AS ORIGENS HERÉTICAS DA ICONOCLASTIA



“As imagens são honradas por todos os fiéis, para que, através de um rosto visível, a nossa alma seja arrebatada até à majestade invisível de Deus, com um afeto espiritual através da contemplação da imagem representada segundo a carne que o Filho de Deus se dignou assumir para nossa redenção.”
– Jean-Claude Schimitt pág. 57

O Império Bizantino do século VIII até o XI

Este é um artigo introdutório acerca do tema iconoclastia, para quem não sabe o significado, iconoclastas se refere aos quebradores de imagens, os que rejeitam as imagens. Será abordado esse tema na perspectiva de vários autores, alguns com obras sem tradução no Brasil, mas todos os especialistas no assunto. Verificaremos principalmente o Império Bizantino a partir do século VIII, foi no oriente que se deu a heresia iconoclasta. No Ocidente o que podemos chamar de “a crise da imagem” ocorreu de forma sistêmica a partir da reforma protestante, parafraseando Peter Burke “foi um momento de crise da imagem, uma mudança do que podemos chamar cultura visual para uma cultura textual” (PG.89), o próprio Burke nos aponta que “numa cultura de iletrados, as imagens oferecem uma evidência muito mais rica de que os textos” (PG. 89), ele continua falando numa folclorização do protestantismo quando aponta um crítico das imagens que, ele próprio estava se tornando objeto de um culto semelhante.
No Ocidente antes da reforma protestante tivemos um momento de discussões sobre as imagens, isso ocorreu no período dos reinos francos e com libre carolini, neste período se discutiu a função da imagem e não propriamente sua proibição. No desenvolvimento do pensamento cristão das imagens recorremos a uma análise de Marie-José Mondzain;

“[…] O pensamento icônico nos concerne a todos, hoje em dia, no mundo profano e laico, sem haver necessariamente, no interesse que se dedica a ele, a menor preocupação apologética ou doutrinária. Entretanto, o uso ideológico que agora se faz dos temas icônicos obriga-nos a retornar às fontes para mostrar a autonomia do campo filosófico em relação ao domínio propriamente religioso. Para alguém como Nicéforo, é a causa do pensamento que é sagrada; se o ícone é sagrado, é porque funda a própria possibilidade do pensar. Hoje, a reflexão sobre a imagem só continua a ser uma causa sagrada porque o destino do pensamento e da liberdade constitui seu desafio. Será que o mundo visível, esse que nos é dado ver, é liberdade ou escravidão? Para poder contemplar um mundo radicalmente baseado na visibilidade, a partir da convicção da invisibilidade do que constitui sua essência e seu sentido, foi preciso produzir um pensamento que relacionasse o visível e o invisível. Essa relação apoiou-se na distinção entre a imagem e o ícone. A imagem é invisível, o ícone é visível. A economia foi o conceito de sua articulação viva. A imagem é mistério, o ícone é enigma. A economia foi o conceito de sua relação e sua intimidade. A imagem é eterna similitude, o ícone é semelhança temporal.
A economia foi o conceito de transfiguração da história.”

Apontaremos doravante as motivações, discussões, perseguições e as soluções sobre o tema da iconoclastia.
Entenderemos a questão política, a dinastia reinante no século VII foi a Heráclida que tentou, com seu último governante, aumentar a tributação da aristocracia local, o que gerou crescente insatisfação. Justiniano II acabou sendo deposto no ano de 711 e institui-se uma nova dinastia: a Isáurica. Foi um período de grandes problemas externos, oriundos de várias frentes como os árabes e os búlgaros. Ganhos e perdas foram processados; ora as fronteiras do Império recuavam, ora se expandiam. No entanto, nunca foi recuperado o apogeu do período de Justiniano.

