História da igreja primitiva

A IGREJA DOS APÓSTOLOS

Para compreender o sentido do mistério profético da igreja vamos à tradição profética judaica. De que todos esses homens estavam impregnados. A efusão do espírito devia ser o último sinal da era messiânica. Assim dissera Ezequiel: “eu lhes darei um só coração e incutirei neles um espírito novo. Tirar-lhe-eis o coração de pedra e dar-lhe-eis um coração de carne, para que caminhem segundo os meus mandamentos e cumpram as minhas ordens. Sobre a casa de Davi e sobre o povo de Jerusalém, espalharei um espírito de graça e de oração” ( Ez 36,26).

A vinda do espírito santo fora, portanto, o terceiro penhor sobrenatural e o mais definitivo, os outros dois são sua concepção sobrenatural, e a sua ressurreição. A partir desse momento, estes homens já não formavam uma comunidade fraterna, mas uma entidade ao mesmo tempo humana e sobrenatural de almas escolhidas, completamente renovados e prontas para assumir todos os riscos da sua fé; uma comunidade que, mais tarde, havia de chamar-se IGREJA.”se alguém não tem o espírito de Cristo, não é de Cristo”(Rm 8,9)

Foi exatamente isso que se manifestou no cenáculo quando teve lugar a efusão do espírito santo. O ruído do fenômeno atraiu uma multidão de pessoas para junto da casa —- a festa do pentecostes trouxera muitos visitantes a Jerusalém —-, e o espetáculo daquela agitação, bem como o discursos poliglotas daqueles homens, despertaram os risos. Houve quem dissesse: “estão cheios de mosto” (At 2,13). Mas Pedro levantou-se e encarou multidão. Já não tinha medo; o galo que cantara quando tinha negado o mestre não voltaria a cantar. Foi então que, pela primeira vez, nos termos que já conhecemos, gritou a sua fé inquebrantável em Jesus o messias. Começou nesse instante a história cristã, nesse momento começa a instituição que chamamos igreja. Com essa primeira declaração apologética, que era também uma declaração de guerra ao mundo.

Não podemos por em dúvida que havia uma organização, pois todo empreendimento humano a pressupõe, o sucesso do cristianismo no plano temporal prova que o seu desenvolvimento obedeceu a essa lei profunda da história segundo a qual um movimento, para se desenvolver, precisa de quadros sólidos, de um princípio de comando, de um método de ação, e tudo isso em estreita relação, como que fazendo corpo com a doutrina. O próprio Jesus, tinha transmitido essas estruturas aos seus discípulos: para quem souber ler o evangelho, um dos aspectos mais admiráveis da sua atividade sobre a terra é o esforço prático de organização e de instrução que realizou, e cujos efeitos se prolongaram até os nossos dias. Tudo nos prova que Jesus, DEUS feito homem, sabia perfeitamente que, para lhe sobreviver, a sua obra teria necessidade de instrução humana.

Na comunidade primitiva, distingue-se bem os valores institucionais criados por Cristo. É bem evidente de que os apóstolos, suas primeiras testemunhas, aqueles que ele mesmo “designou e estabeleceu” gozam de uma grande autoridade moral. O número de doze, a que Jesus limitou o seu pequeno grupo, tem certamente o valor de um sinal, porque, assim que se tornou conhecido o suicídio de Judas, e antes que tivesse soprado o vento do pentecostes, Pedro pediu aos outros que o substituíssem de comum acordo; tendo o colégio apostólico proposto dois candidatos, lançaram sorte e o espírito santo designou Matias (At 1. 15-26). Entre os doze Pedro parece ocupar o primeiro plano. Vemos por diversas vezes ele assumindo a liderança, como vez por ocasião desta eleição; é ele que toma as iniciativas e a sua opinião sempre tem muito peso. Além dele, apenas João, filho de Zebedeu , parece se destacar. Esta preeminência de Pedro, cuja importância será considerável em relação às consequências da história Cristã, assenta também sobre uma declaração expressa de Jesus, que quis dar quis dar à sua fundação um princípio hierárquico; Cristo nitidamente designara, como ” a pedra sobre a qual a sua igreja seria construída”, este homem de coração generoso: Simão, a velha rocha.

Junto dos apóstolos, há ajudantes e assistentes, uma espécie de apóstolos de segundo plano. Fariam eles parte do colégio ampliado dos setenta (ou setenta e dois) que, no segundo ano do seu ministério, vendo crescer o número dos fieis, o próprio Jesus tinha instituído? Seriam a origem daqueles presbíteros encontramos mais tarde em todas as comunidades cristãs? Qual era exatamente a sua função? Não é fácil precisá-la.

Temos a impressão de que, ao lado da autoridade apostólica, existe a comunidade de Jerusalém — talvez num plano diferente —- a autoridade de outros personagens, principalmente de Tiago, chamado “irmão do Senhor”, isto é, um dos seus primos em primeiro grau, Eusébio ao recolher no século IV tradições diferentes das contidas nos evangelhos e nos Atos acerca dessas remotas origens, consistirá sobre o papel deste santo personagem, que “não tomava vinho nem qualquer bebida que embriagasse, nem nada que tivesse tido vida […] e cuja pele se tornara calosa nos joelhos como a dos camelos, de tanto permanecer ajoelhado em oração”.

