) e muitos outros.

8) I Concílio de Braga
(01/05/561)
O Concílio de Braga estava decidido a erradicar os últimos resquícios do priscilianismo, que, entre outras coisas, negava a ressurreição dos corpos, contrária aos seus pressupostos maniqueístas sobre a origem demoníaca da matéria; da ressurreição, portanto, devia o concílio tratar.
9) XI Concílio de Toledo (7.11.675)
Este concílio não foi universal, mas dele recebemos uma profissão de Fé que é considerada ainda hoje um documento dogmático de primeira ordem para a precisão com que é expressa a Fé católica. Depois dos mistérios da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo, toca no dogma da ressurreição dos mortos, em conexão com a Ressurreição de Cristo. A insistência na identidade entre corpo ressuscitado e corpo terreno mostra que já naquele tempo havia quem imaginasse a ressurreição de modo heterodoxo, como se ressuscitasse só um núcleo espiritual e incorpóreo.
TEXTO: Msi 11, 136-137. J. MADOZ, “Le Symbole du XI concile de Tolède”: Spicilegium sacrum Lovaniense 19(1938) 25-26.

 Por este nosso exemplo [capitis nostri] confessamos, portanto, que há uma verdadeira ressurreição da carne de todos os mortos [confitemur veram fieri (al. vera fide) resurrectionem carnis omnium mortuorum]; e não cremos, como deliram alguns, que ressuscitaremos numa carne incorpórea [aérea] ou numa outra carne qualquer, mas, sim, nesta em que vivemos, subsistimos e nos movemos [sed in ista, qua vivimus, consistimus et movemur]. Consumado o modelo desta santa Ressurreição, o mesmo Senhor e Salvador Nosso voltou em Sua Ascensão ao trono paterno, do qual, em razão da divindade, nunca Se separara. Sentado aí à direita do Pai, é esperado no final dos tempos como Juíz dos vivos e dos mortos. Daí virá com os santos anjos e os homens [santos] para julgar e dar a cada um o devido segundo o próprio mérito, de acordo com o que cada um fez quando ainda estava no corpo, seja o bem, seja o mal (cf. II Cor 5,10).
Cremos que a Santa Igreja Católica, conquistada com o preço do Seu sangue, há de com Ele reinar para sempre. Formados em seu seio, cremos e confessamos que há um só Batismo para a remissão de todos os pecados. Nesta Fé cremos verdadeiramente na ressurreição dos mortos [et resurrectionem mortuorum veraciter credimus] e esperamos as alegrias do mundo futuro. Só uma coisa devemos pedir e nela insistir: que quando o Filho, uma vez feito e concluído o juízo, “entregar o Reino a Deus [e] Pai” (I Cor 15,24), nos faça participantes do Seu Reino, para que, por esta Fé, pela qual a Ele aderimos, com Ele reinemos eternamente. Esta é a confissão e exposição da nossa Fé, pela qual se destrói a doutrina de todos os hereges, pela qual se purificam os corações dos fiéis, pela qual, enfim, se sobe a Deus na glória por todos os séculos dos séculos. Amém.
10) Carta Congratulamur vehementer de Leão IX
(13/04/1053)
A carta que o Papa enviou a Pedro III, quando em Constantinopla foi sagrado bispo da Sé de Antioquia (1052), contém uma profissão de Fé em resposta àquela que o novo bispo havia escrito ao Papa, como de costume, em comunhão com a Sé Apostólica. Foi redigida, sem dúvida, pelo Cardeal Humberto e é muito semelhante à dos Statuta Ecclesiae antiqua, que serviu de base, no Concílio de Lyon de 1274, à profissão de Fé de Miguel Paleólogo.

TEXTO: Msi 19, 622; C. WILL, Acta et scripta quae de controversiis Ecclesiae Graecae et Latinae saec. XI composita exstant, Leipzig, 1861, 170-171.
 Creio que a Santa, Católica e Apostólica é a única Igreja verdadeira, na qual se dá o único Batismo e a verdadeira remissão de todos os pecados. Creio também na verdadeira ressurreição desta carne [veram resurrectionem eiusdem carnis], que agora trago comigo, e na vida eterna.
11) Carta Eius exemplo de Inocêncio III (18/12/1208)
Entre os muitos documentos de Inocêncio III selecionamos um trecho da profissão de Fé enviada ao arcebispo de Tarragona para ser assinada por Durando de Huesca e seus adeptos [os valdenses], profissão que insiste na identidade do corpo glorioso com o corpo mortal, testemunhando também a escatologia intermediária.
TEXTO: PL 215, 15.
 Cremos de coração e professamos com a boca [Corde credimus et ore confitemur] a ressurreição desta carne que trazemos conosco e não de outra [huius carnis, quam gestamus, et non alterius resurrectionem]. Cremos, pois, firmemente e afirmamos que seremos julgados por Jesus Cristo e que cada um receberá ou a pena ou o prêmio pelo que tiver feito neste corpo [in hac carne]. Cremos que as esmolas, o sacrifício e as outras boas obras podem ser proveitosas aos fiéis defuntos.

12) IV Concílio de Latrão (XII ecumênico) (novembro de 1215)
O concílio deu a público uma profissão de Fé que repete as afirmações do documento anterior: foi presidido, de fato, pelo próprio Papa Inocêncio III.

¹Citamos, entre outros, SÃO JUSTINO, De resurrectione: PG 6, 1572-1592 (obra que deve ser considerada autêntica depois do estudo de P. PRIGENT, Justin et l’Ancien Testament, Paris, 1964); SANTO IRINEU, Adversus haereses 5, 3-4: PG 7, 1128-1134; ATENÁGORAS, De resurrectione mortuorum: PG 6, 973-1024 (segundo B. ALTANER, Patrologia, Edições Paulinas, São Paulo, 1972, p. 84, “é sem dúvida a melhor obra escrita dos antigos sobre a ressurreição”).

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