A questão iconoclasta

Antecedentes: Não é possível tratarmos da questão Iconoclasta, ocorrida no Império Bizantino do século VIII, sem entendermos seus antecedentes, conhecermos alguns elementos de História da Arte e, sobretudo, dominarmos o significado do conceito ícone. A palavra ícone tem sua origem no grego eikon, termo que pode ser traduzido grosseiramente por imagem e que adquiriu expressividade na representação religiosa. Em outras palavras, ícone seria a imagem, a projeção que é feita de alguma situação ou de alguém. No que diz respeito à arte religiosa, temos referências de que os primeiros cristãos tinham o costume de adornar as catacumbas onde se reuniam nas fases de perseguição, com símbolos. Um dos símbolos mais utilizados era do peixe, que significava o reconhecimento dos seguidores de Jesus. A palavra peixe em grego significa ICHTHYS, cujas iniciais poderiam ser traduzidas como IESUS CHRISTUS THEOS YIOS SOTER (“Jesus Cristo, filho do Deus Salvador”). Temos ainda relatos da existência de algumas esculturas e estátuas retratando santos, anjos, ainda nos séculos II e III. Citando Engelberto Kirschbaum, Eduardo Junyent, e Jose Vives;

“Como se manifestam nos cemitérios cristãos de Roma e nos monumentos funerários que encerram e segundo os tempos em que ocorrem e se cruzam, a exposição temática de arte cristã pode ser acompanhada nos seus canais naturais e com toda a força do seu expressão na verdadeira compreensão do seu conteúdo. Dos temas da arte clássica preservados pelo Cristianismo, muitas vezes com outro significado, dos símbolos que aparecem como claramente cristãos aos temas de origem funerária, que são criados a partir da segunda metade do século II; aos temas referentes à salvação, que se espalharam em meados do século III para se desenvolver em ambos sentidos com novas concepções artísticas, até os últimos anos do século IV, uma visão progressista é adquirida de figurações representativas da arte sepulcral. Da mesma forma, desde os temas cristológicos com sentido narrativo impregnado de alegorias que aparecem em locais de culto desde a segunda metade do século III, cujo eco é evocado nos mesmos monumentos funerários, até chegar à arte transcendental com temas históricos glorificantes que têm uma impacto na decoração dos santuários dos mártires, a mesma visão progressista se completa como foi realizada em um dos centros artísticos mais importantes.”
– “La Tumba de San Pedro y las Catacumbas Romanas”, pagina 270

Em termos de História da Arte, as cores dos ícones possuem significados especiais e não são meras escolhas aleatórias. Toda vez que era empregado o azul, a intenção era mostrar o transcendental, o imanente; o verde, a natureza, a criação de Deus; o branco mantém sua significância, a paz, a harmonia; o vermelho, a cor de maior humanidade, representa a concepção de martírio. Era muito comum também a utilização do dourado para destacar roupas, coroas e bordas.
Nas primeiras basílicas destaca-se também que não houve, desde os primórdios, um consenso sobre a pertinência ou não dessas representações. No caso das primeiras basílicas, o ponto era se deviam decorá-las e como. Segundo o historiador da arte Ernst Gombrich:

“Num ponto os primeiros cristãos debatiam: se não devia haver estátuas na Casa do Senhor. As estátuas pareciam-se demais com as imagens esculpidas de ídolos pagãos que a Bíblia condenava. Colocar uma figura de Deus, ou de um dos seus santos, no altar parecia criar confusão aos pagãos convertidos. Pois, como iriam os míseros pagãos recém-convertidos à nova fé aprender a distinguir entre suas antigas crenças e a nova mensagem, se vissem tais estátuas nas igrejas?”
(GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro:LTC, 2008, p.135).

Observe que havia uma discussão num período inicial da Igreja, esse período segundo o autor, abrange o final do primeiro século em diante. Em relação às pinturas, houve, inicialmente, uma tolerância maior dada à sua funcionalidade lembrada, sobretudo, pelo papa São Gregório Magno no final do século VI, lembrou àqueles que eram contra qualquer pintura, que muitos membros da Igreja não sabiam ler, nem escrever, e que para ensiná-los, essas imagens eram tão úteis quanto os desenhos de um livro ilustrado para crianças. Disse ele: “A pintura pode realizar pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem ler.”