Deve-se ver em Tiago, de acordo com esse retrato, o líder de uma tendência especificamente judaica, que teria encerrado a nova fé nos moldes do mais estrito legalismo, em oposição mais ou menos clara ao colégio apostólico, podemos observar que já de início, as da comunidade já refletia algumas questões que causaram divergências sobre a interpretação da mensagem de Jesus. Havia laços muito sólidos entre eles para que as reações da natureza humana viessem a comprometer a unidade da instituição.

À semelhança dos pormenores da organização, também não podem comentar com total precisão sobre os ritos e as obervâncias que caracterizavam os primeiros fiéis. Mas podemos distinguir três práticas fundamentais, que constituirão para o futuro, a base da vida religiosa cristã: o batismo, a imposição das mãos e o ágape fraterno. Quanto ao batismo, tanto em Atos como as epístolas de são Paulo revelam com clareza que as primeiras igrejas o consideram indispensáveis e que que todo novo adepto o recebe no momento da admissão. Por que? Evidentemente porque o próprio Jesus recebeu o batismo de João batista e os seus discípulos também se tinham batizado. Mas o rito cristão possuía certamente, características próprias. O batismo de João distinguia-se das abluções Judaicas e dos mikweh pelo fato de ser um “batismo de penitência”. O dos cristãos inclui também a vontade de renovação e de purificação moral, mas abrange ainda outra dimensão. Os Atos dizem que cada um devia ser batizado em nome de Jesus Cristo, “para a remissão dos seus pecados” (At 2, 38), e veremos que são Paulo, ao encontrar em Éfeso os que tinham se batizados por João batista, lhes revelou que o rito praticado por eles não era suficiente, e os batizou novamente em “nome de Jesus” (At 19, 1-5). Devemos então admitir que, segundo uma fórmula que desconhecemos, os batizados da nova fé deviam reconhecer o messianismo de Jesus e abjurar a falta nacional cometida contra a sua pessoa? ( A didaquê , texto cristão do fim do século I , diz-nos que era normalmente administrado por imersão e podia sê-lo também, excepcionalmente por aspersão.

A ação sobrenatural do Batismo parece ser completada por outra cerimônia: a imposição das mãos. Tratava-se de uma prática israelita muito antiga, de que há exemplos no Antigo testamento, quando era necessário conferir a alguém uma eficácia sobrenatural, o poder patriarcal ou o poder real (Gn 48, 17). Uma prática familiar a Jesus também (Mc 5, 23; Mt 9, 18;19, 13-15; Lc 4, 40; 13, 13). Vemos o ato sacramental por excelência da igreja de Jerusalém, encontramos repetidas muitas vezes na história dos primeiros tempos cristãos (At 6, e 8, 17-19; 9, 12-17; 13, 3; 19, 6; 28, 8). Parece que esse já era o sentido sacramental do crisma que temos hoje, isto é, uma transmissão direta dos dons que o espirito santo derramava sobre os primeiros discípulos no dia de pentecostes, dons de graça, de luz, de coragem e de sabedoria.

Destes antigos ritos o mais comovente é o da comunhão. Os primeiros fiéis perseveravam “na doutrina dos apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). Estes ágapes em comum são verdadeiras refeições; o texto é preciso: “tomavam o seu alimento”(2,46). Mas admitiriam, como a atual Eucaristia.

A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma. Praticava-se verdadeiramente essa caridade doce e humilde, essa amizade de irmãos que São Pedro louvará em sua primeira Epístola. E a prova de que este quadro não é idílico, mas verdadeiro, é que o autor de Atos não hesita em acentuar-lhe também as sombras, deixando ver que a natureza humana, aflorando por vezes à superfície, introduzia nele um traço de pecado e de miséria.

Cristo está ainda ali, muito próximo. Dentre os que dirigem a comunidade, muitos o conhecwram. E esses homens evocam recordações pessoais e contam o que viram e ouviram quando ele ensinava no lago de Tiberíades, ou no meio da multidão, no átrio do templo. Reúnem-se todos os pormenores que se possuem sobre a sua vida, e assim se elabora uma catequese que dará origem à tradição oral e depois será passada a escrito, convertendo-se nos evangelhos. Nota-se sensivelmente a presença do mestre no seio das almas; como já acontecera com Maria Madalena e com os discípulos de Emaús, cada uma delas experimenta essa presença dentro de si, com uma certeza que pertuba e com um ardor que incendeia: “ficai conosco, Senhor. —- O mestre está aqui!”

Um aspecto como é muitas vezes comentado desta era primitiva era cristã deriva ao mesmo tempo do ideal de fraternidade e da convicção da proximidade da segunda vinda de Cristo. Os Atos relatam que os fiéis punham tudo em comum. “Todos os que tinham campos ou casas os vendiam e traziam o produto da sua venda, e depositavam aos pés dos apóstolos, e cada um se lhe repartia segundo a sua necessidade”(At 4, 32-35). Assim se tornou norma comum o preceito que Jesus ensinara ao jovem rico: “vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Lc 18, 22). Cita-se com admiração um homem, José, conhecido como Barnabé, cuja generosidade parece ter sido contagiosa. Mas relata refere-se também a Ananias e Safira, que tinham tentado enganar o Espírito Santo, fingindo trazer todos os seus bens para a comunidade —- o que não lhes havia sido imposto —-, enquanto escondiam uma parte. E a justiça divina os fulminara a ambos (At 5, 1-11). Sem ser exigida por nenhuma lei, essa prática comunitária tinha-se generalizado. Neste período, a fraternidade cristã não era uma palavra vã.

Referência bibliográfica: Daniel Rops – a igreja dos apóstolos e mártires.

A igreja dos apóstolos
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