IDEIAS MONOFISITAS

Como veremos em futuras publicações, em algumas áreas do Império Bizantino, avolumou-se o número de seguidores das ideias monofisistas. Um de seus principais líderes, Severo de Antioquia, era visceralmente avesso a qualquer representação de Cristo, de Maria ou dos santos e suas ideias foram seguidas por muitos indivíduos. Lembre-se que os monofisistas acreditavam que a natureza de Cristo era uma, ou seja, apenas espiritual; a humana fora absorvida pela imaterial. Outro dado curioso sobre o nascimento e desenvolvimento da Iconoclastia, ou seja, movimento contra a criação e veneração de imagens sagradas, é sua localização geográfica. A Iconoclastia foi muito mais intensa em regiões fronteiriças com comunidades islâmicas. Por serem contrários a essa prática, conforme veremos, muitos imperadores bizantinos, em nome de uma boa convivência com os árabes, “fecharam os olhos” para o movimento.

A Questão Iconoclasta

No século VIII, no entanto, a questão ganhou um novo e expressivo capítulo que foi denominado questão Iconoclasta. Será abordado que, no Império Bizantino, que o governante gozava de um poder bastante extenso, o Cesaropapismo. Na prática, o governante assumia o poder temporal e religioso ingerindo, inclusive, questões doutrinárias. No ano de 730, o imperador Leão III estabeleceu que não deveria ocorrer nas terras do Império qualquer tipo de veneração ou como eles acusavam “adoração” às Imagens. Seguiu-se uma verdadeira caça aos iconófilos e seus símbolos, com a destruição de grande quantidade de ícones, pinturas, enfeites, sendo uma lamentável perda cultural. O imperador seguinte, Constantino V, após o Concílio iconoclasta de Hieria do ano de 754, oficializou a Iconoclastia. Todos os que se mantinham venerando às imagens foram perseguidos e punidos, particularmente os religiosos.

A OPÇÃO DA IGREJA PELA ICONOCLASTIA

Essa opção pela Iconoclastia foi totalmente unilateral, ou seja, os bispos ocidentais não participaram do Concílio e nem concordavam com a decisão. Mais uma vez a Igreja Ocidental e a oriental discordavam sobre questões dogmáticas. Foi o ensejo para um pequeno Cisma, só amainado 23 anos depois quando a Imperatriz Irene aprovou o dogma da Iconofilia. É necessário salientar que outros Concílios e Imperadores posteriores retrocederam nessa decisão, afastando cada vez mais os lados ocidental e oriental da Igreja, a ponto de culminar no rompimento final, como veremos à frente. As “outras” causas da Questão Iconoclasta: “Muitos estudiosos entendem que a questão da veneração ou não de imagens transcendiam em muito a problemas meramente dogmáticos. Um dos motivos seria a preocupação com a grande ingerência da Igreja dentro do Império. Ela adquirira grandes propriedades. O número de mosteiros se ampliara, logo sua influência junto ao povo também. Além disso, a riqueza e a influência que os mosteiros amealharam eram cobiçadas pelos imperadores. Como grande parte desse patrimônio era oriunda da confecção e venda dos ícones, uma maneira de enfraquecê-la era proibir sua fabricação e circulação comercial, além de confiscar propriedades dos iconófilos. Outra teoria defendida refere-se a questões de ordem administrativa. Em algumas áreas do Império Bizantino, ou ainda em seus limites, existiam comunidades seguidoras do Islamismo e do Judaísmo, opostas à prática da veneração de imagens. Abolir tal dogma seria um caminho plausível para a convivência e até mesmo dominação desses povos. De qualquer forma, muito dessa tradição se perdeu, ganhando novo fôlego apenas no século XII quando o emprego de materiais mais sofisticados tornou-se regra. É dessa época e de períodos póstumos a maior parte dos elementos de que dispomos.

Na imagem abaixo, Cristo é esmagado em uma prensa como um cacho de uvas simbólico e o sangue (vinho eucarístico) que flui de suas feridas é recolhido em um recipiente (o Fons Vitae ) que idealmente pode beber toda a humanidade e assim ser purificado do pecado. O Papa Gregório Magno é quem recolhe o sangue na forma de hóstia.

BIBLIOGRAFIA;

Jean-Claude Schmitt
O Corpo Das Imagens, Peter Burke e 1 mais
Testemunha ocular: O uso de imagens como evidência histórica, Marie-josé Mondzain
Imagem, Icone, Economia

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